O silêncio de uma manhã comercial

 

Por Solano Lucena

Imagem: Reprodução

 

 

  Em uma escada suja, dormia um homem úmido servindo de alvo para a chuva que entristecia a noite de uma capital do país. Sobre si, um cobertor furado e velho, um boné do New York Yankees e o uniforme de um antigo,  tradicional e recém falido colégio.


  Em um céu risonho, dormia nossa pátria-mãe gentil, a luz do sol fazia o
cartão-postal da cidade, e a noite ignorante dava a certeza de que se trata mesmo do Brasil. A vista era deplorável, eram seres humanos dormindo um sobre o outro com a esperança de se esquentar. O único do grupo que guardava uma garrafa de aguardente sobre os braços, era o que dava uma ainda pior impressão por quem ali passar.
 

  Em uma escada úmida, dormia um homem sujo. O odor da cachaça era forte e ele trazia jovens sorridentes por um novo cartão-postal. Cinco garotos vieram retratar a escada imunda e o homem úmido para colocar em seus inúteis fotologues. Cruéis dizeres nas legendas mostravam que não havia respeito pela precariedade dam situação daquele irmãozinho. Um mendigo sorridente era traduzido por eles com uma frase esculachada. Suas desnaturezas eram visíveis nos rostos pintados ou nas roupas compridas. O preconceito florescia nas mentes em abundância.

  Sobre o céu de uma pátria-mãe, dormia nosso risonho gentil.  Sobre a sujeira da umidade, feridas, sangue, vômito, vermes, gente.  Sobre a escadaria da humanidade, homens com pedaços de paus, ferros e tijolos agrediam alguém deitado na escória da covardia. Vermelho sangue e chuva incolor se contrastavam em tons indesejáveis. Os únicos sons decifráveis não eram gemidos ou urros, não era o baque dos murros, o único som ouvido era o dom seguido de alguém que se divertia com tanta sangria. Que, ao ver a anemia, a anomalia, a tirania, sua necrolatria brotava em uma quase alegria.

  E na mente abundante do poeta, o preconceito... de um jeito florescia.

 

 

 

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