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  Essas questões...

 

 



Texto e imagem:
Peter Strauss


              

 

 

  Blablablablabla. Se pudesse reproduzir cinco minutos das conversas que tenho comigo mesmo deitado na cama, podia escrever romances. Mas eu nunca lembro. Eu lembro pouco dos meus sonhos também. Ou viagens do corpo astral, como diria minha irmã. Sou tido como o cético da família. Compreendo. Não sou muito simpático às explicações místicas das coisas. Dizem que sou pouco espiritualizado, que esse meu lado é inconscientemente reprimido. Essas coisas. Acho que existe toda uma retórica desenvolvida contra pessoas como eu. Na verdade não sou tão cético assim.

  Acredito no que vejo, no que sinto, no que percebo. Mas também acredito que vejo muito pouco do que existe de fato. E tudo isso que não vemos, não sabemos explicar com a razão, para tudo isso sempre existiram símbolos dos mais variados, oriundos de crenças tão antigas quanto nós. Acho curioso: ninguém contestaria o que leva um raio a cair, pois a ciência pesquisou, observou e explicou e todos aceitam. Por outro lado, não aceitam a busca racional de uma explicação para questões ainda não resolvidas. A ciência para essas pessoas é fria por ser racional. Acho esse pensamento pobre. A ciência é a busca mais religiosa que pode existir. O que quer a ciência na sua eterna procura? A verdade, por mais subjetivo que seja esse conceito. É claro que podemos procurar "nossas" verdades ou explicações de qualquer maneira que nos agradar. Mas dentro desse conceito porque a ciência é "fria"? Nunca compreendi essa noção.

  Achamos que acreditar em crenças que nos são passadas é mais legítimo, mais poético. Onde está o melhor e o pior? Achamos que espíritos, reencarnações são mais bonitos? Essa discussão fica quente lá em casa, pois contamos com devotos da astrologia por lá e eu não dou muita bola para o zodíaco. Mas respeito quem estude a respeito, admito ser interessante o assunto, mas é uma crença e isso foi muito contestado pelos devotos lá em casa. Mas tudo que quis dizer é que não é uma ciência, que depende de você acreditar ou não que os astros influenciam seu estado de espírito. Não é uma crença? Eu particularmente acho que os astros não estão muito interessados nessas pessoa todas aqui embaixo, e que a maioria dos fãs da astrologia usam programas de computador e raramente se deitam e apreciam as estrelas.

  É curioso. Muitas dessas pessoas ditas "místicas" e "espiritualizadas" gostam de exibir essa característica, mas raramente se vê essas mesmas pessoas interessadas em observar a natureza como ela é: simples. A natureza por si só é divina, tudo aquilo que vemos perante nossos olhos, tudo que não foi criado por nós é divino e nem é necessária uma abstração para percebê-lo. O próprio processo de morrermos e de nosso corpo morto dar vida a outras criaturas, que por sua vez darão vida a outras, já demonstra o que é a verdadeira imortalidade. A vida é eterna e nós não, um conceito muito bem explicado pelo Schoppenhauer no seu ensaio sobre a morte, esse velhinho maroto. Acontece que o ser humano é egoísta e mesquinho. Ele quer que o "eu", o ego, a personalidade sobreviva à vida corporal. Acredita que o que ele chama de espírito é uma extensão de sua personalidade que continuará até encontrar outro corpo onde reencarnará. Mas se é assim, que opção eu tenho? Sou determinado por quem venho encarnar em mim? Essas questões raramente são colocadas pelos místicos e nunca discutidas com racionalidade. Ah, sim, lá vem o racional de novo. Mas cá entre nós, se não se debater uma questão usando nossa razão, qualquer argumento pode ser validado e a discussão em si nem precisa ser iniciada. Se vale tudo, então não vale nada.

  O que quero dizer com tudo isso? Também estou tentando descobrir. Acredito que sou uma pessoa que valoriza a razão. Acredito que a mesma nunca será capaz de explicar tudo, mas eu não tenho essa pretensão. Acredito que o cérebro humano é capaz das maiores proezas, todas elas são perfeitamente críveis e não tem nada de mágico ou místico nelas. Nem tudo que reluz é ouro, não é? Só porque não podemos explicar, não quer dizer que seja mágica. Até porque, no fundo, tudo é mágico. O fato de estarmos aqui, no planeta Terra, sistema solar, discutindo misticismo, ceticismo e crenças prova que Deus, ou seja lá o quê, "criou" um lugar muito louco, que é a existência. Aqui tudo é possível, desde que aconteça. E pode ser explicado, se puder ser observado. Se não, temos que simbolizar esses acontecimentos, talvez para nos dar alguma paz de espírito perante esse pânico que temos de saber que vamos morrer. Entendo porque tenho medo também. Não quero morrer, gosto de estar vivo, há muito o que ver, fazer e sentir. Mas cá entre nós, na morte, o medo não faz mais sentido. Ele morre também.


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