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13/07/2003 |
Assim Sou Eu
Imagens:
Ricardo A. + Reprodução

Nem em nossas conspirações mais otimistas à caminho do hotel, onde
entrevistaríamos o grande Odair José naquela manhã de abril último,
poderíamos imaginar o que nos aguardava para as próximas quatro horas. Sim,
nosso material de gravação, por exemplo, supria apenas uma hora de conversa,
o que acreditávamos ser mais que o suficiente.
Foi por procurar explorar um
lado pessoal e artístico pouco (re)conhecido que ganhamos a simpatia do
mestre, fazendo com que o papo que como ele mesmo disse, "Não era pra ser
mais do que cinco minutos", fosse estendido, propiciando-nos um momento
de raro privilégio. Tomar conhecimento de uma série de pérolas tanto em
forma de histórias quanto de frases, com ele se abrindo de uma forma
surpreendente e natural, acerca dos mais variados temas: política, música,
sexo, religião, drogas, família, comportamento...
Entre uma dose e outra, Odair nos contou sobre festas com Mick Jagger
na casa de Rita Lee, gravações com Sérgio Dias, parcerias com Raul, shows
que viu em Londres e uma série de outros petardos de causar inveja/admiração
a qualquer rocker de plantão.
O papo rolou de forma descontraída e aberta todo o tempo, com
pequenas intervenções telefônicas (mulher, produtor, jornalista do Estadão...)
e por fim, ainda tivemos a honra de sermos convidados a almoçar com o
mestre!
Fiquem com a entrevista que, por si, só explica a grandeza do momento.

Dissonância Para nós, é
um mote podermos conversar com você, até para compreender o rótulo de cantor
brega. Fizemos questão de buscar várias coisas na internet, revistas, para
que pudéssemos conduzir a conversa para outro lado, outra concepção...
Odair José Por isso é que gosto de
pessoas jovens! Você pega um disco da Brenda Lee, de quem certamente nunca ouviu
falar... Brenda era uma cantora americana, já deve até ter morrido; na época
era considerada brega por esses caras intelectualóides... Pegue um disco
dela e ponha hoje: atualíssimo!
Tem que ver é o talento das pessoas; eu não sou fã de Elvis Presley, e
sim do Paul McCartney, para mim, o maior músico do mundo. No instrumento e
em tudo, não tem cara igual, tá provado. É falta de talento um repórter
buscar essas coisas; estava lendo um jornal antes de vocês chegarem e é
sempre a mesma coisa que se coloca ao meu respeito: Brega!
Dissonância
Li um perfil contigo
no site do Fã-Clube Oficial
Assim Sou Eu, e na parte sobre os ídolos, dentre eles,
o James Dean. O que você teria absorvido de ícones do pop, como o Elvis
Presley, Paul McCartney e o James Dean, para desenvolver e ir consolidando o seu trabalho?
Odair José James Dean, Marlon Brando,
eu gostava do Elvis Presley, um cantor de Rock admirado por muitos.
Elvis foi um rebelde sem causa, James Dean era o rebelde com causa.
Dissonância
A rebeldia virou até um
"marketing" na visão da indústria do cinema em relação ao Dean.
Odair José Sim, e o Elvis era
metálico.
Dissonância
No que o James Dean teria
a influenciá-lo?
Odair José A solidão, James Dean era
um cara muito sozinho; a solidão do meu trabalho é a minha identificação com
o James Dean. Estou sempre só, sempre fui um cara só. Sou casado, mas mesmo
quando estou em casa sou um cara só. As minhas canções sempre falam de
solidão. Sou apaixonado pela solidão.
Dissonância
Separamos dois rótulos,
espécie de karma que o acompanha - pretensamente brega e cafona -,
"Bob Dylan da Central do Brasil" e "Terror das Empregadas". Eles impõem um
certo incômodo? Essas expressões, por exemplo, foram colhidas no livro do
Paulo César Araújo, Eu Não Sou Cachorro Não (Editora Record).
Odair José
Bicho, quem teve o prazer
de lá em Londres ver o Jeff Beck tocar guitarra, ver o Eric Clapton tocar
guitarra, caras que tocam muito, porque eu iria me preocupar com esses
rótulos (risos)? Sem falar que o som do Neil Diamond foi outro que me
influenciou, enquanto eu estava lá em Londres.
