http://www.dissonancia.com  .

desde 13/07/2003


                                       Assim Sou Eu
                             



 
Por
Ricardo Alexandre G. e Mateus Rocha

 Imagens: Ricardo A. + Reprodução

 

 

 

 

 

  Nem em nossas conspirações mais otimistas à caminho do hotel, onde entrevistaríamos o grande Odair José naquela manhã de abril último, poderíamos imaginar o que nos aguardava para as próximas quatro horas. Sim, nosso material de gravação, por exemplo, supria apenas uma hora de conversa, o que acreditávamos ser mais que o suficiente.

 

 

  Foi por procurar explorar um lado pessoal e artístico pouco (re)conhecido que ganhamos a simpatia do mestre, fazendo com que o papo que como ele mesmo disse, "Não era pra ser mais do que cinco minutos", fosse estendido, propiciando-nos um momento de raro privilégio. Tomar conhecimento de uma série de pérolas tanto em forma de histórias quanto de frases, com ele se abrindo de uma forma surpreendente e natural, acerca dos mais variados temas: política, música, sexo, religião, drogas, família, comportamento...

 

  Entre uma dose e outra, Odair nos contou sobre festas com Mick Jagger na casa de Rita Lee, gravações com Sérgio Dias, parcerias com Raul, shows que viu em Londres e uma série de outros petardos de causar inveja/admiração a qualquer rocker de plantão.

 

  O papo rolou de forma descontraída e aberta todo o tempo, com pequenas intervenções telefônicas (mulher, produtor, jornalista do Estadão...) e por fim, ainda tivemos a honra de sermos convidados a almoçar com o mestre!

 

  Fiquem com a entrevista que, por si, só explica a grandeza do momento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Dissonância  Para nós, é um mote podermos conversar com você, até para compreender o rótulo de cantor brega. Fizemos questão de buscar várias coisas na internet, revistas, para que pudéssemos conduzir a conversa para outro lado, outra concepção...

 Odair José  Por isso é que gosto de pessoas jovens! Você pega um disco da Brenda Lee, de quem certamente nunca ouviu falar... Brenda era uma cantora americana, já deve até ter morrido; na época era considerada brega por esses caras intelectualóides... Pegue um disco dela e ponha hoje: atualíssimo!

  Tem que ver é o talento das pessoas; eu não sou fã de Elvis Presley, e sim do Paul McCartney, para mim, o maior músico do mundo. No instrumento e em tudo, não tem cara igual, tá provado. É falta de talento um repórter buscar essas coisas; estava lendo um jornal antes de vocês chegarem e é sempre a mesma coisa que se coloca ao meu respeito: Brega!


 Dissonância  Li um perfil contigo no site do Fã-Clube Oficial Assim Sou Eu, e na parte sobre os ídolos, dentre eles, o James Dean. O que você teria absorvido de ícones do pop, como o Elvis Presley, Paul McCartney e o James Dean, para desenvolver e ir consolidando o seu trabalho?

 Odair José  James Dean, Marlon Brando, eu gostava do Elvis Presley, um cantor de Rock admirado por muitos. Elvis foi um rebelde sem causa, James Dean era o rebelde com causa.

 Dissonância  A rebeldia virou até um "marketing" na visão da indústria do cinema em relação ao Dean.

 Odair José  Sim, e o Elvis era metálico.

 Dissonância  No que o James Dean teria a influenciá-lo?

 Odair José  A solidão, James Dean era um cara muito sozinho; a solidão do meu trabalho é a minha identificação com o James Dean. Estou sempre só, sempre fui um cara só. Sou casado, mas mesmo quando estou em casa sou um cara só. As minhas canções sempre falam de solidão. Sou apaixonado pela solidão.

 Dissonância  Separamos dois rótulos, espécie de karma que o acompanha - pretensamente brega e cafona -, "Bob Dylan da Central do Brasil" e "Terror das Empregadas". Eles impõem um certo incômodo? Essas expressões, por exemplo, foram colhidas no livro do Paulo César Araújo, Eu Não Sou Cachorro Não (Editora Record).

 Odair José  Bicho, quem teve o prazer de lá em Londres ver o Jeff Beck tocar guitarra, ver o Eric Clapton tocar guitarra, caras que tocam muito, porque eu iria me preocupar com esses rótulos (risos)? Sem falar que o som do Neil Diamond foi outro que me influenciou, enquanto eu estava lá em Londres.

