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  Desliguei a TV

 

 



Texto e imagem:
Peter Strauss


              

 

 

  Zap... Três adolescentes disputam um menino vendado que é abraçado por todas elas para que ele escolha... Zap... Mesa redonda discutindo os melhores lances da rodada e a decadência do futebol e... Zap... Índice Dow Jones subiu novamente... Zap... Billie Holiday foi uma artista tão brilhante quanto atormentada... Zap... Mulheres oleosas de formas exageradas se tocam voluptuosamente e... Zap... Scooby Doo quer outro biscoito... Zap... Um Tira da Pesada pela octagésima vez, mas até que é bacana o filme... Zap... Casal discute seus problemas com risadas gravadas a cada frase... Zap... Mais baixas americanas na ocupação do Iraque, a comunidade italiana pede a volta das tropas do país após atentado... Zap, desliga.

 

  Televisão me deixa tonto. A fumaça do cigarro sobe reta indicando o ar parado da sala, lá fora está silencioso, os gatos dormem tranqüilos como se não destruíssem tudo quando não estão. Faz oito horas que esse aparelho estava ligado e meu cérebro já estava em transe. Às vezes é necessário enfrentar a programação. O silêncio dessa sala é opressor. Onde está minha irmã falante quando preciso dela? Penso nas viagens para Mauá, quando ia acompanhado de minha ex-namorada. Que paz. Árvores, rios e cachoeiras e mais nada. Não se precisa de nada.

 

  Necessidades aparecem porque somos muito mimados, nós meninos da cidade. Ganhamos muita coisa e nunca tivemos que batalhar muito. Vamos para o mato e sonhamos e dizemos que um dia vamos morar ali. Não agüentaríamos. Precisamos do stress, precisamos de poluição, cigarros, café e jornal cheio de notícias sem importância. Está imbuído em nosso espírito pequeno-burguês de merda. Mas é uma onda dizermos que amamos a natureza. Uma grande hipocrisia. Assim são nossas vidas. A elite brasileira à serviço de si mesma e das suas "grandes questões". Quando começar algum novo festival de cinema ou música, teremos outra oportunidade de demonstrar como somos inteligentes, como estamos por dentro das novidades, enfim, destilar toda nossa cultura adquirida reproduzindo pensamentos alheios. Essa é uma prática mais comum do que se imagina nesses tempos em que parecer é mais essencial do que ser. Que se dane. Nasci e cresci nesse meio e é dele que sai tudo que eu conheço. A gente só tem como falar do universo que conhece, não há outra maneira.

 

  A fumaça do cigarro me deixa em novo transe. Como é bonita essa fumaça mortal. Azulada ela parece viva, dançando como uma bailarina etérea cheia de véus para se esconder. Dança e desaparece. Assim deveria fazer todo artista. Os artistas hoje são mais importantes que a arte. Não importa muito o que fazem artisticamente, mas importa onde vão passar a virada de ano. A maioria dos artistas, inclusive os melhores, não vale mais do que sua arte. Muitas vezes sua arte vale muito mais do que eles. Na maioria das vezes. E isso é ótimo, existe uma tendência a supervalorizar as coisas, já falei muito sobre isso, eu sei, mas no caso dos artistas então isso é radical. O pior é que raramente são artistas realmente marcantes, com habilidades que os diferenciam do ser humano médio. Muitas vezes é um medíocre qualquer navegando o mar das celebridades e vaidades. A gente gosta muito disso não é? Saber da vida dos outros, discutir as atitudes de terceiros. Será que a gente não agüenta mais olhar o próprio umbigo? Eu não agüento. E ligo a televisão.


  Textos Anteriores:

* Essas questões

* Morte ao turismo!!!

* Apocalíptico

* Roberto, o jornalista

* Tempos de Fama

* Chovendo Canivetes

* Como você banca sua rebeldia?

* Palavras sempre erradas

* Pós-Infinito

* Gin Tônica, Dipirona e outras drogas

* Soberania

* Criticar a crítica é uma crítica?

* Elogio ao amor

* Diário de Viagem - 3ª. parte - Devaneios...

* Diário de viagem - 2ª. parte - Vivendo com os porteños...

* Diário de Viagem - 1ª. Parte - A Chegada...

* Território Minado

 


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