|
|
5 Anos sem Kubrick, O Iluminado
Por
Adelvan Kenobi
Imagens - Reprodução
A aurora do homem. Bandos de animais simiescos numa paisagem deserta são
despertados pelo súbito aparecimento de um objeto gigantesco nunca antes
visto. O monolito negro lhes desperta a curiosidade. Esta mesma curiosidade
faz com que um deles tenha a luminosa idéia de usar um osso como extensão do
braço na luta pela sobrevivência. Mais um pequeno passo na lenta, porém
inexorável, marcha da evolução que levaria os símios ao homo sapiens, e
estes às estrelas.
Década de oitenta, século XX da era cristã. Um pirralho de sua poltrona
assiste à conquista do universo pela tela da televisão. O ritmo lento do
filme não o incomoda, pois a beleza das imagens e a curiosidade para saber o
objetivo da onipresença do monolito afastam o sono. Após uma viagem
fantástica na qual é apresentado ao supercomputador HAL 9000, uma das
maiores criações da história da sétima arte, a tela é subitamente
arremessada em um turbilhão de sons e imagens que culmina no nascimento de
um novo homem ao som de “Assim Falava Zaratustra”, poema sinfônico de
Richard Strauss. O pirralho vai dormir atordoado, sem entender nada, porém
com a certeza de haver visto o melhor filme de sua vida.
Foi assim meu primeiro contato com a obra de Stanley Kubrick: na tela da
Globo, entre comerciais de shampoo e sabão em pó. Apenas recentemente tive a
oportunidade de ver “2001 - Uma Odisséia no Espaço” como ele deve ser visto:
no cinema, e numa ocasião muito especial, pois caía um temporal sobre a
cidade e poucos se arriscaram a colocar o pé para fora de casa. Estas
circunstâncias me proporcionaram uma tranqüila e deliciosa sessão, com o
toque especial do barulho de chuva ao fundo. Sempre havia ouvido dizer que
aquele era um filme para se ver no cinema, e agora posso atestar a
veracidade dessa afirmação. Arrisco dizer que o trecho que mais se perde em
vídeo é a parte final, tendo em vista que no escuro da sala de projeção fui
tomado por uma sensação de medo que só havia sentido quando ouvi a
assustadora trilha sonora sozinho, no escuro, alguns anos atrás. É o medo do
desconhecido, ou da morte, tendo em vista que uma das muitas especulações
sobre o significado do final do filme é justamente a de que o astronauta
David Bowman havia morrido ao chegar a Júpiter.
“Anyway”, este é
apenas um dos mistérios desta obra fascinante que há anos povoa minha
imaginação. Basta dizer que na única vez em que fui assaltado, o fui porque
andava distraído por ruas desertas, imerso em meus pensamentos, tentando
decifrar o enigma do monolito.
Desisti.
Entendi que 2001 era uma obra aberta às mais variadas interpretações, muito
embora seu autor, o escritor Arthur C. Clark, tenha dado pistas em seus
livros posteriores, 2010, 2060 e 3001. Na visão de muitos, a história trata
do encontro do homem com Deus, conseqüência inevitável da busca pelo
conhecimento à medida que a humanidade se lança na vastidão infinita do
espaço. Para Clark, os imensos monolitos seriam fruto de uma tecnologia
incompreensível para os seres humanos, encarregados de enviar sinais a seres
cuja função era a de monitorar a evolução da vida nos mais distantes confins
das galáxias. Estes seres, aparentemente, tinham sua consciência de alguma
forma unida ao universo, e poderiam se manifestar fisicamente da maneira que
desejassem para que fossem compreendidos por seus interlocutores. Assim, o
astronauta da nave Discovery foi incorporado ao monolito, sendo usado por
eles para avisar aos homens que deveriam se manter distantes da lua de
Júpiter Europa, onde a vida, ao que tudo indica, tem possibilidades de
germinar. “Eram os Deuses Astronautas?” O que o cientista/escritor parece
querer nos dizer é que, no campo das especulações sobre o desconhecido,
nenhuma hipótese pode ser previamente descartada.