 

  Não fui exilado, mas não estava curtindo o clima daqui, as pessoas querendo saber se você se separou ou não, além da própria censura, então fui pra Londres passar um mês e acabei ficando oito meses. Vinha semanalmente ao Brasil, pois a minha situação com a gravadora me permitia isso, e por lá assisti aos maiores shows.

  Da mesma maneira, hoje não, mas teve uma época em que eu "corria" dos Titãs como o Diabo corre da cruz. Na época do (Marcelo) Frommer vivo, do Arnaldo Antunes, eles eram apaixonados pelo Odair José; teve a Marisa Orth que gravou aquele trabalho com o Vexame, né, enfim, são pessoas que estudaram para ter uma opinião formada. O pessoal dos Titãs estudou numa faculdade em São Paulo só para pessoas ricas, analisou o Odair José, o Roberto Carlos, e pô, são legais.

  Aí vem uma pessoa e fala "cafona"? Eu não me incomodo.


 Dissonância  Melhor dizer, dispensável, não?

 Odair José  É dispensável o negócio de Brega, e assim seria se fosse chamado de cult, de "Bob Dylan", eu apenas faço um trabalho. Eu não acho que alguém deva ser crucificado pelo seu trabalho.

 

  Por exemplo, eu estou há 34 anos gravando disco, e desses 34 anos, eu devo ter vendido uns 8 milhões de discos, num país de 170 milhões de pessoas. Acho que vendi bastante disco!

 Dissonância  Isso tudo começando num momento em que o jabá não era tão presente quanto hoje...

 Odair José  Nunca paguei jabá pra ninguém. Acho melhor dizer assim, olha, são 34 anos na profissão dele, e é aquele negócio, "Ah, ele é cult, ele é brega, é Bob Dylan"... É o negócio do "Babyface" com o Paul McCartney - ele é bonito, mas, porra, ele é conhecido como músico; o Peter Frampton vendeu não sei quantos milhões depois que saiu daquela banda, a Humble Pie. Bonitinho, loirinho, hoje está careca (risos), fez um disco e "Ah, você é lindo", não, "sou guitarrista", pô, foi tanto que ele deixou a barba crescer!

  Hoje eu não tenho mais tempo para isso, mas há um tempo que eu ia fazer barba ouvindo Herbie Hancock, tenho todos os discos dele, todos os discos do Steely Dan são maravilhosos. O cara conhece "Hotel California", do Eagles; essa banda eu ouço desde quando foi criada, mas o Brasil conhece "Hotel California". O Brasil não sabe que quando eles se juntam para tocar, são 10 milhões de dólares numa noite. Shows simplesmente fantásticos!


  Recentemente, numa pesquisa na Inglaterra, eles ganharam como a melhor banda do mundo, e não Beatles. Agora, no Brasil, "Ah, quem são os Eagles?", ninguém sabe quem é, mas a banda de Hotel California, o tal crítico que escreve no jornal: eles não sabem quem são Eagles! Você sabe de uma coisa, esses caras que se dizem saber das coisas, no fundo não sabem merda nenhuma. Eu morei na Inglaterra, em 74, e conheci isso de perto.

  Veja, vai ter um debate por esses dias comigo, Zeca Baleiro e Chico César, no SESC (SP), sobre a imprensa. O Paulo César (Araújo), do livro, estará lá, historiadores... Está saindo um cd agora que vai acompanhar o livro, sendo como uma trilha sonora. Eu nunca tinha visto trilha sonora de livro, de novela sim, mas de livro, nunca.


 Dissonância  O livro "Noites Tropicais", do Nélson Motta, tem trilha sonora!

 Odair José  Ah, eu não sabia... Então, vai sair pela Universal a trilha do Eu Não Sou Cachorro Não, com 14 canções de 14 protagonistas do livro. Ele resgatou, foi muito engraçado, uma canção minha desconhecida de todos, que nunca foi lançada. Ela é de 73 e faria parte do "disco da pílula", mas aquele negócio de ditadura, melhor, censura, os caras censuravam e ela foi proibida, não consegui liberar...

