Snooze, banda de Aracaju, persiste nesta batalha do rock alternativo desde 1992
 

 


                                                                               
Por Leandro Vignoli

Fotos: Site Oficial/Snooze

 

 

 

 

  Atualmente, a banda é formada pelos irmãos Fabinho (baixo e vocal) e Rafael Jr. (bateria) - únicos integrantes desde o início -, além dos guitarristas Clínio Jr. e Marcelo Vitais. Com influências, sobretudo, de bandas guitar noise clássicas  e cantando em inglês, a Snooze já lançou os álbuns Waking Up... Waking Down (98), e Let My Head Blow Up, que saiu em agosto de 2002, numa parceria com o selo goiano Monstro Discos. Com participação efetiva no agito da cena independente de Aracaju, participando de festivais por todo o Brasil, inúmeras coletâneas, e abrindo para bandas que vão de Planet Hemp a Marky Ramone & The Intruders, os sergipanos estão consolidados como uma das bandas mais importantes do indie rock brazuca. O Gordurama bateu um papo por e-mail com o vocalista da banda, Fabinho, mesmo com todas as limitações básicas do formato. Provocações, inclusive.

 

  Confere aí.

 

 

 

 

 

 

 

 

Leandro Vignoli - Podia começar falando das influências e tal, para quem não tá ligado no lance.

 

Fabinho (Snooze) - Para quem não "tá ligado", o lance é rock básico cantado em inglês. Influências punk, pós-punk, new wave e o som do fim dos 80, como Jesus & Mary Chain, Pixies, R.E.M. e Husker Dü foram grandes influências no começo da banda. De resto, o que se ouve hoje tem as influências dos novos guitarristas, como sons mais psicodélicos [Spacemen 3, Sonic Youth], e o rock’n roll dos 60 e 70 sempre vai fazer parte de nossas referências.

 

 

 

 

     

       1ª demo: Snooze          Waking Up...             Let My Head Blow Up

                                     Waking Down  

 

 

 


Leandro Vignoli - Qual o melhor disco de todos os tempos? Qual o melhor desse ano?


Fabinho (Snooze) - O de todos os tempos é o Pet Sounds, dos Beach Boys. O melhor do ano? Tô por fora.
 

Leandro Vignoli - O que faz uma banda se tornar boa?


Fabinho (Snooze) - Hmmm. Boa música?

 

Leandro Vignoli - Tá certo. Mas ter uma banda há dez anos que meia dúzia de pessoas conhecem. Qual que é o moral? Rock por puro hobby e diversão, ou ainda rolam pretensões além?

 

Fabinho (Snooze) - O "puro hobby e diversão" existe sim, a diferença é de perspectiva. Uma vez que o trabalho é levado a sério, mesmo sem grandes pretensões, a gente consegue ocupar cada vez mais espaços. Mesmo sem sermos profissionais da música [com exceção do batera Rafael], nosso trabalho aqui em Aracaju é referência em termos de profissionalismo no rock. Então as pretensões acabam aí mesmo: fazer boa música e chegar ao maior número de ouvintes possível.

Leandro Vignoli - Nesse tempo todo já rolou aquela vontade de parar com tudo? Vocês vivem da música ou de outras formas de "empregos formais"?


Fabinho (Snooze) - Tirando o batera, somos todos "English Teachers". De maneira alguma essa ocupação formal me faria desistir da banda. É como Clark Kent largar a vida de super-herói por ter muito o que fazer no Planeta Diário. Não faria sentido! Vontade de parar acho que é normal pelo tempo na ativa e os constantes "freios" da cena no Nordeste em geral, mas nos últimos tempos a vontade é de ficar tocando essa música para sempre.

Leandro Vignoli - Tu achas que algum dia o que vocês fazem pode dar certo, em termos de reconhecimento, grana, seja o que for?


Fabinho (Snooze) - Não.
 

Leandro Vignoli - Indie rock não é levado muito a sério, na maioria das vezes, com muita razão, pela quantidade de bandas palhas metidinhas. Tu concorda?


Fabinho (Snooze) - Sim.

Leandro Vignoli - Concorda que não é levado a sério, ou que a maioria das vezes as bandas são palhas metidinhas?


Fabinho (Snooze) - Indie rrrock não deveria precisar ser levado a sério. Leva a sério quem quer, ué! O resto fica pela parte "for fun" da coisa.

Leandro Vignoli - Existe aquela perspectiva de soar de forma transgressora, diferente, algo assim, ou apenas emular suas influências do rock alternativo já tá bom?


Fabinho (Snooze) - Transgressora? Difícil, mas sim, soar diferente é essencial. Mas não rola nenhuma forçação, acho que a gente soa cada vez mais diferente de um "pastiche de rock alternativo", porque estamos crescidos mesmo, há uma idéia mais clara de onde a gente pode chegar com esse som.

