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Uma viagem ao
reveillon da Terra
Por Fernando Paiva Ilustração: Daniel Paiva
Nave: Beagle 519
Relatório de observação: A festa de reveillon é um bizarro ritual em homenagem à virada do ano. Nele, os terráqueos misturam elementos de diversas religiões e crendices, tornando difícil a compreensão dessa festa até mesmo para um doutor em cultura humana com PhD em Plutacius, como eu.
A confusão começa no próprio motivo de comemoração: a virada do ano. Por que tanta superstição em torno de um evento que, cientificamente, poderia acontecer em qualquer um dos 365 dias do calendário terráqueo? Um ano representa uma volta da Terra em torno do Sol. Em sendo uma “volta”, não há exatamente um ponto de partida ou um ponto de chegada. Este pode ser qualquer dia. Quem fixou o reveillon em 31 de dezembro foi o próprio homem, não “Deus” ou a natureza. Aliás, a exata virada do ano não acontece necessariamente à meia-noite, já que a volta em torno do Sol não demora um número múltiplo de 24 horas – razão pela qual existem os anos bissextos.
Os preparativos se iniciam alguns dias antes, num shopping: as fêmeas humanas – principalmente, mas não exclusivamente, elas – vão às lojas comprar roupas novas para usar no reveillon. Acreditam que dá sorte. A asneira deve ter sido inventada por algum sábio comerciante desse primitivo planeta capitalista!
A ceia de reveillon tem arroz com passas, chester, tâmaras e rabanadas: são as sobras do Natal. Apesar de louvarem a Cristo como o único Deus no universo, essa gente bota fé em uma suposta energia proveniente das cores e escolhe com cuidado qual usará na festa: branco para trazer paz; vermelho para paixão; amarelo para dinheiro; azul para saúde... Queria saber o que acontece com quem veste beje no reveillon? E cor de burro quando foge? E flicts?
Faltando dez segundos para a meia-noite, os humanos dão-se às mãos, fazem uma contagem regressiva e depois estouram champanhes e abraçam-se efusivamente. O ritual lembra bastante a comemoração de lançamento de seus precários foguetes.
Depois, aqueles que estão nas praias, independentemente da religião, dirigem-se às águas para arremessar flores a Iemanjá, orixá do candomblé que protege os mares. O gesto não representa apenas uma louvação, pois é devidamente acompanhado de um pedido para o ano novo. Há também alguns humanos que se põem ridiculamente a pular sete ondinhas na beira do mar, logo após a virada do ano. Consultei todos os meus arquivos mas não encontrei qualquer explicação plausível. Talvez seja apenas um exótico exercício para manter a forma. Igualmente curiosa é a elaboração listas com resoluções para o novo ano. Nelas os terráqueos escrevem promessas para os próximos 12 meses que no fundo sabem que não serão cumpridas. É uma medida de auto-ajuda para acalmar-lhes a consciência ao menos nos primeiros dias do ano.
Conclusão: Os humanos são definitivamente um dos povos mais esquisitos do nosso universo. Recomendo o cessar das viagens exploratórias para esse planeta. Sugiro que no orçamento do ano que vem sejam alocadas mais verbas para estudar o asteróide B612 e seu solitário habitante, o autodenominado Pequeno Príncipe.
Irgonucresco VonSatius
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