 

  E agora, com a informatização, as instituições encolheram e uma coisa que era num prédio de 5 andares, ficou restrita a uma sala. Resultado: ele acabou achando essa música e remasterizaram só para que ele colocasse nessa trilha. Devia estar no meio das baratas e agora ele vai lançá-la! (Risos) Prova de que ele é persistente, deve ter sido um saco para conseguir. Ele deve ter pensado: Já que a censura proibiu, eu vou lá pegar!

 Dissonância  E como é a pegada da música?

 Odair José  Não sei se você conhece um Neil Young da vida, aquele canadense; uma levada mais folk... A vida é muito engraçada: tinham tantas músicas disponíveis e ele querer logo essa! Eu acho legal.

 

  Esse cara pode dizer "Olha, o seu trabalho é uma merda", mas não uma pessoa que nunca ouviu meu trabalho.

 

 Dissonância  E sons novos, o que tem acompanhado?

 Odair José  Eu tenho um garoto de 12 anos de idade, que eu levo para a escola. É uma criança muito legal; entra no carro e já liga o rádio! Eu detesto ligar o rádio, mas cheio de liberdade, nem pergunta se eu quero ouvir. Só liga em duas rádios: 89 e 107, em São Paulo.

  Cara, o que tenho ouvido de atual é o Carlinhos Brown, o Chorão (Charlie Brown Jr.), o Skank, o Jota Quest. São caras que estão fazendo o trabalho certo. Aquele menino do Jota Quest canta muito bem, o rapazinho do Skank, Samuel, canta e toca bem.

 

  Então, eu aprendi e direi o que disse a um outro jornalista: Não estou com essas informações todas para te dar, mas acho o Jota Quest muito bom, o Skank, sendo que o Jota Quest é mais música, o Skank é mais emoção.

 Dissonância  Você chegou a ouvir o novo do Skank, o Cosmotron, com alta influência de Beatles?

 Odair José  Ah, sim, mas todo mineiro é imitação dos Beatles. Você falou certo, eles imitam os Beatles até nas guitarrinhas, na levada.

 

  Também estou lançando disco novo, chamado "Passado e Presente". Vai estar na boca do povo e será lançado pela GEMA, com 7 inéditas e 7 antigas! Fiz meio Eagles, meio (The) Doors, além dos 4 violões, baixo, bateria e piano/órgão.

 Dissonância  Pensava que o último fosse o "Uma História" (2003).

 Odair José  Que nada, esse foi malandragem, não aconteceu nada...

 Dissonância  Foi independente?

 Odair José  Não, pela Sony, mas gravam o disco e não botam no mercado, não trabalham. Não entendo esses caras das grandes gravadoras, só tem burros, com raras exceções. Tire uns 30% e 70% são de tapados.

 Dissonância  Dizem até que os próprios caras das gravadoras seriam financiadores de grande parte da pirataria, pois teriam canais e condições de comprar bons equipamentos para dinamizarem a demanda?

 Odair José  Não, não é verdade. Assim seria uma roleta-russa, financiadores não. Eu sou da época do vinil, que era muito melhor do que o cd, não na qualidade do som, mas pela arte, a foto maior, e com o cd ela ficou diminuída.

 

  Veja, a Philips era a dona da gravadora Philips, que depois virou Polygram, Phonogram e hoje é a Universal; no que ela estava fazendo os aparelhos eletrônicos para que se copiasse, que se criasse a pirataria, ela vendeu o emprego. Fez aparelhos eletrônicos para que você pegue um disco e o transforme em milhares de discos, então o comprador não é o ladrão.

 

  Inventar uma máquina, ganhar dinheiro pra caralho, só que para cobrir essa "minha" empresa (gravadora), pois a outra eu não quero mais.

 Dissonância  Teria um novo músico na linha do Odair José?

 Odair José  Você sabe porque eu existo depois de 34 anos? Porque não tem ninguém dando prosseguimento, na verdade não tem. Quando falam que sou seguidor do Roberto Carlos, falam por cantarmos o amor, definir momentos de pessoas.

 

  Bicho, eu tenho um disco do Roberto que ele não está na capa, mas um casal e uma flor entre eles; tem o nome da orquestra com a qual ele está cantando. Ele é o intérprete da orquestra. Poucas pessoas têm, deve ter sido de 59, é da CBS.

 

  Tem uma música dele que ainda vou regravar uma versão, será um disco de versões, e ela é americana, mas também tem coisas brasileiras como Malena, o primeiro sucesso do Roberto Carlos, com letra de Rossini Pinto. Esse disco vocês não encontram no mercado, porque a matriz foi quebrada... Eu devia ter uns 18 anos de idade.