Leandro Vignoli - Pergunto isso, porque existem bandas que realmente soam patéticas e deslocadas fazendo power pop, shoegazer, noise, essa coisa toda cantando em inglês aqui no Brasil, mas nos shows até que fluem legal. (Será que isso é devido a uma infra meia-boca na hora de gravar, ou na real, nos shows é tudo a mesma merda que no disco, porém, quem assiste geralmente já tá bêbado?)


Fabinho (Snooze) - A gente adora a Pelvs. E eles são ÓTIMOS ao vivo TAMBÉM!!!

Leandro Vignoli - Eu já os assisti ao vivo. Várias caras e bocas, quase dormi, mas deixa para lá. Como que rolam as coisas para bandas como o Snooze aí em Sergipe? Existe sempre aquele mito sobre o que as pessoas curtem no Nordeste, na cabeça do pessoal do resto do país [apenas sol, praia e água fresca, etc]. Eu mesmo não faço a mínima idéia de como seja Aracaju, perdoe-me.


Fabinho (Snooze) - "As bandas como o Snooze" eu vou entender como bandas de rock, certo? Então, o mito existe. Em geral, as pessoas curtem a tal axé-music, o forró, o pagode. Mas, ao mesmo tempo, devemos pensar que o gueto rock em Aracaju existe da mesma forma que em outras cidades. A diferença é a proporção. Juntando todas as bandas, "produtores", jornalistas e pessoas envolvidas com cultura na cidade, temos uma minoria que se movimenta... Não deixando de ser um gueto! Em toda cidade, dependendo do tamanho, os guetos aumentam ou diminuem seu campo de ação, então as dificuldades em nossa cidade têm realmente muito a ver com o tamanho dela: estamos falando da menor capital do país, mas com um certo nível de desenvolvimento. É tudo mais difícil, mas é completamente "vivível" para quem gosta de sossego.

 

 

 

 

     

 

 Clique nas fotos para ampliá-las!!!

 

 

 

 

Leandro Vignoli - E festivais, como o Abril Pro Rock, o Mada. Acabam beneficiando a todo o circuito de bandas do Nordeste, ou nada a ver?


Fabinho (Snooze) - Tem tudo a ver. Como conhecer várias bandas ao mesmo tempo e formar público sem festivais? Vem aí o Punka.

Leandro Vignoli - Aliás, existe alguma 'cena' por aí, em Aracaju (ou mesmo em todo o Nordeste)? Lugares para tocar, público que vai a shows, espaço na mídia em geral? Por aqui onde eu moro não tem. Até que tentam enraizar isso na cabeça do pessoal do centro do país, sei lá o porquê, mas é pura balela.


Fabinho (Snooze) - É isso mesmo! PoA tá muito diferente não! Hoje em dia temos espaço na mídia, mas isso custou muito trabalho. Para tocar em evento decente com garantia de som bom, em geral a gente necessita se auto-produzir. O que há de mais urgência, então, para se viabilizar a cena rock no Nordeste é o papel do produtor, aquele que não está SÓ preocupado em fazer dinheiro, mas de movimentar o meio. Essa e outras estórias serão ponto de discussão no 1º. Fórum Nordestino de Música Independente, a ser realizado em João Pessoa, e que deve gerar bons frutos pro futuro de nossa música.

Leandro Vignoli - Quero dizer, vocês, por exemplo, acham que aqui realmente existe uma cena de "rock gaúcho"? Tô ligado que curtem Frank Jorge e Graforréia. Mais alguma coisa daqui?


Fabinho (Snooze) - Eu curto bastante o trabalho do Marcelo Birck, mas ele não mora mais aí, né? O Aristhoteles [Aristhoteles de Ananias Jr., ex-banda do Birck] era bem bacana também. Arthur de Faria eu conheci recentemente e me amarrei, mas err... A gente tava falando de rock n’roll [Arthur de Faria é um arranjador e produtor de MPB cool]. Talvez o Walverdes seja nosso ideal de bom rock gaúcho. Além de cometerem grandes discos, a galera roda bastante fazendo shows, só falta vir pro Nordeste. :)

Leandro Vignoli - Falando neles, o último CD do Snooze também saiu pela Monstro Discos. Como pintou esse contato? Isso aí deu uma melhorada para a banda? [Já que em termos de bandas independentes, a Monstro é a gravadora de maior prestígio, creio]. 

