Passado presente

 

 

 

 

Texto e imagem: Aline Ebert

 

 

 

 

 

  Joana fora  casada durante 60 anos com Manoel, português legítimo. O senhor, viera de Portugal para  visitar o Brasil. Em uma festa, conhecera  Dona Joana, na época com 17 anos. Foi  amor à primeira vista, contava ele aos amigos. Se aqui no Brasil tinha uma mulher para ele,  esta mulher seria Joana.

 

  Não tiveram filhos, Manoel tinha um problema, na época não muito bem esclarecido. Viviam felizes. O dinheiro vindo das costuras que Joana aprendera com a mãe,  somado ao dinheiro conquistado por causa de belos móveis produzidos por  Manoel, garantiam  o sustento da casa simples, dos sonhos sempre alcançados.


  O afeto pelas crianças era compensado com os sobrinhos  e os filhos dos amigos. Um dia, porém, Manoel propôs a adoção e, na mesma hora, Joana aceitou. O nome do menino? Carlos. Um recém-nascido ávido por bons cuidados. Poderiam lhe dar educação, um lar, uma família, carinho. Perfeito, tinham tudo que pediram a Deus. Apenas os anos, estes passavam e traziam o gosto de melancolia...

 

  Agosto de 1998.  Carlos já bem crescidinho, estabelecido, com filhos, uma casa, uma nova família. Dona Joana, com 80 anos, acumula esforços nos cuidados com Seu Manoel, já com 90. A maldita doença  impregnara seu corpo, o câncer. Seis meses de cama, o câncer distribuía-se em todos órgãos. Manoel faleceu, deixou a saudade, a tal melancolia em Joana. Velha, lúcida, mas velha. O filho, que tinha vivido tão bem, aconchegado e apoiado no amor dos pais adotivos, perdera os princípios.

 

  A decisão viera por parte dele. A casa, conquistada com tantos esforços pelo casal, seria vendida. Os móveis, numa caridade grandiosa, doados. Dona Joana, asilo. Carlos, a esposa, dois filhos, casa lotada, sem espaços. A mãezinha estaria bem melhor atendida no Asilo São José. Mais amigos, conversas, mais vivências compartilhadas. Proximidade de idades, histórias para contar. Enfim, Joana pensava um pouco diferente.

 

  Tantos anos de vida, objetivos conquistados, Manoel, Carlos, homens de sua vida. Sua casa, sua cama, sua máquina de costurar, suas lembranças. Há três anos no asilo, já gostaria de morrer. Há quatro meses não recebe visitas. Se agarra às fotografias pelo quarto, lê jornais, assiste novelas e lembra do passado, e como lembra. “A vida não é como a gente quer. É como é. E pronto!”, assim ela fala. Assim a vida lhe falou.

 

...

 

 

 P.S.:  O conto foi escrito em alguma noite de 2002 e readaptado na semana passada. Já a foto, foi clicada no primeiro semestre de 2003 para uma matéria de fotografia na faculdade.

 

 


 


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