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Documento Apático
Nunca houve tanto a se ver, falar, discutir, e deve ser esse o problema. Se fala, discute, debate, argumenta, contradiz. Mas a ação? Essa está parada no tempo, congelada no ar como uma cena do Matrix, filmada por todos os ângulos. Para meus conterrâneos parece bastar a idéia, ela já se realiza em si própria, satisfaz o ego perante sua exposição a terceiros, sua realização se tornando desnecessária, não parece fazer parte dela. Então vamos lá debater mais uma vez, vamos criticar filme estrangeiro e falar do cinema nacional, dos filhos da música popular brasileira e vamos debater todas as artes como artistas que somos, os artistas da apatia e da preguiça generalizada.
Se há hoje os meios, falta a disposição. Se há condições de acesso à informação, material, meios e fins, há pouco interesse. Porque, veja bem, discutir, debater e argumentar é mais prático. Os artistas do debate não têm o que ser criticado, são a crítica em si, estão aí para ver e dar seu veredito: "É ruim". Ou então "Eu adooooooro". Não lhes passa pela cabeça a necessidade e urgência da criação, de sugar algo do fundo da alma, da bile, do intestino grosso e colocar perante os sentidos alheios. Para quê isso?
A apatia é autofágica. À medida que se ignora a ação, a ação nos ignora, se decepciona e cessa de existir. Afinal, parece que estamos pregando no deserto, gritando o mais alto possível para que o vento, esse crítico mordaz, leve nossos gritos para qualquer lado até se desfazerem no ar quente da crítica pela crítica. Ah, seus preguiçosos, vagabundos, resmungões, fascistas de merda. Qual é a idéia brilhante da vez, o plano que não será executado, não por falta de verbas, mas porque uma nova idéia já deve tomar o lugar daquela? Temos pressa, muita pressa, temos que chegar rápido a lugar nenhum e sem escalas. Vamos, não há tempo a perder, a vida é curta, correr, correr, correr.
Eu dou mais uma tossida e ainda não entendo a pressa, eu com calor, 38°C e dor de dente e não estou com pressa nenhuma; o pessoal corre, assim, dentro de um círculo, e se pergunta: "Por que esse mundo é tão cruel, por que há tantas pessoas morrendo em vão, onde está Deus que não nos ajuda?". Deve ser essa pressa, a gente corre muito e o que passa apressado por nós não se fixa, temos medo desse compromisso conosco, que o diga com outras pessoas. Afinal, amar agora é um palavrão; mulher, se você ama, talvez você seja só mais uma antiquada que precisa de um homem, não és mulher moderna, independente, pois mulher moderna e independente tem que transar e transar e transar e conhecer todas as técnicas de agarrar aquele gato e levá-lo à loucura. Ora que besteira, estamos loucos há milhares de anos, vivendo em estado de completa insanidade, para quê se esforçar? A banalização atingiu o último grau. Não há mais o que banalizar, a própria banalização é banal. Não é? Contra o que irão se rebelar agora? Não sobrou mais nada.
Eu sugiro o amor radical. Amem sem dó nem piedade. Amem seus amigos, seus inimigos e os filmes ruins. Amem dançar, amem ficar em casa. Distribuam amor aos rancorosos, aos intelectuais, aos formadores de opinião, dêem a eles aquela opinião: “Eu amo”. Talvez essa seja a única revolução possível no momento. Não há nada mais radical nesse momento do que amar de verdade, profundamente. O que mais podemos fazer?
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