Não fui exilado, mas não
estava curtindo o clima daqui, as pessoas querendo saber se você se
separou ou não, além da própria censura, então fui pra Londres passar um mês
e acabei ficando oito meses. Vinha semanalmente ao Brasil, pois a minha situação
com a gravadora me permitia isso, e por lá assisti aos maiores shows.
Da mesma maneira, hoje não, mas
teve uma época em que eu "corria" dos Titãs como o Diabo corre da cruz. Na
época do (Marcelo) Frommer vivo, do Arnaldo Antunes, eles eram apaixonados
pelo Odair José; teve a Marisa Orth que gravou aquele trabalho com o Vexame,
né, enfim, são pessoas que estudaram para ter uma opinião formada. O
pessoal dos Titãs estudou numa faculdade em São Paulo só para pessoas ricas,
analisou o Odair José, o Roberto Carlos, e pô, são legais.
Aí vem uma pessoa e fala "cafona"? Eu não me incomodo.
Dissonância
Melhor dizer, dispensável,
não?
Odair José É dispensável o negócio de
Brega, e assim seria se fosse chamado de cult, de "Bob Dylan", eu apenas
faço um trabalho. Eu não acho que alguém deva ser crucificado pelo seu
trabalho.
Por exemplo, eu estou há 34 anos gravando disco, e desses 34 anos, eu
devo ter vendido uns 8 milhões de discos, num país de 170 milhões de
pessoas. Acho que vendi bastante disco!
Dissonância
Isso tudo começando num
momento em que o jabá não era tão presente quanto hoje...
Odair José Nunca paguei jabá pra
ninguém. Acho melhor dizer assim, olha, são 34 anos na profissão dele, e é
aquele negócio, "Ah, ele é cult, ele é brega, é Bob Dylan"... É o negócio do
"Babyface" com o Paul McCartney - ele é bonito, mas, porra, ele é conhecido
como músico; o Peter Frampton vendeu não sei quantos milhões depois que saiu
daquela banda, a Humble Pie. Bonitinho, loirinho, hoje está careca
(risos), fez um disco e "Ah, você é lindo", não, "sou guitarrista", pô,
foi tanto que ele deixou a barba crescer!
Hoje eu não tenho mais tempo para isso, mas há um tempo que eu ia fazer
barba ouvindo Herbie Hancock, tenho todos os discos dele, todos os discos do
Steely Dan são maravilhosos. O cara conhece "Hotel California", do Eagles;
essa banda eu ouço desde quando foi criada, mas o Brasil conhece "Hotel
California". O Brasil não sabe que quando eles se juntam para tocar, são 10
milhões de dólares numa noite. Shows simplesmente fantásticos!
Recentemente, numa pesquisa na Inglaterra, eles ganharam como a melhor
banda do mundo, e não Beatles. Agora, no Brasil, "Ah, quem são os Eagles?",
ninguém sabe quem é, mas a banda de Hotel California, o tal crítico que
escreve no jornal: eles não sabem quem são Eagles! Você sabe de uma coisa,
esses caras que se dizem saber das coisas, no fundo não sabem merda nenhuma.
Eu morei na Inglaterra, em 74, e conheci isso de perto.
Veja, vai ter um debate por esses dias comigo, Zeca Baleiro e Chico
César, no SESC (SP), sobre a imprensa. O Paulo César (Araújo), do livro,
estará lá, historiadores... Está saindo um cd agora que vai acompanhar o
livro, sendo como uma trilha sonora. Eu nunca tinha visto trilha sonora de
livro, de novela sim, mas de livro, nunca.
Dissonância
O livro "Noites Tropicais", do
Nélson Motta, tem trilha sonora!
Odair José Ah, eu não sabia... Então,
vai sair pela Universal a trilha do Eu Não Sou Cachorro Não, com 14
canções de 14 protagonistas do livro. Ele resgatou, foi muito engraçado, uma
canção minha desconhecida de todos, que nunca foi lançada. Ela é de 73 e
faria parte do "disco da pílula", mas aquele negócio de ditadura, melhor,
censura, os caras censuravam e ela foi proibida, não consegui liberar...