 Dissonância  Mas não era o "Roberto Carlos", já em destaque?

 Odair José  Não, o Roberto só foi ser famoso com O Calhambeque!

 

 

 

 

 

 Mateus e Odair, mandando "Eu te darei o céu", do Roberto

 

 

 

 

 

 Dissonância  E com o Raul, como foi a parceria, inclusive com o Raul empresário?

 Odair José  É um grande cara, um amigo bacana... Gravei uma música do Raul que ninguém conhece, eu até estava pensando em regravar. O Raul era um produtor da empresa, trabalhando como funcionário - ele era gerente de produção! Tinha ele, o Rossini Pinto, Mauro Motta, Renato Barros e o Abdias, do pessoal da sanfona no Nordeste. Eu era produzido pelo Rossini Pinto!

 Dissonância  Aquele disco do Raul, bem bizarro, o "Sessão das Dez", foi dessa época...

 Odair José  Sim (risos), ele, Míriam Batucada, Sérgio Sampaio e Edy Star, muito legais. O Raul andava de terno!

 Dissonância  Qual foi a música do Raul gravada por você?

 Odair José  Foi Tudo Acabado, com ele tocando o violão. Ele era altamente normal... Deixa eu explicar uma coisa para vocês: eu convivi com o Raul por 20 anos, não tem negócio de doido. Dependência ou ser dependente químico é uma coisa, doido já é outra.

  Hoje, o escritor que mais vende livros no mundo é o Paulo Coelho, digamos, apenas um ajudante do Raul na Sociedade Alternativa. Daí se tem a dimensão do que ele (Raul Seixas) é!


 Dissonância  E aquele disco que saiu na Argentina, era uma iniciativa comum na época?

 Odair José  Julio Iglesias, para você ter uma idéia, passou 8 meses na minha casa, no Rio de Janeiro. Ele, grandão, naquele jeito falar para mim: você é o maior cantante do mundo.

 

  Eu olhava para a cara dele e dizia: E você é o maior cantor aonde, então? Portanto, quer dizer, eu já vivi muito para ouvir merda.

 Dissonância  Falando sobre ídolo, o Dissonância entrevistou o Wander Wildner por estes dias, e é incrível como você é referência para uma série de bandas de Rock. Los Hermanos agora regravou Vou Tirar Você Deste Lugar... Chegou a ouvir a versão deles?

 Odair José  Sim, eu sei, saiu no filme da Casseta & Planeta; eu pensei que eles fossem fazer diferente, mas cantaram ela romanticamente. Eu pensei que ia ser uma música  diferente, mesmo assim ficou boa.

 Dissonância  Sobre a estória da sua ópera-rock, em 77, O Filho de José e Maria?

 Odair José  Nunca foi ópera-rock (risos)...

 Dissonância  Mas foi uma viagem sua, e por que não, religiosa?

 Odair José  (Risos) Não é uma viagem... Depois que eu estive no Vaticano, eu virei cristão. Antes eu era católico! Sabe a minha opinião sobre Jesus Cristo? Ele é competente! Eu não acredito em vida após a morte, sou agnóstico e quem morre, pronto, acabou. Viver se torna coerente.

 Dissonância  Foi antes ou depois de Londres?

 Odair José  Depois. Vocês já ouviram falar em Khalil Gibran Khalil? É o maior poeta do mundo árabe.

 

  Khalil Gibran Khalil é o autor do livro O Profeta, se você tiver a oportunidade, compre. Ele tem vários livros, mas o melhor é O Profeta; morreu há mais de 200 anos. Foi o único cara permitido a ser enterrado ao lado de Maomé. Eu li o livro e assisti em Nova Iorque, 1975, o Peter Frampton na guitarra e mais três caras na banda: um piano Fender Rhodes, baixo e bateria; ele com os cabelos todo encaracolados... Então voltei ao Brasil apaixonado pelo livro e pela guitarra do Frampton.

 Dissonância  Chamaram de ópera por ser mais direcionado, encenado?

 Odair José  Não, eu nunca disse que era uma ópera. O disco é "O Filho de José e Maria"!

 Dissonância  Certo, mas tem o lance teatral, não é?

