Para que servem os mendigos?
 


                                               
 Por Fernando Paiva
                                                                                    
 Imagem: Reprodução

 

 


 


  “Operação Zona Sul Legal”: este foi o nome inventado pelo governo estadual e pela prefeitura do Rio para a faxina que está sendo feita nos bairros de classe média alta da cidade. Aliás, “faxina” seria um nome bem mais adequado, já que a operação consiste em retirar à força mendigos e pivetes das ruas de Copacabana, Ipanema, Leblon e Gávea. Sob aplausos de comerciantes e moradores, dezenas de policiais militares, civis e municipais vasculham esses bairros à noite como garis a “limpar” a cidade. A ordem é recolher a população de rua e mandá-la para bem longe, ou seja, para onde a classe média não possa sentir o seu cheiro, ver as suas roupas em frangalhos ou ser incomodada por inconvenientes pedidos de esmola. Talvez os governos estadual e municipal, mais que agradar à classe média, queiram atender a um pleito antigo da classe hoteleira, preocupada com a satisfação dos turistas e, conseqüentemente, com seus lucros. Curiosamente, a “Operação Zona Sul Legal” é um raro exemplo de união entre os senhores César Maia, prefeito do Rio, e Rosinha Matheus, governadora do Estado.

  Seria muito fácil criticar essa faxina traçando um paralelo com aquela feita pela Alemanha nazista. Seria também um tanto ou quanto exagerado. Por mais que eu tenha certeza de que alguns políticos fluminenses no fundo de suas mentes bem que gostariam de mandar os mendigos para campos de concentração - seria como a solução final de Hitler? -, a população de rua carioca está sendo levada para abrigos.

  Poderia analisar a questão à luz de ideais de liberdade individual: levar pessoas à força para onde quer que seja só porque constituem uma poluição visual para autoridades é um absurdo.

  Entretanto, prefiro trilhar um caminho mais difícil e que julgo pouco explorado. Enxergo nessa população de rua, com toda a sua feiúra, o seu mal-cheiro, os seus corpos imundos e os seus dentes pretos, um importante papel social. Se por um lado mendigos e pivetes existem porque são a conseqüência de um perverso sistema que promove a desigualdade de renda, por outro eles são, ao mesmo tempo, o sinal de que há algo de errado. Retirá-los para os confins do mundo é querer esconder dos próprios olhos a sinistra face de um sistema que todos nós alimentamos diariamente, ainda que de maneira inconsciente, pelo simples fato de estarmos dentro dele.

  Os mendigos, portanto, servem como um alarme. É bom que eles estejam na rua mesmo, bem à mostra. Quanto mais, melhor. E quanto mais próximos da burguesia, melhor ainda. E não preciso fazer qualquer campanha por isso. Pois é algo intrínseco à máquina que rege nossa sociedade. Essa “Operação Zona Sul Legal” está fadada ao insucesso. Os mendigos voltarão. Os pivetes também. E as prostitutas de rua. E os travestis. E toda a sujeira e imundície que trazem consigo. E para todo o sempre - ou enquanto existir essa dura realidade - eles estarão presentes para provocar mal-estar, por breves instantes que sejam, em nossas mentes de homens e mulheres de classe média. É o preço mínimo que se paga por ser um privilegiado nesse sistema. E é bom ninguém reclamar, pois é um preço bem pequeno, principalmente se comparado com aquele pago pela enorme população de miseráveis do país.

 

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