E agora, com a informatização, as instituições encolheram e uma coisa
que era num prédio de 5 andares, ficou restrita a uma sala. Resultado: ele
acabou achando essa música e remasterizaram só para que ele colocasse nessa
trilha. Devia estar no meio das baratas e agora ele vai lançá-la! (Risos)
Prova de que ele é persistente, deve ter sido um saco para conseguir. Ele
deve ter pensado: Já que a censura proibiu, eu vou lá pegar!
Dissonância
E como é a pegada da
música?
Odair José Não sei se você conhece um
Neil Young da vida, aquele canadense; uma levada mais folk... A vida
é muito engraçada: tinham tantas músicas disponíveis e ele querer logo essa!
Eu acho legal.
Esse cara pode dizer "Olha, o seu trabalho é uma merda", mas não uma
pessoa que nunca ouviu meu trabalho.
Dissonância E sons novos, o que tem
acompanhado?
Odair José Eu tenho um garoto de 12
anos de idade, que eu levo para a escola. É uma criança muito legal; entra
no carro e já liga o rádio! Eu detesto ligar o rádio, mas cheio de
liberdade, nem pergunta se eu quero ouvir. Só liga em duas rádios: 89
e 107, em São Paulo.
Cara, o que tenho ouvido de atual é o Carlinhos Brown, o Chorão (Charlie
Brown Jr.), o Skank, o Jota Quest. São caras que estão fazendo o trabalho
certo. Aquele menino do Jota Quest canta muito bem, o rapazinho do Skank,
Samuel, canta e toca bem.
Então, eu aprendi e direi o que disse a um outro jornalista:
Não
estou com essas informações todas para te dar, mas acho o Jota Quest muito
bom, o Skank, sendo que o Jota Quest é mais música, o Skank é mais emoção.
Dissonância
Você chegou a ouvir o novo
do Skank, o Cosmotron, com alta influência de Beatles?
Odair José Ah, sim, mas todo mineiro é
imitação dos Beatles. Você falou certo, eles imitam os Beatles até nas
guitarrinhas, na levada.
Também estou lançando disco novo, chamado "Passado e Presente".
Vai estar na boca do povo e será lançado pela GEMA, com 7 inéditas e 7
antigas! Fiz meio Eagles, meio (The) Doors, além dos 4 violões, baixo,
bateria e piano/órgão.
Dissonância
Pensava que o último fosse
o "Uma História" (2003).
Odair José Que nada, esse foi
malandragem, não aconteceu nada...
Dissonância
Foi independente?
Odair José Não, pela Sony, mas gravam
o disco e não botam no mercado, não trabalham. Não entendo esses caras das
grandes gravadoras, só tem burros, com raras exceções. Tire uns 30% e 70%
são de tapados.
Dissonância
Dizem até que os próprios
caras das gravadoras seriam financiadores de grande parte da pirataria, pois
teriam canais e condições de comprar bons equipamentos para dinamizarem a
demanda?
Odair José Não, não é verdade. Assim
seria uma roleta-russa, financiadores não. Eu sou da época do vinil, que era
muito melhor do que o cd, não na qualidade do som, mas pela arte, a foto
maior, e com o cd ela ficou diminuída.
Veja, a Philips era a dona da gravadora Philips, que depois virou
Polygram, Phonogram e hoje é a Universal; no que ela estava fazendo os
aparelhos eletrônicos para que se copiasse, que se criasse a pirataria, ela
vendeu o emprego. Fez aparelhos eletrônicos para que você pegue um disco e o
transforme em milhares de discos, então o comprador não é o ladrão.
Inventar
uma máquina, ganhar dinheiro pra caralho, só que para cobrir essa "minha"
empresa (gravadora), pois a outra eu não quero mais.
Dissonância
Teria um novo músico na
linha do Odair José?
Odair José Você sabe porque eu existo
depois de 34 anos? Porque não tem ninguém dando prosseguimento, na verdade
não tem. Quando falam que sou seguidor do Roberto Carlos, falam por
cantarmos o amor, definir momentos de pessoas.
Bicho, eu tenho um disco do Roberto que ele não está na capa, mas um
casal e uma flor entre eles; tem o nome da orquestra com a qual ele está
cantando. Ele é o intérprete da orquestra. Poucas pessoas têm, deve ter sido
de 59, é da CBS.
