“Operação Zona Sul Legal”:
este foi o nome inventado pelo governo estadual e pela prefeitura
do Rio para a faxina que está sendo feita nos bairros de classe
média alta da cidade. Aliás, “faxina” seria um nome bem mais
adequado, já que a operação consiste em retirar à força mendigos e
pivetes das ruas de Copacabana, Ipanema, Leblon e Gávea. Sob
aplausos de comerciantes e moradores, dezenas de policiais
militares, civis e municipais vasculham esses bairros à noite como
garis a “limpar” a cidade. A ordem é recolher a população de rua e
mandá-la para bem longe, ou seja, para onde a classe média não
possa sentir o seu cheiro, ver as suas roupas em frangalhos ou ser
incomodada por inconvenientes pedidos de esmola. Talvez os
governos estadual e municipal, mais que agradar à classe média,
queiram atender a um pleito antigo da classe hoteleira, preocupada
com a satisfação dos turistas e, conseqüentemente, com seus
lucros. Curiosamente, a “Operação Zona Sul Legal” é um raro
exemplo de união entre os senhores César Maia, prefeito do Rio, e
Rosinha Matheus, governadora do Estado.
Seria muito fácil criticar essa faxina traçando um paralelo com aquela
feita pela Alemanha nazista. Seria também um tanto ou quanto
exagerado. Por mais que eu tenha certeza de que alguns políticos
fluminenses no fundo de suas mentes bem que gostariam de mandar os
mendigos para campos de concentração - seria como a solução final
de Hitler? -, a população de rua carioca está sendo levada para
abrigos.
Poderia analisar a questão à luz de ideais de liberdade individual: levar
pessoas à força para onde quer que seja só porque constituem uma
poluição visual para autoridades é um absurdo.
Entretanto, prefiro trilhar um caminho mais difícil e que julgo pouco
explorado. Enxergo nessa população de rua, com toda a sua feiúra,
o seu mal-cheiro, os seus corpos imundos e os seus dentes pretos,
um importante papel social. Se por um lado mendigos e pivetes
existem porque são a conseqüência de um perverso sistema que
promove a desigualdade de renda, por outro eles são, ao mesmo
tempo, o sinal de que há algo de errado. Retirá-los para os
confins do mundo é querer esconder dos próprios olhos a sinistra
face de um sistema que todos nós alimentamos diariamente, ainda
que de maneira inconsciente, pelo simples fato de estarmos dentro
dele.
Os mendigos, portanto, servem como um alarme. É bom que eles estejam na
rua mesmo, bem à mostra. Quanto mais, melhor. E quanto mais
próximos da burguesia, melhor ainda. E não preciso fazer qualquer
campanha por isso. Pois é algo intrínseco à máquina que rege nossa
sociedade. Essa “Operação Zona Sul Legal” está fadada ao
insucesso. Os mendigos voltarão. Os pivetes também. E as
prostitutas de rua. E os travestis. E toda a sujeira e imundície
que trazem consigo. E para todo o sempre - ou enquanto existir
essa dura realidade - eles estarão presentes para provocar
mal-estar, por breves instantes que sejam, em nossas mentes de
homens e mulheres de classe média. É o preço mínimo que se paga
por ser um privilegiado nesse sistema. E é bom ninguém reclamar,
pois é um preço bem pequeno, principalmente se comparado com
aquele pago pela enorme população de miseráveis do país.
[
Página Inicial
]