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desde 13/07/2003 |
Nem tudo é metafísica
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Kid Foguete

Jeremy coçava as feridas que
brotavam em suas pernas; malditas feridas que logo sangravam ao serem coçadas
com vontade. Aquilo realmente não era nenhuma novidade. Dirigiu-se ao banheiro e
deu aquela mijada barulhenta. Cumprimentou sarcasticamente suas duas caras no
imundo espelho trincado e lá se foi sem dar descarga, ele nunca dava.
O sol não estava muito quente, era uma inerte tarde de outono. Trancou a porta
dando apenas uma volta com a chave; ele simplesmente não se importava muito, não
havia nada lá além de recordações sem importância. Desceu pela rua, cara
fechada, algum trocado no bolso da calça jeans surrada - ganhara cinqüenta
pratas no pôquer na noite anterior. Não tinha muitos amigos, porém sabia que
havia algumas mulheres com as quais poderia contar caso quisesse dar uma foda ou
simplesmente para tomar um drink decente. Abriu a caixa de correio para ver se
recebera alguma coisa além daqueles irritantes panfletos promocionais. Nada. Era
realmente uma tarde sem nenhuma atração...
- Não, porra, eu disse não! - a mulher gritando do outro lado da rua chamou sua
atenção por um instante. Não que ele se importasse, muito pelo contrário, estava
cagando e andando para aquela velha gorda com um vestido muito decotado para
tamanhos seios. Na verdade, aqueles sim, chamaram sua atenção. Sorriu
maliciosamente, apostando que não havia nenhum soutien ali.
- Seu filho da puta, me deixe em paz! - então Jeremy deu mais uma olhada, desta
vez precisou virar-se um pouco mais, e descobriu o que estava acontecendo com a
dona gorda. Havia um anão ao lado dela puxando-a pela saia, talvez tentasse
convencê-la a fazer algo. Que cena grotesca, nada além de uma cafetina decadente
e um anão apaixonado.
- Vamos, você me prometeu! Não faça isso, estamos no meio da rua! - disse o anão
com sua voz pequenina de anão. Fred era o nome dele, trabalhava como garçom num
bar exótico; carregava uma espécie de chapéu-bandeja, coisa fina mesmo.
- Eu já disse que não quero! Se você não me deixar em paz... - Virna, a dona dos
seios oceânicos, estava decidida; "não" era "não". Talvez ela já nem mais
estivesse interessada em sustentar a sua posição, porém a mantinha justamente
para não dar seu braço gordo a torcer. Balançava negativamente a cabeça enquanto
tirava a calcinha do meio da bunda.
- Tudo bem. Não quero saber de vexame, estou indo embora. - o nanico fez uma
cara ainda mais idiota e ficou tentando olhar sério para a montanha de banha à
sua frente. Jeremy já nem mais estava ligando pra tudo aquilo, não ligava mesmo.
Seguiu seu caminho para algum lugar indefinido. Continuava a caminhar enquanto
ruminava alguma idéia insensata e estúpida, parou para coçar as feridas e
continuou.
Ele havia sido casado uma única vez, aprendera a lição e não mais quis saber
daquele negócio. Sua ex-mulher não sofreu com a separação, pois era ela quem
sustentava a casa, dava duro no emprego para manter a geladeira cheia de
cervejas para o marido vagabundo - mas ele era uma boa foda, era mesmo, naquele
tempo era. Enquanto a mulher ia para o trabalho, ele ficava assistindo a corridas
de cavalo pela tv e, às vezes, escrevia algum conto sexista para depois ter
alguma coisa para ler enquanto cagava. Ele realmente estava numa boa. Tiveram um
filho juntos, retardado, morreu alguns meses após o nascimento. Os médicos
disseram que a criança herdara um problema paterno, o nome da anomalia ninguém
nem ao menos conseguia pronunciar direito. O cético Jeremy não acreditava
naquilo também, sempre achou que sua mulher havia fodido com seu parceiro de
pôquer, "Double" Joey - aquele sim, tinha problemas, era o que ele pensava. Não
sentia falta dela, sentia falta do dinheiro para a cerveja gelada.
Tirou o pacote amarrotado de Vice Roy do bolso e puxou um cigarro após dar umas
batidas leves na bunda do maço. Jimbo Samsa aproximava-se coçando o lobo da
orelha esquerda, era um cacoete estranho e engraçado ao mesmo tempo.
- Como andam as coisas, meu velho?! - Jimbo aproximou-se trazendo o isqueiro.
Acendeu o cigarro, logo voltando a coçar a maldita orelha cheia de cera.
- Como sempre, não tenho tido muito tempo para pensar sobre como elas realmente
estão. - respondeu Jeremy, indiferente, emoldurando as palavras com a parte da
fumaça não absorvida pelos pulmões.
- Fiquei sabendo que você anda fodendo com a viúva do Barney. Como é?! - Jimbo,
na verdade, não estava muito interessado nisso, queria mesmo puxar conversa
fiada, coisa comum nos caras de seu tipo.
- Na verdade, senti certa pena dela, mas nada duradouro. Não é tão boa de cama do
jeito que o Barney vivia dizendo quando bebia demais. - e não era mesmo, era
apenas uma foda simbólica para espantar o tédio. Talvez Barney sempre a fodia
enquanto estava bêbado, pobre diabo.
- Tá certo. Eu cheguei até a pensar que você estava querendo dar o golpe na
coroa, pegar alguma grana do seguro...
Na verdade, isso era especialização do próprio Jimbo, velho gigolô viciado,
sempre havia se dado bem nesses lances, até que um dia perdeu um testículo para
uma dona raivosa que o esmagou com o salto do sapato enquanto dormia
chapado. O cara ainda continuou mancando após um bom tempo, talvez até tenha
sido por isso que começara com a mania de coçar a orelha esquerda. Nunca se
sabe, mas que deve ter sido uma puta dor...
- Na verdade, cheguei até a pensar na hipótese... Sem chance, o irmão dela é
tira. Por mais idiota que possa parecer, certamente quando o assunto é dinheiro
até um burro abana o rabo. Fiquei só com as fodas mesmo. - a sorte de Jeremy
estava no fato dele não ser ganancioso, para ele o dinheiro que recebia do
aluguel de um velho barracão herdado de uma tia lésbica estava bom. Nessas horas
lembrava-se de sua vida de casado, realmente era mais segura. Não perdia mais
que cinco segundos pensando nisso; tossia ao esmagar a bagana lançada ao chão.
- Tá certo, cara, até que você não pensou errado! Olhe para mim, cara, até hoje
meu saco lateja quando trepo... Agora meu lance é outro, tô armando um esquema
de jogo com uns caras do Queens... - Samsa sempre estava armando alguma merda
que no final acabaria virando uma merda ainda maior. Grande merda o que ele
estava armando.
- Boa sorte, meu chapa, espero que ganhe em Vegas, hehehehe! - dane-se, pensou Jeremy. Ele tava pouco se importando, na verdade, apenas o isqueiro havia sido
realmente útil durante aqueles minutos de diálogo. - A gente se vê por aí... -
eles continuaram a andar em direção oposta.
Aquele dia realmente não prometia nada, tudo que passava na cabeça de Jeremy era
voltar para casa e conferir se as cervejas que comprara haviam gelado. Sua
caminhada não estava rendendo nada além de suor e fadiga. De tão vazia que era
sua vida, ele simplesmente ignorava as coisas ao seu redor, imaginava-se em
Hollywood - caminhando em direção a lugar nenhum.
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