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Nem pensar, 17 ou 67 – que diferença faz?
Imagens: Reprodução
Não dá para não reparar, o cara é muito booom. E isso já deve ter sido dito milhares de vezes, mas nunca é demais repetir. Por outro lado, como falar de um cara já tão descrito, consagrado e tudo mais, mas posso falar do show.
O fio da navalha que lança o duvidoso fato do “ser ou não ser”. Do pêndulo que diz “que povinho retardado, que povinho mais atrasado”, e depois, “que povinho audacioso, que povinho civilizado”. Uma posição sem meias verdades e muitas palavras. O incrível e destemido improviso como parte essencial do trabalho, não dá para acreditar, mas, pasmem, é verdade: ele ainda existe. Arte contemporânea já nos anos sessenta, mas ele não é de Irará, interior da Bahia? E o jeito de sertanejo? Não importa para ele se tem 67 e parece dezessete.
Vamos ao multi-show de Tom Zé? Teatro Tobias Barreto, 14 de dezembro, em Aracaju/SE. Um evento que lança, ao mesmo tempo, o cd 'Imprensa Cantada (2003)', o dvd 'Jogos de Armar' e o livro 'Tropicalista Lenta Luta'. Todos lançados agora no final de ano. Um presente de Natal. Sua performance reativa às forças e esperanças de nossa cultura tão achatada.
Com um trabalho que, antes de tudo, mostra honestidade consigo mesmo, fidelidade e coerência à sua história, esse espetáculo apresenta músicas novas e antigas interpretadas com muito vigor e determinação. Saltos, pernadas ao ar, desenhos com o corpo, várias atividades performáticas, inclusive no projeto de luz. Um minucioso trabalho, além da excelência dos improvisos. E que fique registrada a ótima voz.
Sua espontaneidade foi sentida ao ver seu pedestal cair do palco, e ao resgatá-lo, ele viajou continuamente como se o pedestal fosse um pêndulo, tombando-o para frente e ele voltando sozinho, dançando ao tom do Tom por vários instantes. Tive vontade de ir ao camarim e fazer umas perguntas, mas depois do show não tinha mais o que perguntar, já estava tudo respondido. Não dava para inventar uma pergunta. Há se eu fosse um repórter... Sua fala foi direta, dizendo o que pensa e tudo o mais que está acontecendo. Não deixou de falar nem de responder ao público em momento algum.
Verdade seja dita: assistir ao show de Tom Zé foi uma lavagem da alma. Para mim, e acredito que para muitas outras pessoas que não viveram o Tropicalismo como eu, foi como acreditar em uma coisa mal compreendida e já (quase) morta. A época desse movimento me confundia com o da Contracultura norte-americana, com sua liberação sexual, psicodelismo, criatividade e crítica social, por isso não prestava muita atenção por pensar em imitação. Só então fui entender que aqui estava acontecendo uma revolução criadora, que absorvia e reconstruía o que vinha de fora de maneira totalmente revolucionária. Deveria ter a ver com o movimento antropofágico. Fui assistindo e caindo a ficha.
Hooooooooooooo!!! Demorou. Que delírio consciente.
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