Tem uma música dele que ainda vou regravar uma versão, será um disco
de versões, e ela é americana, mas também tem coisas brasileiras como
Malena, o primeiro sucesso do Roberto Carlos, com letra de Rossini Pinto. Esse disco vocês não encontram no mercado, porque a matriz foi
quebrada... Eu devia ter uns 18 anos de idade.
Dissonância
Mas não era o "Roberto
Carlos", já em destaque?
Odair José Não, o Roberto só foi ser
famoso com O Calhambeque!

Mateus e Odair,
mandando "Eu te darei o céu", do
Roberto
Dissonância E com o Raul, como foi a
parceria, inclusive com o Raul empresário?
Odair José É um grande cara, um amigo
bacana... Gravei uma música do Raul que ninguém conhece, eu até estava
pensando em regravar. O Raul era um produtor da empresa, trabalhando como
funcionário - ele era gerente de produção! Tinha ele, o Rossini Pinto, Mauro
Motta, Renato Barros e o Abdias, do pessoal da sanfona no Nordeste. Eu era
produzido pelo Rossini Pinto!
Dissonância
Aquele disco do Raul, bem
bizarro, o "Sessão das Dez", foi dessa época...
Odair José Sim (risos), ele,
Míriam Batucada, Sérgio Sampaio e Edy Star, muito legais. O Raul andava de
terno!
Dissonância
Qual foi a música do Raul
gravada por você?
Odair José Foi Tudo Acabado,
com ele tocando o violão. Ele era altamente normal... Deixa eu explicar uma
coisa para vocês: eu convivi com o Raul por 20 anos, não tem negócio de
doido. Dependência ou ser dependente químico é uma coisa, doido já é outra.
Hoje, o escritor que mais vende livros no mundo é o Paulo Coelho,
digamos, apenas um ajudante do Raul na Sociedade Alternativa. Daí se tem a
dimensão do que ele (Raul Seixas) é!
Dissonância
E aquele disco que saiu na
Argentina, era uma iniciativa comum na época?
Odair José Julio Iglesias, para você
ter uma idéia, passou 8 meses na minha casa, no Rio de Janeiro. Ele, grandão,
naquele jeito falar para mim: você é o maior cantante do mundo.
Eu olhava para a cara dele e dizia:
E você é o maior cantor aonde, então? Portanto, quer dizer, eu já vivi muito para ouvir merda.
Dissonância
Falando sobre ídolo, o
Dissonância entrevistou o Wander Wildner por estes dias, e é incrível como
você é referência para uma série de bandas de Rock. Los Hermanos agora
regravou Vou Tirar Você Deste Lugar... Chegou a ouvir a versão deles?
Odair José Sim, eu sei, saiu no filme
da Casseta & Planeta; eu pensei que eles fossem fazer diferente, mas
cantaram ela romanticamente. Eu pensei que ia ser uma música
diferente, mesmo assim ficou boa.
Dissonância
Sobre a estória da sua
ópera-rock, em 77, O Filho de José e Maria?
Odair José Nunca foi ópera-rock
(risos)...
Dissonância
Mas foi uma viagem
sua, e por que não, religiosa?
Odair José (Risos) Não é uma
viagem... Depois que eu estive no Vaticano, eu virei cristão. Antes eu era
católico! Sabe a minha opinião sobre Jesus Cristo? Ele é competente! Eu não
acredito em vida após a morte, sou agnóstico e quem morre, pronto, acabou.
Viver se torna coerente.
Dissonância
Foi antes ou depois de
Londres?
Odair José Depois. Vocês já ouviram
falar em Khalil Gibran Khalil? É o maior poeta do mundo árabe.
Khalil Gibran Khalil é o autor do livro O Profeta, se você
tiver a oportunidade, compre. Ele tem vários livros, mas o melhor é O
Profeta; morreu há mais de 200 anos. Foi o único cara permitido a ser
enterrado ao lado de Maomé. Eu li o livro e assisti em Nova Iorque, 1975, o
Peter Frampton na guitarra e mais três caras na banda: um piano Fender
Rhodes, baixo e bateria; ele com os cabelos todo encaracolados... Então
voltei ao Brasil apaixonado pelo livro e pela guitarra do Frampton.
Dissonância
Chamaram de ópera por ser
mais direcionado, encenado?
Odair José Não, eu nunca disse que era
uma ópera. O disco é "O Filho de José e Maria"!
