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É sempre um parto para o Roberto escrever alguma coisa. Ele é jornalista empregado e isso já é uma dádiva, então ele perdoa o destino por não ter dado a ele o tipo de carreira que esperava. Porque jornal é um trabalho que o jornalista faz enquanto não vira escritor ou pelo menos colunista. Esse é o tipo de coisa que o jornalista quer ser. Mas sobra para o Roberto falar da rodada do fim de semana, no caso, o jogo entre Olaria e Americano que ele, aliás, nem viu. Tem que redigir o texto a partir das palavras rabiscadas pelo estagiário. Isso é inacreditável, mas acontece. Futebol é um lixo. Enquanto haviam muitas estrelas do esporte, quando ainda não se vivia a era do marketing, podia ser até um bom passatempo. Hoje é um lixo. Roberto sempre se admira quando passam aqueles programas de mesa redonda. Um monte de marmanjo falando sobre futebol como se discutissem assuntos da maior importância. Surgem teses e teorias, debates nervosos e muitos exaltados a defenderem sua opinião de que o Egenílson será o próximo Garrincha, a volta dos grandes pontas ao futebol brasileiro. "Esse povo só tem merda na cabeça", pensa Roberto, enchendo outro copo. Ele sabe que basta transcrever o pobre texto do estagiário, mas Roberto não se conforma com isso, é um romântico, quer acrescentar algum detalhe que seja original, nem que apenas uma frase. Quer deixar sua marca. Roberto idealizou a carreira de escritor. Queria escrever sobre a dor humana, o sofrimento dos povos do terceiro mundo. Sonhava escrever longos tratados sobre assuntos importantes, participaria de fóruns e seria convidado de honra. Suas opiniões sempre seriam levadas em consideração. Mas Roberto não percebia que escritores e sujeitos parecidos não servem para nada. A maior parte dos que lêem suas obras tendem a absorver opiniões, e não saberiam usar seus próprios pensamentos e percepções. Escritores estão muito frustrados, então escrevem. Tiram de seus sistemas o amontoado de loucura que suas cabeças geram e jogam no ventilador para ver onde vai dar. E onde vai dar? Numa mesa de cabeceira antes de dormir. Mas Roberto leu todos os grandes filósofos. Sabia citar até partes de alguns clássicos na eventualidade de alguma paquera interessante em alguma dessas chatíssimas festas de jornalistas. Suas citações nunca surtiram efeito, mas ele não desiste tão fácil. Sabe que ela aparecerá. Sempre acreditamos que vão aparecer. A mulher ideal, o emprego perfeito, a vida pacata. Mas não chegam. E se tudo chegasse e se encaixasse, e então? O que faríamos? Roberto percebe que essa espera pela morte é o que há a ser preenchido e que todos tem pressa, inclusive ele. Há tão pouco tempo... E Roberto pensa nela, já muito embriagado, aquela mulher tão bonita e distante e inalcançável, e isso tudo é terrível, Roberto, eu sei, eu sei. Deus foi esperto quando fez as mulheres, essas formas, esse olhos e vozes e andar que, quando combinados, causam um impacto que transforma o homem num boneco, um projeto de ser humano, criatura tão fraca. Mas Roberto não acredita em Deus, apesar de nunca ter deixado de escrever em maiúsculo, numa espécie de superstição. Roberto, como se vê, é um sujeito como eu e você. Ele duvida de seus sonhos, mas não pode evitar de tê-los. Ele não acredita nas mulheres, mas as ama profundamente. Roberto não acredita no divino, mas gosta das imagens e de entrar na Igreja para respirar uns momentos. Roberto gosta de rock, mas acha as estrelas do rock ridículas, e aqueles que as cultuam, ainda mais.
O que eu me pergunto é: por que o Roberto foi inventar de virar jornalista? |
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