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Coisa de Louco II
Imagem: Reprodução
Antes de debutarem em cd, lá nos idos de 1988, a banda lançou pelo selo Vórtex a demo tape intitulada "Com Amor Muito Carinho" (foi na verdade a base para o primeiro cd). Graças à fita começaram a se destacar na cena, porém em fevereiro de 1990 um susto: a separação, a banda só voltaria às atividades em 1992 (já com a formação que gravou o cd); um ano depois, em 1993, participaram da coletânea “A Vez do Brasil”, da 89FM (organizada à época por Carlos Eduardo Miranda), juntamente com bandas como Little Quail, Hip Monsters e Pit Bulls On The Crack. As músicas escolhidas foram “Buda Baby” e “Eu” (anos depois regravada pelo Pato Fu, no álbum “Ruído Rosa”). Um dos detalhes do encarte desse cd é o excelente texto de Carlos Eduardo Miranda sobre o surgimento das nova bandas dos anos noventa, e também Carlos Pianta, que aparece na formação da banda como Carlos Machado (!). Em janeiro de 1994 o trio assinou contrato com a Banguela Records, selo distribuído pela Warner e que era de propriedade dos Titãs em parceria com o jornalista Carlos Eduardo Miranda, mas só foram lançar o cd em 1995. “Coisa de Louco II” foi gravado em Porto Alegre, sem participações especiais, intervenções eletrônicas, mas carregado de uma multiplicidade temática que hoje em dia serve para resumir bem o que foi a música brasileira do começo dos anos 90, uma retomada da criatividade e a busca de outros horizontes musicais. Infelizmente, o trabalho foi prejudicado pela falta de zelo do selo Banguela Records, que na verdade, na época do lançamento do cd estava sendo desativado (o fim do selo também prejudicou bandas como o Little Quail, Maskavo Roots, Língua Chula, Party Up, etc). A conseqüência para banda foi um cd mal distribuído e sem muita divulgação, mesmo assim com todos esses empecilhos o disco tornou-se um dos clássicos (algo como nosso Pet Sounds ou Sgt. Peppers, guardadas as devidas proporções) da nossa música, e quase nove anos depois é constantemente citado nas revistas especializadas, e-zines, fanzines, como um clássico pouco apreciado e injustiçado. É indicado por outras bandas anti-rock como Los Hermanos, Pato Fu e também toda nova geração do Rock do Sul (Video Hits, Bidê ou Balde, Repolho). Na época do lançamento de “Coisa de louco II” a banda estava reduzida a um trio. Marcelo Birck foi se dedicar ao Aristóteles de Ananias Jr. e depois à sua carreira solo, quando lançou um álbum de cada projeto, todos pelo seu selo Grenal Records, segundo o próprio Birck, os trabalhos eram os passos à frente da GX. O álbum, que hoje é item de colecionador, transformou a Graforréia Xilarmônica em cult, mas na época foi subestimado fora do Rio Grande do Sul (o músico André Vasquez, da banda Sapatos Bicolores, de Brasília, fez sua tese para universidade citando a banda com o sugestivo titulo de “O que vocês perderam”), a Graforréia teve o tremendo azar de atravessar fronteiras no ano do surgimento do rock debilóide e descerebrado (sem conotações com o fatídico acidente) dos Mamonas Assassinas (a GX tem uma canção inédita, feita bem antes dos caras aparecerem, chamada “Chapolin”). Essa triste coincidência fez com que uma parte do público e da critica musical não tivessem o discernimento correto, e assim, jogassem em uma vala comum (erradamente) as bandas engraçadinhas e as bandas como a Graforréia, que tinha um humor inteligente, ácido, com várias referências ao universo pop da TV , dos quadrinhos, cinema, etc. Em 1998, a banda passou a ser novamente um quarteto, para isso, foi recrutado o guitarrista Eduardo Christ (que andou colaborando em “Vida de Verdade”, segundo disco solo de Frank Jorge, lançado pelo selo YB). Com essa formação, lançaram o segundo cd, “Chapinhas de Ouro”, pelo micro-selo Zoom. No álbum, mais uma leva de hits como “Eu Gostaria de Matar os Dois”, “Beethoven”, “Iluminados Monstros do Amor”, “Baby” e “Pensando Nela” (na verdade “Bus Stop”, dos Hollies, gravada pelos Golden Boys nos anos sessenta). Nesse mesmo ano participariam ainda da coletânea “As 15 Mais - Ipanema FM”, com a música “Sei Que Cê Tá Louca”. Em 27/01/2000, um pouco antes de um show no Bar Ocidente, a banda anunciava a sua separação. Circula hoje em dia um cd não-oficial com raridades, inéditas e versões alternativas da Graforréia Xilarmônica chamado “Havaianos”. Das bandas que estão com seus trabalhos fora de catálogo, ela continua sendo uma das mais pirateadas da Warner. Até onde eu sei... De lá pra cá, Frank Jorge entrou e saiu da banda Cowboys Espirituais, continua lançando os seus discos solos e também escrevendo os seus livros. Marcelo Birck estava à frente da sua banda de Jovem Guarda, Os Atonais, e trabalhando com produção. Alemão seguia em mais uma das mil formações do Defalla e com o seu projeto Supermaneiro. Eduardo Christ advoga e ainda contribui com alguns toques de guitarra em discos dos amigos Frank, já Carlos Pianta se dedicava à sua escola de música chamada apropriadamente de Beethoven. Bem, essa é a minha versão dos fatos.