Além da impressionante saga metafísica de 2001, a obra de Kubrick precisa
ser conhecida por inteiro. Entre todos os itens de sua filmografia
(felizmente, totalmente disponível em DVD), destaca-se “A LARANJA MECÂNICA”,
cujo tema gerou uma polêmica tão grande à época de seu lançamento que a fita
encontra-se banida das telas de TV e cinema em muitos paises até os dias
atuais.

Trata-se de um tratado sobre a violência no qual, em um futuro
indefinido, o estado usa meios pouco ortodoxos para conter a brutalidade de
gangues de jovens ensandecidos cuja única diversão é espancar, estuprar e
ouvir Beethoven. O filme foi cultuado pelos punks nos anos 70, e é acusado
de glamourizar a violência e, com isso, incitar os jovens. O próprio autor
do livro do qual foi adaptado, Anthony Burgess, chegou a admitir o fato e a
pedir desculpas. Kubrick não. Não é função do artista submeter sua obra à
capacidade de discernimento limitada do senso comum, portanto ele não pode
ser culpado por fatos que sejam decorrentes de interpretações distorcidas de
sua obra. Seria o mesmo que culpar Nietsche pelo nazismo.
Temas polêmicos,
aliás, nunca assustaram este diretor. É dele a primeira versão para o cinema
do clássico de Vladimir Nabokov, LOLITA, que trata da obsessão de um homem
de meia idade por sua enteada pré-adolescente. É dele também aquele que pode
ser considerado, ao lado de “O Bebê de Rosemary”, de Roman Polansky, o mais
aterrorizante filme de horror psicológico da história do cinema, “O
ILUMINADO”. Nele, Jack Nicholson enlouquece (ou é possuído?) ao se ver
isolado com a mulher e o filho num hotel cercado de neve.
Imperdível também
“DOUTOR FANTÁSTICO OU COMO PAREI DE ME PREOCUPAR E APRENDI A AMAR A BOMBA”,
uma parábola sobre a guerra fria, “GLORIA FEITA DE SANGUE”, um épico situado
durante a segunda guerra mundial, “SPARTACUS”, a historia de uma rebelião de
escravos durante o império romano, e “NASCIDO PARA MATAR”, um libelo contra
o militarismo e a pressão psicológica sofrida pelos soldados para que se
tornem maquinas de matar a serviço do sistema.
Stanley Kubrick morreu de ataque cardíaco aos 70 anos de idade no dia 7 de
março de 1999. O mundo, é claro, ficou mais burro. Foi, na minha modesta
opinião de leigo admirador, o maior cineasta de todos os tempos. Encerrou
sua carreira em pleno vigor intelectual com “EYES WIDE SHUT”, seu último
testamento, que gerou expectativas exageradas no final do século passado
devido ao enorme intervalo de tempo em relação a sua obra anterior, “Full
Metal Jacked”. Para aguçar ainda mais a curiosidade de todos, o ousado
primeiro trailler mostrava 90 segundos de nu frontal do casal Tom Cruise e
Nicole Kidman. O resultado, porém, ficou abaixo do esperado, muito embora
esteja a anos luz de distancia da esmagadora maioria das produções exibidas
nos cinemas em sua época, e mesmo hoje, sejam elas destinadas ao grande
publico ou não. No filme Tom Cruise e Nicole Kidman vêem a estabilidade de
seu casamento ultraconvencional ameaçada pelo súbito aflorar de desejos
obscuros emergidos de seus respectivos subconscientes, o que os faz
enveredar por uma perigosa “tour de force” de perversão sexual.

É a
provocação final de um dos únicos diretores que conseguiram confrontar
Hollywood e se impor pelo talento. Feito não conseguido, por exemplo, por Orson Welles, que iniciou sua carreira batendo de frente com o maior magnata
da industria do entretenimento americana, o que marcou para sempre seu
destino na industria cinematográfica. Kubrick, ao contrário, filmava quando
quisesse, da maneira que quisesse. O grande intervalo de tempo entre seus
filmes devia-se unicamente a seu perfeccionismo doentio, não a nenhuma
espécie de pressão ou boicote dos produtores.
É a mais acabada comprovação
de que qualidade é mais importante do que quantidade. Fez pouco, mas tudo
que fez se tornou clássico. Será lembrado para sempre!
|
Textos Anteriores:
*
Snooze ao vivo em Aracaju (SE)
|