 Odair José  Isso tem. Se você for ouvir, ele tem mais órgão do que guitarra; nesse disco eu tive a honra de conviver com os maiores músicos do Brasil.

 Dissonância  Quem tocava contigo no álbum?

 Odair José  Pô, tem uma guitarra ali que quem toca é o cara dos Mutantes, o Sérgio Dias... Aquele disco foi uma diversão, cara, eu passei os 6 meses no estúdio me divertindo. Um vinho aqui, uma cachaça ali e só gênios dentro do estúdio, muita grana na produção. Sou um rato de estúdio, mas sou melhor no palco.

 Dissonância  Chegaram a excursionar, tinha uma peça que acompanhava o espetáculo?

 Odair José  Teve realmente esse negócio de teatro e tal, com Guilherme Araújo, que era empresário do Caetano Veloso.

 Dissonância  Falando no Caetano, tem uma foto de vocês juntos, tocando violão e tomando algo...

 

 


 

 


  Duplinha dinâmica: Caetano Veloso e Odair José

 

 

 

 


 Odair José  Era um copo de Coca-Cola. O Caetano é "saúde". Está saindo nos próximos dias o meu novo disco e numa das faixas eu estou tocando violão com o Caetano numa música - Vou Tirar Você Desse Lugar!

 Dissonância  A gente também viu outras fotos tuas com um monte de mulheres: Wanderléia, Rosemary... Qual delas você chegou junto?

 

 Odair José  Não, tudo minhas amigas. (Risos)

 

 

 

 

 

 Com a Wanderléia...

 

 

 

                                                     ... e a Rosemary!

 

 

 

 

 

 Dissonância  Conta pra nós como o Odair trabalha em estúdio?

 

 Odair José  Eu sempre gravo da mesma forma, faço todas linhas de violão e coloco a voz, depois a banda coloca o restante do instrumental.

 

 Dissonância  Vamos retomar o assunto daquela letra, a que foi censurada e recuperada pelo Paulo César. Do que se trata a letra?

 Odair José  Eu não lembro da música, não sei como começa a melodia, só sei que a intenção da letra é que eu digo que gosto de uma mulher e faço sexo com ela em qualquer lugar, em cima do balcão...

 

  O general Golbery, que era o cara que organizava a situação do país, achava que eu era contra os conceitos familiares, como por exemplo, Essa noite você vai ter que ser minha; não podia falar "pare de tomar a pílula", isso também não podia... O cara casar com uma puta, "Vou Tirar Você Desse Lugar", não pode... Era proibido pela "Moral".

 Dissonância  E pelos bons costumes, não é? (risos)

 Odair José  E os bons costumes... (risos)

 Dissonância  Por isso foi morar em Londres?

 

 Odair José  Não, não foi por isso.


 Dissonância  Por pouco o Odair José não ia sair do Brega e ficar com a marca de um Anti Cristo, sendo queimado vivo, como na Idade Média (risos).

 Odair José  Eu tô mais para a "bocada". (Risos)

 Dissonância  E o single, "Eu Queria Ser John Lennon Um Minuto Só", como foi essa estória? Foi um single mesmo?

 Odair José  Não, ela foi retirada de um disco, somente. Eu sou fã, musicalmente falando, do Paul McCartney, para mim, o melhor músico do mundo, depois, evidentemente, dos clássicos, dos Beethoven da vida. Depois da turma do Clássico, Paul é o melhor. Está comprovado, o cara é rico pra caralho, um vitorioso e sensato. Ele canta, não treme a voz e por isso estaria errado. O Sertanejo treme a voz, por exemplo.

  Então eles, o John e o Paul, tinham aquelas confusões, aquela bronca da Linda McCartney com a Yoko Ono, sendo que a banda acabou mais por aí. Na verdade, acabou por tanto tempo convivendo um com o outro, praticamente desde criança; elas duas aceleraram a separação! Assim, eu fiz uma gozação na música, querendo ser o John Lennon casado com a Linda McCartney. (risos)

  Voltando a falar sobre o Sertanejo, o ano tem quanto dias?


 Dissonância  365 dias!!!

 Odair José  Existem 4.000 feiras de gado no Brasil, então qualquer pessoa que cantar num dueto ficará rica. Cachês são 200 mil, 100 mil, e cantando nesse circuito estará facilmente milionário. Você diz assim: "São gênios!". Não, qualquer pessoa que entre no circuito do boi e em dueto ficará milionário.

