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Por Aline Ebert Imagens: Divulgação
Sete e meia da noite, alguns minutinhos de atraso e chega o Julio. Uma pasta em uma mão e uma enorme sacola na outra. Algum bar na Rua da Praia, em Porto Alegre, seria nosso escolhido. E foi. Como músico e com sua veia sexo, drogas e rock'n'roll afloradíssima, algumas cervejas e vários cigarros nos acompanharam.
3 tempos: com seu violão de Elvis, no "HRG" e no Dr. Jekyll
Estava branco, quase da cor de uma folha de papel. Perguntei por sua saúde, afinal, saíra do hospital há poucos dias.
“Indo. Correria na gravação de cd, medicação, problemas financeiros e... De mais a mais, perdi minhas duas garotas”.
Pronto, este era Julio Reny. Apaixonado, idealista, sincero. Poderíamos começar nossa conversa. Iniciei perguntando sobre a sua infância, vivida na Cidade Baixa, em Porto Alegre. Afinal, onde teria começado seu interesse pela música? Aos 4, 5 anos de idade ele lembra de ouvir muita rádio AM e os sucessos musicais da época. Dublava canções, mas achava todo esse universo dos sons muito distante dele.
No estouro da Beatlemania acontecia o casamento de sua irmã. O cunhado tocava piano e violão. Na noite do casamento, aconteceu um sarau na casa da família. Julio lembra de ver seu cunhado tocando Jovem Guarda de um lado e seu tio, com o violão, tocando coisas gauchescas do outro. A música começava a entrar na sua vida... Sua irmã também era a responsável por levá-lo ao cinema. Nas matinês de domingo, as sessões se resumiam a Elvis, Roberto Carlos e Beatles.
O tempo foi passando, as amizades de escola já fomentavam uma vontade de sair tocando Porto Alegre afora. Ele fez alguns bicos de trabalho, mas nada que tirasse da sua cabeça a vontade de ser músico. Em 1979, aconteceu o primeiro show de Julio Reny, numa faculdade de medicina da capital. Conheceu o músico Nei Lisboa superficialmente, quando foi perguntar-lhe sobre um cara que colocava luz em show usando lata de leite ninho. A banda que tocou na universidade era formada por Julio, seu irmão - hoje falecido -, e mais dois colegas de ginásio. O grupo se empolgou:
“Vamos fazer foto, repertório e botar a cara na rua, vamos para a luta!”
Assim começava a trajetória de um dos músicos mais populares na cena roqueira gaúcha.
“No começo dos anos 80, nós éramos um grupo isolado. Tinha a garagem da minha casa e ter equipamento era privilégio. Em 1982, gravei Cine Marabá, que estourou na Ipanema e me deixou um pouco conhecido. Naquela época, tinha feito dois filmes: ‘Deu Para Ti’, em que tive um papel muito naturalista, não muito especial, e ‘Verdes Anos’, em que tive um personagem marcante. Eu era um DJ que depois seria o motivo para eu trabalhar na rádio Ipanema.”
O papo andava e eu notava que aos poucos o Julio se sentia melhor. A cor do rosto foi voltando. Parecia que falar sobre o passado acalmava um pouco suas dores presentes. Ele estava realmente à vontade.
Na onda new wave de 1984 ele resolveu gravar uma fita cassete com, aproximadamente, uma hora de duração. Músicas longas e muita expectativa, mas acabou por vender apenas 10 cópias.
“Eu fui à falência, naufraguei. Então me disseram que Cine Marabá poderia ser uma música para tocar no Rio de Janeiro e pensei em me mudar. Daí o Wander Wildner bateu lá em casa, a gente conversou e notei que em Porto Alegre também estava acontecendo alguma coisa. Eu deveria explorar a cena daqui!”
Ele conta, empolgado, que, ainda em meado dos anos 80, um amigo o apresentou The Clash, Sex Pistols e Police. Fala que o espírito anárquico, punk e revolucionário destes grupos parecia ser o que ele precisava para iniciar a Km 0, banda que formou com Edu K (atual De Falla). Naquela época, também, a banda Engenheiros do Hawaii era bem próxima de Julio. Tinham a chave da casa e garagem dele, como ele mesmo gosta de contar. Com o tempo, o sucesso chegando, a banda foi se distanciando. Quando o questionei sobre esse fato ele pareceu triste, mas respondeu com força:
“Um dia, botaram a chave da garagem com um bilhete embaixo da minha porta e desaparecem. Teve uma época que fizeram um dueto com Nei Lisboa, que tem um timbre de voz parecido com o meu, e não me convidaram, me senti apunhalado!”
Mas, em contraponto, ele também coloca:
“Dois anos mais tarde, eu estava com a banda Expresso Oriente querendo decolar. Aí, o Augusto Licks, do Engenheiros, sugeriu para o Humberto e o Carlos que eu gravasse uma faixa do “Revolta de Dândis”. A música era legal, mas sem apelo comercial. Mesmo assim gravei no melhor disco do Engenheiros, andei de avião e fiquei em hotel fora do Rio Grande do Sul pela primeira vez! Aquilo resgatou nosso relacionamento... Participei de alguns shows como nos velhos tempos e ganhei atenção da imprensa nacional com a Expresso Oriente”
Na entrevista, que já durava vários minutos, não poderia faltar espaço para falarmos um tempo sobre a Cowboys Espirituais. Afinal, essa foi a banda que consagrou ainda mais seu nome. Julio, então, contou-me sobre a cena musical do início dos anos 90. Disse que, de 1992 a 1997, muitos músicos estavam tocando em projetos cover. Frank Jorge tocava com a Black Master, ele com Os Daltons, Márcio Petraco fazia bicos pela Praça da Redenção. O papo foi esquentando e ele começou a me contar como tinha surgido a Cowboys...
