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O turismo deve morrer!!!
Só existe uma coisa que pode prejudicar uma viagem a um lugar abençoado pela natureza: gente. Isso dito, não vou perder meu tempo explicando como elas fazem isso. Mas fazem.
A Ilha Grande foi um inferno para muitos homens que ali ficaram presos quando a ilha servia de presídio de segurança máxima. Ficavam ali nas celas, ouvindo no escuro da noite o mar da praia de Dois Rios, ouvindo os sons da mata abundante nesse lugar lindo. Com certeza era uma tortura sentir tanta liberdade tão próxima, e mesmo assim, tão distante.
Agora a ilha é um atrativo turístico, tanto pela natureza quanto pelo passado histórico. Chegando em Abraão fica claro o potencial da ilha para atrair gringos de todas as partes, principalmente europeus em busca de uma mata tropical, trilhas e caminhadas. Isso é o suficiente para perceber que Abraão é, de longe, o pior local da Ilha Grande. Uma enxurrada de malandros quer logo abordar quem chega oferecendo barco, oferecendo campings, "tudo para ajudar vocês". Que bondade...
Nosso azar foi parar num camping horroroso, e depois tivemos preguiça de nos mudar. Mas isso não importava muito, pois a idéia era não ficar na cidade e entrar logo naquele mato todo, único local onde se poderia sentir um pouco da paz que procurávamos quando saímos da babilônia carioca.
As trilhas e os atalhos provaram logo que meu condicionamento físico estava exatamente como eu esperava: péssimo. Mas vamos em frente, porque vale a pena e depois de algumas horas dessa brincadeira a gente se acostuma. O que posso dizer? Sou um menino do concreto, criado no caos de uma metrópole desde pequeno. Talvez por isso sempre fique tão feliz dentro de uma floresta, sentado numa pedra de rio, sem falar, sem pensar. Basta ouvir e olhar e respirar e ver que realmente nós somos todos uns loucos, com nossas máquinas, nossa frenética rotina, pressa, orgulho, tempo, carros, contas, status, loucos, loucos e além de tudo, insanos.
Como turistas que acabamos sendo também, fomos à Dois Rios, do outro lado da Ilha, para ver o presídio. Foi implodido há alguns anos atrás e não restou muita coisa para ver, nada muito interessante. Muita gente parece se incomodar com o lugar ou então olham com certa reverência para aquele concreto morto. Não achei nada de pesado no clima do lugar, muito pelo contrário. Ali as plantas já começaram a tomar conta e um dia terão engolido tudo que um dia foi uma prisão dos homens. Eu acho isso lindo. Pesado deve ser para um ex-preso voltar ali e lembrar. Para nós visitantes do presente, que nunca estivemos em um presídio, aquilo deveria ser um símbolo da vitória da natureza. Pelo menos enquanto o turismo não prejudicar esse lado da ilha também.
Os habitantes também não parecem muito interessados no passado do lugar. Almoçamos na casa de uma simpática moça que nos trouxe um abençoado PF com peixe. Enquanto comíamos (falo sempre no plural pois estava com meu amigo Maurice, que costuma ilustrar esses textos. Desculpem, esqueci de avisar antes...) chegou um grupo bem "família". Pareciam estar muito cansados e se queixavam de tanto andar e pareciam um pouco arrependidos pela escolha da viagem. O pai de família teve a brilhante idéia de que deveriam fazer um museu do presídio na vila, para então oferecer um serviço de transporte até essa parte da ilha, assim ele não precisava caminhar tanto (uma andada de cerca de uma hora e meia, nada de muito forte). O sujeito começou a falar do Escadinha e da famosa fuga que o cara fez de helicóptero. Perguntou à moça da casa sobre o evento. "Não sei de nada", foi a resposta da mulher (gostei ainda mais dela). "Ah, não deve ser do seu tempo...", ele tentou, mas ela foi firme: "É sim, mas eu não sei de nada...". Na sala, uma fotografia muito antiga de um policial segurando um fuzil, certamente algum familiar. Histórias que estão melhores quietas.
Seria ótimo se a Ilha Grande fosse realmente abandonada por inteiro, pois a
presença humana sempre vem acompanhada de outros incômodos. Essa enorme
ilha, como bem disse o Maurice, vomitando vida por todos os lados, merecia
essa paz. Merecia estar livre de malandros, turistas, bêbados, policiais e
da classe média reclamando de ter que andar. Merecia estar livre de mim e
da minha câmera fotográfica de turista safado. Seria um lugar melhor e
tive que ir lá para perceber isso.
Morte
ao turismo. |
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