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Underground é só
uma palavra. O sentimento que ela implica está sendo esquecido
Texto e Imagem: Peter Strauss
Milhões hão de discordar de mim, mas eu digo: isso é baboseira, lixo retórico. Não estou defendendo shows desorganizados, donos de casas de shows crápulas, nem acusando aqueles que ganham seu pão com sua arte. Sem problema. Mas música, em essência, não é uma profissão, é uma arte, uma expressão. Esse último quesito tem feito muita falta. Vejo muitas bandas profissionais, mas vejo poucas bandas apaixonadas. Vejo poucas bandas ousadas, loucas, arrebatadoras, genuinamente experimentais. Dentro de suas cabeças profissionais está sempre a preocupação com a imagem, o comportamento calculado no palco, a estética como um plano e não como uma expressão. Alguém aí já viu o Iggy Pop cantando na época dos Stooges? Podem dizer o que quiserem do cara, mas aquilo era intenso, era real, sangue e suor. A música não era calculada, não era exata, não era perfeitamente ensaiada. Era visceral, as vezes caótica. Causavam tensão, êxtase, confusão. As pessoas adoravam não porque era fácil. Adoravam porque era difícil.
Hoje em dia, o estilo musical que eles tocavam já não tem muito de radical ou diferente. Bandas punks gravam discos produzidos ao máximo, com distorções previsíveis e microfonias comportadas, tudo em seu lugar, de acordo com o manual de instruções. Soam iguais.
O que eu queria colocar é que a música é anterior à sua profissionalização. Muito antes de se venderem música, ela já existia. E se todo o mercado fonográfico implodisse e não fosse mais possível comprar um disco, uma revista especializada, um dvd ou mesmo um mp3, mesmo assim a música continuaria existindo, para sempre, enquanto houvessem pessoas. Sempre há pessoas que se importam com a música e não apenas com cachê, público-alvo, release, foto, nota no jornal. Tudo isso são apenas anexos, coisas que se agregaram à música porque alguém lucrou com isso. Muitas pessoas lucraram e a indústria que se formou em volta faz as pessoas acreditarem que a música é isso. Talvez seja eu, mas acho essa crença ingênua.
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