Dissonância
Certo, mas tem o lance
teatral, não é?
Odair José Isso tem. Se você for
ouvir, ele tem mais órgão do que guitarra; nesse disco eu tive a honra de
conviver com os maiores músicos do Brasil.
Dissonância
Quem tocava contigo no
álbum?
Odair José Pô, tem uma guitarra ali
que quem toca é o cara dos Mutantes, o Sérgio Dias... Aquele disco foi uma
diversão, cara, eu passei os 6 meses no estúdio me divertindo. Um vinho
aqui, uma cachaça ali e só gênios dentro do estúdio, muita grana na
produção. Sou um rato de estúdio, mas sou melhor no palco.
Dissonância
Chegaram a excursionar,
tinha uma peça que acompanhava o espetáculo?
Odair José Teve realmente esse negócio
de teatro e tal, com Guilherme Araújo, que era empresário do Caetano Veloso.
Dissonância
Falando no Caetano, tem
uma foto de vocês juntos, tocando violão e tomando algo...
 Duplinha
dinâmica: Caetano Veloso e Odair José
Odair José
Era um copo de Coca-Cola. O
Caetano é "saúde". Está saindo nos próximos dias o meu novo disco e numa das
faixas eu estou tocando violão com o Caetano numa música - Vou Tirar Você
Desse Lugar!
Dissonância
A gente também viu outras
fotos tuas com um monte de mulheres: Wanderléia, Rosemary... Qual delas você
chegou junto?
Odair José
Não, tudo minhas amigas.
(Risos)

Com a Wanderléia...

...
e a Rosemary!
Dissonância Conta pra nós como o Odair
trabalha em estúdio?
Odair José
Eu sempre gravo da mesma
forma, faço todas linhas de violão e coloco a voz, depois a banda coloca o
restante do instrumental.
Dissonância Vamos retomar o assunto
daquela letra, a que foi censurada e recuperada pelo Paulo César. Do que se
trata a letra?
Odair José Eu não lembro da música,
não sei como começa a melodia, só sei que a intenção da letra é que eu digo
que gosto de uma mulher e faço sexo com ela em qualquer lugar, em cima do
balcão...
O general Golbery, que era o cara que organizava a situação do país,
achava que eu era contra os conceitos familiares, como por exemplo, Essa
noite você vai ter que ser minha; não podia falar "pare de tomar a
pílula", isso também não podia... O cara casar com uma puta, "Vou Tirar Você
Desse Lugar", não pode... Era proibido pela "Moral".
Dissonância
E pelos bons costumes, não
é? (risos)
Odair José E os bons costumes...
(risos)
Dissonância
Por isso foi morar em
Londres?
Odair José
Não, não foi por isso.
Dissonância
Por pouco o Odair José não
ia sair do Brega e ficar com a marca de um Anti Cristo, sendo
queimado vivo, como na Idade Média (risos).
Odair José Eu tô mais para a "bocada".
(Risos)
Dissonância
E o single, "Eu Queria Ser
John Lennon Um Minuto Só", como foi essa estória? Foi um single mesmo?
Odair José Não, ela foi retirada de um
disco, somente. Eu sou fã, musicalmente falando, do Paul McCartney, para mim,
o melhor músico do mundo, depois, evidentemente, dos clássicos, dos Beethoven
da vida. Depois da turma do Clássico, Paul é o melhor. Está comprovado, o
cara é rico pra caralho, um vitorioso e sensato. Ele canta, não treme a voz
e por isso estaria errado. O Sertanejo treme a voz, por exemplo.
Então eles, o John e o Paul, tinham aquelas confusões, aquela bronca da
Linda McCartney com a Yoko Ono, sendo que a banda acabou mais por aí. Na
verdade, acabou por tanto tempo convivendo um com o outro, praticamente
desde criança; elas duas aceleraram a separação! Assim, eu fiz uma gozação
na música, querendo ser o John Lennon casado com a Linda McCartney.
(risos)
Voltando a falar sobre o Sertanejo, o ano tem quanto dias?
Dissonância
365 dias!!!
Odair José Existem 4.000 feiras de
gado no Brasil, então qualquer pessoa que cantar num dueto ficará rica.