“Em 1997, resolvi gravar uma demo para minha namorada e futura mulher. Paguei no meu 13º. salário a tal demo. Fazia um personagem, o ‘Cowboy do Deserto’ na Ipanema e estava numa fase de escutar muito country rock. Tinha amigo de haras e andava a cavalo... Mas eu estava frustrado, queria era fazer som. O Frank estava a fim de largar a música e se dedicar à computação, Márcio queria ir para a Itália... Antes disso, os convidei para gravar a demo comigo. Por nada e para nada, na amizade. Eles gravaram e não paguei nada, foi por uma garrafa de Whisky...”
As músicas da demo começaram a tocar na Ipanema e eles foram convidados para participar de um projeto no Bar Ocidente, em Porto Alegre. O ‘1º. Projeto Ocidente Acústico’ lotou e, nesse momento, Julio lasca uma boa resposta que nos explica um pouco o que é sinônimo de sucesso no Rio Grande do Sul:
“Depois disso, ganhamos uma página inteira na Zero Hora”.
E a coragem de Julio Reny agora era maior. Ele convidou os amigos e enfatizou: “Vou dar um peitaço e gravar um disco”. E afinal, estúdio de amigo era o que não faltaria para ir parcelando... Gravaram “Jovem Cowboy”, uma parceria com o rapper gaúcho Piá. A Ipanema parece ter gostado. Jogaram direto na coletânea da rádio que estava para sair.
Cowboys Espirituais: Julio Reny, Frank Jorge e Márcio Petracco
Carlos Eduardo Miranda, produtor musical e gaúcho, estava se lançando na gravadora Trama. Foi quando contrataram a banda. Nesse exato momento instiguei-me por perguntar sobre a amizade dele com o Miranda hoje, já que é sabido que a Trama, quando se desligou dos Cowboys, causou um mal estar entre Julio e Miranda.
“Foi o engano do rock. A gravadora nos divulgou bem no RS, mas fora... Íamos tocar num programa da Globo, mas na última hora os caras desistiram. Um cara da gravadora teria ouvido uma parte da música que fala maconha, aí foi por água abaixo. Também, numa entrevista que o Márcio (Petracco) deu para a Folha de São Paulo, ele criticou muito o sertanejo, dizendo que a gente não tinha nada a ver, o jornalista não perdoou e publicou, né?”
Aos poucos, o sonho ia terminando. Shows, rádios, sucesso. Como Julio mesmo disse: “...aquela vida toda de gravadora”. Novos sucessos viriam a ser lançados pela Trama, novas promessas, enganos. Miranda preferiu apostar nos brasilienses da Rumbora. Muito dinheiro investido, muita propaganda de uma página na finada Revista Bizz, mas não decolou. Cowboys Espirituais estava cada vez mais em segundo plano, confinado nos pampas.
A banda ainda lançou um álbum, tentou chamar a atenção de possíveis apoiadores, mas não conseguiu. Hoje, em estúdio, eles gravam o que será o terceiro disco. Sem data certa para sair e nem gravadora.
“Em qualquer ramo da vida tu estoura ou não. Quando trabalhei na Ipanema estava melhor, com salário garantido. A qualidade da música caiu e isso é ruim para nós que gostamos da classe dos anos 70. Estamos sofrendo com o emburrecimento do país.”
Atualmente, Julio também participa de outros projetos musicais, como o “Histórias do Rock Gaúcho”, com cd pronto, já indo para mixagem, em que ele sobe ao palco com Egisto Dal Santo, Frank Jorge e Nanão para interpretar músicas de várias bandas, inclusive deles, que marcaram o rock gaúcho. Além disso, faz show solo, interpretando um dos músicos que mais admira no Brasil, Roberto Carlos.
HRG: Julio Reny, Egisto Dal Santo, Frank Jorge e Cristiano "Nanão" Krause
Guerrilheiro e marginal, assim Julio se considera. Aos 41 anos, ele não é reconhecido por sua importância no Rock. Sobram Armandinhos, Valvulados, Papas da Língua e papas pop. Anda a pé, fala de sua filhinha pequena com ternura. Vende coisas próprias para ir levando a vida, quer se mudar de casa, acredita numa possível virada.
Voltamos caminhando pela mesma Rua da Praia, descemos a Borges de Medeiros, fomos até a estação do trem. Confuso, com aquele seu jeito nervoso de falar, ele dizia pensar sobre suas garotas. Não sabia se pegava um ônibus ou encarava uma pernada até a casa do amigo, também músico, Egisto Dal Santo. Julio queria fazer uma canção e a madrugada seria de muita conversa, bebida...
Um abraço na despedida e o agradecimento dele pelo meu apoio. Eu preferi agradecer pelas canções e pelo espírito Rock, de luta e resistência que ele não deixa apagar. E pensei comigo: “Tem tanto músico que precisava conversar com esse cara”...
Saber mais? http://www.julioreny.cjb.net
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