Fabinho (Snooze) - Desde que preparamos um "advanced" do LMHBU, quando a gente tocou no Circadélica (festival que rolou em Sorocaba, em 2001), a gente fez questão de fazer o contato com a Monstro [velhos conhecidos de outros roques], pois sempre achamos que tínhamos a ver com eles, nem que fosse só em termos de pensamento-rock! O CD acabou saindo mais de um ano depois disso, como uma parceria entre Monstro, Snooze e Short Records, que nos lançou com a coleta 100trifuga e o primeiro disco WU... WD. A melhorada foi real e no sentido de que a gente sentiu nosso disco chegar em outros meios que a gente não teria dado conta, e que o pessoal da Short também não cobriria. Depois que a gente foi pro Goiânia Noise nossa relação só melhorou, e a gente espera contar com eles para o nosso terceiro disco.

Leandro Vignoli - Na época do lançamento desse álbum, eu li uma pah de resenhas na crítica 'especializada'. Como rola essa divulgação para uma banda independente - assim, não imagino o editor de publicações como a Folha de SP COMPRANDO o álbum.


Fabinho (Snooze) - Isso faz parte do trabalho de assessoria de imprensa. Tanto o Leo Razuk, da Monstro como Maíra Ezequiel, da Snooze, fizeram um ótimo trabalho.

Leandro Vignoli - Ah, a parada é profissa mesmo. E quando saem essas matérias, sentem um retorno maior de pessoas querendo conhecer o som?


Fabinho (Snooze) - Com certeza. Parece que o disco é mais importante quando sai em revista famosa, é incrível. A notinha que saiu na Revista da MTV, por exemplo, dizia muito pouco, mas nos deu uma credibilidade e tanto em relação ao disco. Outra matéria que até hoje rende comentários foi o quadro "O Novo Som do Brasil", no Jornal Hoje. Não tem para onde correr, mídia é fundamental, e cabe às bandas estabelecerem seus espaços dentro desses meios nem sempre convidativos.

Leandro Vignoli - Em fevereiro vocês produziram o I Aju Rock City, no mesmo dia da gigantesca prévia carnavalesca que pára a cidade inteira - o Pré-Caju. Parece-me meio bizarro isso. Imagino umas 100 mil pessoas pulando carnaval, e uns 100 rockeiros perdidões na cidade conferindo o festival. Conta aí como foi isso, velhinho.


Fabinho (Snooze) - Exatamente o público que compareceu lá! Esse tipo de festa só não existe mais por falta de espaço. Porque os Mechanics estavam de passagem, com shows marcados em Recife e Salvador, a gente resolveu que queria tocar com eles aqui e fomos atrás dos meios. O projeto foi muito bem recebido pela prefeitura, que deu apoio e incentivou a continuação da idéia pro ano que vem!!! Infelizmente, o local do show, excelente e de médio porte [o que é raro], fechou as portas para o rock pouco depois, mesmo com o sucesso da festa. Vai entender.

Leandro Vignoli - E produzir o próprio festival. Só assim mesmo para as coisas acontecerem a uma banda independente? Vocês, há um tempo atrás, pareciam ser os "agitadores culturais" aí em Aracaju, trazendo bandas de fora para tocar, organizando festas, este tipo de coisa.


Fabinho (Snooze) - É mais simples que isso. Ao invés de "agitadores culturais", prefiro pensar que a gente se virava pra deixar a banda sempre na ativa. Trazer bandas para cá faz parte desse processo de movimentar a cena, mas também inclui a Snooze em outras cenas, pois os contatos só se tornam efetivos quando há esse intercâmbio. Lá por 96 era tudo mais fácil, especialmente por termos um local fixo e trabalhável para shows. Hoje, a maior dificuldade é lugar legal. O melhor e mais fácil de se trabalhar hoje em dia tem um problema sério com acústica. Isso desestimula bastante, mas continuamos a produzir shows eventualmente, trazendo bandas legais de fora, além da gente sempre colocar novas bandas daqui para abrir essas festas.

Leandro Vignoli - Vocês ainda estão naquele esquema de produzir trilha sonora para peças de teatro? Pode explicar como funciona o lance?


Fabinho (Snooze) - O lance funcionou em um projeto específico. A montagem de um texto do Teatro do Absurdo chamado A Cantora Careca (Eugene Ionesco), por uma companhia daqui, a Stultífera Navis. Ao ambientar a peça em Londres, a banda foi posicionada no palco como parte do cenário, e mesmo com temas instrumentais, a idéia do diretor era colocar uma banda que canta em inglês (meio que para cutucar os insistentes questionamentos sobre nossa escolha!). Além de pontuarmos cenas com passagens de músicas da gente (na época inéditas, estamos tentando gravá-las agora) e de riffs consagrados (Pink Floyd, Hendrix, Beatles), a banda também fazia jams incidentais que acompanhavam seqüências inteiras, além de ocasional sonoplastia. A experiência foi ótima, e apontou para o futuro da banda (foi o primeiro projeto sem o guitarrista Spaceboy, apesar dele ainda ser parte do grupo!), além de ter sido bom pro público ter idéia do quanto diferente a gente pode soar...

