Lilith Lego
 


                                               
 Por Éverton Luiz Cidade
                                                                                    
 Imagem: Aline Ebert

 

 


 


Eu não te falei que minha urina é sangue agora

E que estou pra perder o emprego,
que sozinha é ainda mais fácil de me foder
do que contigo me comprando
com gás de cozinha e pirâmides
de cartolina fina-ao-corte ao máximo
dos poucos instantes

Sorrindo me ensinou a música
mais triste e eu te deixo por
que você não pode me levar
pra casa à noite

Eu não te falei que estou lendo sobre
budismo e que estou
numa onda de pessimismo e violações
de segredos universais

Eu não te falei porque na minha vida
nada é tanto de quanto por pranto assim

Eu não te falei que não consigo mais pagar
minhas contas e que tomei bolinhas e bebi a
semana toda e que não consigo lembrar
de como começa Jealous Guy,
e que estou exausta, indecisa,
gasta com vislumbres de
felicidade e tristeza absoluta - todos estão
cansados de mim - nada vai fluir - nada
vai fluir

Somos eu e tu, ele, ela, os Rômulos,
as Larissas, os Chicos, os Fagners, os Felipes,
assim por diante, uma geração de tratantes
mal instruídos sobre uma possível expiação
mecânica/industrial dessa minha alma
Sonrisal

Estou com saudades, sou a sombra entre
as claridades

E deste sempre não sinto tão sozinha.
Sonetos e sinfonias de bicicletas e pernas

E tanto esforço só pra me punir?
Eu mesma perderia fazer isso e melhor

Eu não te falei que estou cansada
de ficar chapada aceitando cartões de
crédito e rindo do que nem estou ouvindo

Eu não te falei que quero uma casa
arrumada e parecer mais atraente e engraçada
maneirar na birita - que a mão esquerda não saiba
da direita ainda

Eu não te falei que estou doente,
docemente doente - que tua síndrome de
Messias me faz querer um Cristo Elétrico e
portátil

Eu não te falei que está tudo a contento
Eu não te falei que é só aquele medo

Sou a rainha das duchas frias.

Mas nada é tanto de quanto por pranto assim.

 

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