Cachês são 200 mil, 100 mil, e cantando nesse circuito estará facilmente
milionário. Você diz assim: "São gênios!". Não, qualquer pessoa que entre no
circuito do boi e em dueto ficará milionário.
Bem assim são os dos EUA, são milionários: Billy Ray Cyrus, Willie Nelson, e
tem um negócio que vocês precisam saber. Aí volta aquele assunto do James
Dean, o artista, essa palavra artista eu não gosto, o músico não tem a
obrigação de ser bonito, não tenho a obrigação de ser rico. A minha
obrigação é tocar!
Dissonância
Aí vem a imprensa falar
"cantor de sucesso, músico disso ou daquilo"...
Odair José Isso de "O Cantor da
Década", eu nunca pensei em ser cantor, pô, isso foi uma conseqüência. Eu
quero ser o cara que toca no restaurante, que ninguém sabe que estou ali,
que quer passar desapercebido.
É isso que as pessoas devem perceber nas coisas! Como Paulo César
Araújo, que escreveu aquele livro, eu o acho um louco por ter
conseguido aquela música da censura, é muito inteligente. Levou cinco anos
buscando esses materiais, foi lá em Brasília e tem opinião formada. Sabe
quem é quem; está escrevendo agora sobre o Roberto Carlos!
Qualquer cantor que queira fazer um disco romântico, inspirado no
bolero, pode saber que isso é comigo e com o Roberto.
Dissonância
E o Roberto Carlos, Odair,
nota-se a presença dele no seu trabalho?
Odair José Roberto Carlos é o maior
artista brasileiro. Você pode dizer hoje, "Ah, aquele velho que só canta a
mesma coisa, aquela orquestra atrás", mas o cara já fez coisas espetaculares
e cobram dele um trabalho melhor, vê se pode? (risos).
Acho um absurdo! Ele não precisa fazer mais nada, não. Eu nunca tive o
Roberto Carlos como um ídolo musical, é meu ídolo como comportamento.
Discreto, muito na dele e certas coisas que contam dele são mentiras. O cara
não liga para você, não sai para lugar nenhum, então deixa o cara em paz.
Dissonância
Não rolou parceria na
antiga com o Roberto?
Odair José Sou amigo do Erasmo, tive
nesses 30 anos somente umas 10 vezes com o Roberto, mas só "Oi, como vai",
nada de trabalho. Você bate de frente com o cara, o compositor de músicas
como "Estou amando loucamente, a namoradinha de um amigo meu...", é mesmo de
emocionar. Encontrava e ele dizia: "E aí?", risos, eu ficava bobo!

Odair, Paulo Geraldo e Erasmo Carlos
Dissonância Inclusive conheci uma foto
do Odair como goleiro, nos anos 70...
Odair José Não, eu era centroavante!
Sempre fui camisa 10, pô! Risos... Era um Zico.
Dissonância
É flamenguista?
Odair José Não, são-paulino.
Dissonância Odair, com aquele seu
visual dos anos 70; músicas populares e por vezes caçadas pela ditadura; letras intimistas; ópera-rock; ficamos querendo saber se o
"Terror das Empregadas" havia tido experiências psicotrópicas.
Rocks, o visual, as letras, neles não continham, digamos
(risos), lisergias?
Odair José
Sim eu passei pelas drogas,
cheirei cocaína, fumei maconha, isso pelos anos 80...
Dissonância Mas nos anos 70 Odair, com
aquela cabeleira... (risos)?
Odair José
Não, aquela época era mais
uma bebidinha, a coisa da droga na minha vida passou rápida, o melhor estado
é o da lucidez.
Dissonância Para
finalizar, poderia falar sobre o seu trabalho com a Diana, então sua esposa,
lá nos anos 70?
Odair José Eu
produzi a Diana, embora ela já fosse artista, já estivesse na trilha. Era um
bom trabalho, mas ela só fez sucesso enquanto esteve comigo. O Raul
era o produtor da Diana, e deu a ela a canção "Ainda Queima uma Esperança",
que tornou-se um dos maiores sucessos da cantora.
Lembram do que contei sobre ficarem falando de
separa-separa? Então, era com ela e tenho o privilégio de ser o 4o.
divorciado do país!
***
Agradecimentos especialíssimos ao Sr. Milton Santos, idealizador do
Fã-Clube Assim
Sou Eu.
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