Leandro Vignoli - Já que vocês cantam em inglês, pensaram em talvez se bandear pro exterior, como já fizeram outras bandas brasileiras também ditas "indies" como Wry, MQN, Thee Butchers Orchestra?


Fabinho (Snooze) - Me parece uma ótima idéia. Vira um problema quando a banda não é a principal prioridade na vida dos integrantes da mesma.

Leandro Vignoli - Falando em indie, vocês são os típicos indies, vai dizer?


Fabinho (Snooze) - Como é um típico indie? Eu durmo muito, serve?

Leandro Vignoli - Eu estava vendo o setlist do show em que tocaram apenas covers, recentemente. De onde surgiu a idéia, pelo que vi, foi a segunda vez que rolou? Parece afudê, um grande festerê de rock com vários sons, só que em vez de som mecânico, uma banda tocando tudo ao vivo.


Fabinho (Snooze) - A idéia é essa de um festão mesmo! Os covers sempre foram presentes em nossos repertórios. Como sempre tomamos o cuidado de não ficar repetindo covers por muito tempo [e também para gente se divertir MAIS], a gente acabou acumulando um bocadinho através dos anos... Isso levou ao primeiro In Covers. A segunda edição serviu para entrosar a nova formação da banda (o que, de certa forma, também foi verdade na primeira), e também para atualizar nossas referências sonoras para o público.

Leandro Vignoli - Vocês já abriram para bandas de destaque. Onde gostaria de tocar algum dia?


Fabinho (Snooze) - Já que a gente não falou mal de ninguém ainda, aproveito para dizer que o PIOR show que a gente abriu foi o de Marky Ramone! Foi uma palhaçada, com a banda sendo jogada num cantinho do palco do local que é uma boate para playboy, com um som ridículo de ruim! Os melhores foram: Karne Krua (seminal HxCx, no lançamento do cd), Concreteness (lá para 96) e Mechanics.

Leandro Vignoli - Opa! Falar mal. Vocês chegaram a ler alguma coisa do Gordurama? Acharam uma merda? Este monte de perguntas capciosas que eu fiz te incomoda? Pode dizer que a gente publica, sem grilo.


Fabinho (Snooze) - Ainda explorarei mais o Gordurama, mas o conteúdo do que já li é bem bacana, parabéns! O monte de perguntas só teve como problema a quantidade, mas a qualidade está acima da média. Parabéns de novo!

Leandro Vignoli - Valeu, a maioria das bandas se caga de medo de responder as perguntas. Ou acham que a gente é meio cretino, sei lá. Diz aí, tu tem ouvido algo de massa ultimamente?


Fabinho (Snooze) - No momento, um disco de Gil de 69. Entre outras coisas, tenho ouvido Interpol, The Rapture, David Bowie, Ravi Shankar, Beatles, Tindersticks, Spiritualized, Cocteau Twins, Radiohead, The Delgados, etc.

Leandro Vignoli - Diz algumas bandas boas do Brasil em geral pro pessoal dá uma procurada.


Fabinho (Snooze) - Em Maceió tem uma cena muito bacana acontecendo: Xique Baratinho, Wado e Marcelo Cabral são os principais nomes e o som deles tem a tendência de evocar a brasilidade, mas sem muitos clichês. Gosto do trabalho do Momento 68, Detetives, Diagonal e Hurtmold, de Sampa. brincando de deus vai ser sempre referência, principalmente pro som que a gente faz. No mais, temos a Vamoz em Recife, o Eddie, Mechanics, Violins...

Leandro Vignoli - Agradeço por este papo internérdico. Fala aí, o que quiser, para fechar a entrevista.


Fabinho (Snooze) - A Snooze agradece imensamente o espaço, e o que pode ficar dessa entrevista para o leitor é que o Nordeste tem muito som para ser descoberto. Que nossos ouvidos sejam desimpedidos de preconceitos! Música independente precisa ser livre de formas e estruturas pré-concebidas. Tem gente em todo lugar do mundo fazendo sons inimagináveis. Cabe ao ouvinte ir atrás da garimpagem: enquanto a mídia fizer o jogo das grandes gravadoras, é cada um por si.

 

  Quem quiser entrar em contato direto com a gente pode escrever para assessoria de imprensa. No sítio www.snooze.com.br há um cadastro para quem quiser receber nosso informativo, além de mp3, fotos, e coisa-e-tal. Tchau!


 

 * P.S. :  Entrevista originalmente publicada e gentilmente cedida pelo site www.gordurama.com.br.

 

 

 

 

 Outras matérias relacionadas!!!

 

 

* Clique aqui e veja fotos do show da Snooze + Karne Krua + Starbelly

 

 

  * Clique aqui e veja a matéria com fotos do Snooze Acústico!

 

* Clique aqui e veja Snooze - Especial 10 anos

 

 


[Página Inicial