Chegar e dizer tchau
 


                                               
 Por Rossana Paola
                                                                       
 Imagem: Marcelo Klein

 

 



 

  Hoje cansei de novo, outra vez, mais uma vez. Cansei hoje como cansei ontem, anteontem, semana passada e o mês todo. Falei com pai, mãe, irmão e amigo. Mas ainda não falei comigo. Eu, que não sou de ficar espalhando minhas “interioridades” por aí, me vi despejando o coração sobre os mais íntimos. E fiquei muda ao telefone, só escutando o barulho do almoço da minha casa, com vontade de desabar, antes de falar que pensava em desistir. Segurar o choro, abandonar as poucas coisas que são o mundo para mim. Antes de escutar que a vida é assim, que há que se ser forte. E antes de me dar conta que acho que já sei que a vida é assim, que já sou forte, que parem com isso. São os minutos que precedem o instinto de dar um tempero, largar tudo, mudar de vida. Deixar o circo pegando fogo sem avisar aos bombeiros. Estar pela primeira vez em um novo lugar. Gritar o quanto amo e odeio essas coisas tão opostas chamadas seres humanos. Não precisar sofrer para fazer literatura. Saber que para entender o pensamento do poeta é preciso entender o próprio pensamento.

  Foi o espaço de tempo em que sonhei de novo com o dia que vou chegar para dizer tchau. E então, o sorriso no meu rosto foi o mesmo que acompanhava o “adeus” da minha imaginação. Todos espantados enquanto minha mão se mexia horizontalmente. Sem frio, sem dor, sem lágrimas. Recolher os pertences avisando que volto para visitar. Mas isso é só depois de me dar a vontade inversa, que é a de sair por aí agarrando tudo que ainda não conquistei. Aí vou abraçar os amigos que não fiz, experimentar sensações que já me disseram ser boas, ler todos os livros que gente bacana me recomendou. Esse desejo não deve demorar a chegar - ao menos eu espero. Por enquanto vou aliviando as coisas, enchendo de panos quentes o meu pensamento. Salvo os documentos na pasta “Trabalho”, tentando não esquecer da “Pessoais”. Chego, entro, dou oi ao invés de tchau. Como pretendo fazer para todos os meus sonhos.

 

 

 

 


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