Faixa-a-Faixa
1) “Literatura brasileira” – Só para quem assistiu a muita TV, sobretudo desenho animado, para achar graça em "raios duplos, raios triplos, Mutley, faça alguma coisa!". O universo colegial retratado de maneira simples e alegre; 2) “Bagaceiro chinelão” – Bom humor na letra e um instrumental divertidíssima, com direito a uma guitarra noise e desafinada; 3) “Você foi embora” – Essa música rendeu um videoclipe para MTV, é um Rock com aquele tipo de refrão (ôôôôôôôôô) que gruda em nossos ouvidos... A dor do abandono narrada sem ser piegas. É uma das canções mais legais, e por sinal, a mais pop do álbum; 4) “Tive teu nome” – A letra é inocente e a levada meio regionalista nos lembra o Kleyton & Kledir. Dá para o gasto; 5) “Grito de Tarzan” – A melhor balada do disco, com um refrão que evoca a terra de alguns dos reis do Rock and Roll (seja de Memphis ou Liverpool/Cachoeiro do Itapemirim). Destaques aqui também para os trabalhos vocais, sobretudo os backings; 6) “Empregada” – Esse iê-iê-ié foi regravado por Wander Wildner, que no seu disco `Baladas Sangrentas` compôs "2x2" (dois por dois mede o quarto da empregada/pra mim ele vale muito/mas para outros não vale nada), que serviu de introdução para "Empregada". O relato aqui é um tipo de amor que é bem mais comum do que muitos imaginam. Poderia ter sido escrita por outro rei, Reginaldo Rossi, de tão peculiar que é a letra (quando eu dei por mim eu já não tinha quase nada/daquilo que sentia pela minha empregada). Estas músicas faltaram na trilha do filme ‘Domésticas’; 7) “Minha picardia” – Letra de duplo sentido (minha picardia em função de um sofrimento/por isso eu canto todos os dias esse lamento), é a primeira Benga Music do disco; 8) “Patê” – Outra letra cheia de sacanagem (andam dizendo que a garota quer/não custa nada dá pra quem não tem/mas não precisa dar se não quiser/e andam dizendo que a garota quer/agasalhar o patê), que termina de forma inusitada (Eu não acredito que você não gosta mais de mim/eu não admito que você me troque por outra mulher). Essa começa com um andamento esquisito até cair em um rock no refrão; 9) “Twist” – Realmente um Twist com letra (a única só de Birck) que debocha bem da falta de conhecimento musical de muitas pessoas (Eu convidei alguns amigos pra conhecer um novo ritmo moderno/botei na vitrola um disco de Twist e eles me mandaram pro inferno); 10) “Amigo punk” – Não é aquela milonga que os nativistas estão acostumados a ouvir, e sim o clássico absoluto do disco, e mesmo que pareça para os ouvidos fora do eixo uma canção bairrista, não é. Um belo trabalho vocal, uma levada gostosíssima por conta de um violão tradicional (que lá pelas tantas desafina) e o tom de uma brasilidade motivada pelo regionalismo gaúcho; 11) “Nunca diga” – Esse clássico foi gravado com uma pegada mais rápida pelo Pato Fu e também foi relido pelo próprio Frank Jorge em seu primeiro álbum, ‘Carteira Nacional de Apaixonado’, lançado pelo selo Barulhinho. O pequeno hino retrata de forma engraçada a relação de muitos amantes da música (Fui lhe mostrar um disco que eu comprei/de um cantor que eu sempre gostei/mas você não me deu atenção). O piano vintage dá um toque todo especial para a canção. O não menos maluco jornalista e músico (contra-baixista e tecladista) Ayrton Mugnaini Jr. (Língua de Trapo e Magazine) também gravou essa canção; 12) “Hare” – É uma música tensa, que não poderia ficar o tempo todo assim. Seu refrão diz tudo: "Shubidu auauwap tchuba/shubidu auau yeah!!!); 13) “Denis” – O Blues elétrico fala sobre conselhos a um certo Denis, que bem poderia utilizar toda a sua rebeldia de uma forma positiva, como diz a canção lá pelas tantas; 14) “Benga velha companheira” – Outra música da safra da Benga Music, uma boa letra, arranjo divertido marcado pelas várias mudanças de andamento. No álbum “Chapinhas de Ouro”, uma outra canção do estilo da Benga Music, a faixa "Benga Minueto"; 15) “Se arrependimento” – Casamento perfeito de melodia e vocal, outra ótima letra sobre um dos sentimentos mais controversos que temos; 16) “Eu digo 7” – Uma celebração ao humor que poucas bandas ainda nos dias de hoje podem fazer sem serem taxadas de estúpidas, letra infantil (Onde esta a bruxa malvada/que roubou meu Prince encantado) que ganha força total com o seu arranjo; 17) “Se você não quis” – É o encontro da Jovem Guarda com o Hardcore em 1'33'' de música, letra simples e direta, mais um solo rápido de guitarra no final; 18) “Rancho” – No começo, os vocais lembram um pouco “Twist and Shout”, dos Beatles. As palmas animam mais a canção que parece fechar o disco dizendo: "Nós nos divertimos muito, e vocês?".
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