  Bem assim são os dos EUA, são milionários: Billy Ray Cyrus, Willie Nelson, e tem um negócio que vocês precisam saber. Aí volta aquele assunto do James Dean, o artista, essa palavra artista eu não gosto, o músico não tem a obrigação de ser bonito, não tenho a obrigação de ser rico. A minha obrigação é tocar!


 Dissonância  Aí vem a imprensa falar "cantor de sucesso, músico disso ou daquilo"...

 Odair José  Isso de "O Cantor da Década", eu nunca pensei em ser cantor, pô, isso foi uma conseqüência. Eu quero ser o cara que toca no restaurante, que ninguém sabe que estou ali, que quer passar desapercebido.

 

  É isso que as pessoas devem perceber nas coisas! Como Paulo César Araújo, que escreveu aquele livro, eu o acho um louco por ter conseguido aquela música da censura, é muito inteligente. Levou cinco anos buscando esses materiais, foi lá em Brasília e tem opinião formada. Sabe quem é quem; está escrevendo agora sobre o Roberto Carlos!

 

  Qualquer cantor que queira fazer um disco romântico, inspirado no bolero, pode saber que isso é comigo e com o Roberto.

 Dissonância  E o Roberto Carlos, Odair, nota-se a presença dele no seu trabalho?

 Odair José  Roberto Carlos é o maior artista brasileiro. Você pode dizer hoje, "Ah, aquele velho que só canta a mesma coisa, aquela orquestra atrás", mas o cara já fez coisas espetaculares e cobram dele um trabalho melhor, vê se pode? (risos).

 

  Acho um absurdo! Ele não precisa fazer mais nada, não. Eu nunca tive o Roberto Carlos como um ídolo musical, é meu ídolo como comportamento. Discreto, muito na dele e certas coisas que contam dele são mentiras. O cara não liga para você, não sai para lugar nenhum, então deixa o cara em paz.

 Dissonância  Não rolou parceria na antiga com o Roberto?

 Odair José  Sou amigo do Erasmo, tive nesses 30 anos somente umas 10 vezes com o Roberto, mas só "Oi, como vai", nada de trabalho. Você bate de frente com o cara, o compositor de músicas como "Estou amando loucamente, a namoradinha de um amigo meu...", é mesmo de emocionar. Encontrava e ele dizia: "E aí?", risos, eu ficava bobo!

 

 

 

 

 

 Odair, Paulo Geraldo e Erasmo Carlos

 

 

 


 Dissonância  Inclusive conheci uma foto do Odair como goleiro, nos anos 70...

 Odair José  Não, eu era centroavante! Sempre fui camisa 10, pô! Risos... Era um Zico.

 Dissonância  É flamenguista?

 Odair José  Não, são-paulino.

 

 Dissonância  Odair, com aquele seu visual dos anos 70; músicas populares e por vezes caçadas pela ditadura; letras intimistas; ópera-rock; ficamos querendo saber se o "Terror das Empregadas" havia tido experiências psicotrópicas. Rocks, o visual, as letras, neles não continham, digamos (risos), lisergias?   

 

 Odair José  Sim eu passei pelas drogas, cheirei cocaína, fumei maconha, isso pelos anos 80...

 

 Dissonância  Mas nos anos 70 Odair, com aquela cabeleira... (risos)?

 

 Odair José  Não, aquela época era mais uma bebidinha, a coisa da droga na minha vida passou rápida, o melhor estado é o da lucidez.

 

 Dissonância  Para finalizar, poderia falar sobre o seu trabalho com a Diana, então sua esposa, lá nos anos 70?  

 

 Odair José  Eu produzi a Diana, embora ela já fosse artista, já estivesse na trilha. Era um bom trabalho, mas ela só fez sucesso enquanto esteve comigo.  O Raul era o produtor da Diana, e deu a ela a canção "Ainda Queima uma Esperança", que tornou-se um dos maiores sucessos da cantora.
 

  Lembram do que contei sobre ficarem falando de separa-separa? Então, era com ela e tenho o privilégio de ser o 4o. divorciado do país!

 

 

***



 Agradecimentos especialíssimos ao Sr. Milton Santos,
 idealizador do
Fã-Clube Assim Sou Eu.
 

 


  

                                   [ Página Inicial ]