A Festa de Casamento

Por Alessandra Mascarenhas

Imagem: Reprodução

 

 
  Cenário: o banheiro feminino de um salão elegante de uma festa de casamento. Ela, linda. A pele bronzeada, destacada ainda mais pelo branco do vestido de noiva. Os cabelos de um tom aloirado, presos num coque meio desalinhado, enfeitados por flores frescas, com algumas pontas soltas tocando levemente o ombro delineado. Os olhos contornados de negro, a pele das maçãs do rosto um pouco irritadas pelo roçar impetuoso da minha barba por fazer, o pescoço com a pele corada pela impetuosidade da minha boca, sugando-o, desesperada.
 

  Eu sentado sobre a tampa fechada do vaso sanitário. Minha camisa amarrotada, aberta até o umbigo. O zíper da calça aberto. Ela sentada de frente, no meu colo, com as pernas abertas, o vestido de saias amplas levantado. Os dois corpos grudados, melados pelo calor da hora. Suspiros. Amassos. Minhas mãos cravadas em suas costas nuas, reveladas pelo decote. Os seus braços quase me enforcando no abraço sôfrego. Gemidos contidos pela necessidade de não chamar a atenção de nenhum convidado. Meu rosto inundado de lágrimas, meu pau latejando de desejo. Ele entregue, o corpo rígido de vontades, as mãos desesperadas afundadas nos meus cabelos, descendo pela minha nuca, minhas costas, explorando qualquer centímetro de pele ao seu alcance.

  Maldita...eu lhe dizia com a boca colada em seu ouvido...você arruinou minha vida...E ela calava a minha boca com a sua, me sufocando com sua língua serpenteante e me puxando ainda com mais ardor para si.

  Eu, seu convidado para a festa. Gente civilizada. Amigos para sempre depois do fim do amor. O noivo, gentil, me sorriu simpaticamente quando cheguei, estendendo-me a mão. Ela, ao lado dele, me sorria, passando levemente a língua pelos lábios, num movimento quase imperceptível, mas que eu, por conhecê-la tão bem, registrei imediatamente. Com o movimento senti meu pau reagir, e meu coração gelar. Maldita amada.

  Depois dos cumprimentos de praxe do casal aos convidados, de mesa em mesa, ela de desvencilha do noivo e vem sorrindo ao meu encontro, me puxando pela mão e me arrastando para a pista de dança.

  Sacode o lindo corpo na minha frente, sem tirar os olhos de mim por um segundo. Joga a cabeça para os lados, mexe o quadril, fecha os olhos, dança lindamente. E eu, ali, suando, inundado de medo e desejo.

  De repente olha para os lados e rapidamente gruda sua mão na minha me puxando em direção ao banheiro. Me empurra para dentro e nos tranca por dentro. Pouso os olhos desesperados nela, ansiosos por uma palavra, por uma explicação, mas ela me beija e a cena descrita acima segue.

  E o balé louco continua, até que junto com o gozo vem o som de batidas na porta do banheiro. Ela, com a cabeça tombada na direção da minha, os olhos fechados, a boca num meio sorriso e o corpo todo tremendo, balbucia um já vou.

  Ficamos alguns segundos assim, entregues e silenciosos. Ela então se levanta. Me olha profundamente, limpa minhas lágrimas com a barra do vestido e diz te amo. Ajeita rapidamente o vestido, os cabelos, e antes de sair me olha novamente e suspira.

  Com o barulho da porta que se fecha, uma torrente de lágrimas e soluços cai sobre mim. Então uma menina vestida de rosa entra no banheiro e fica paralisada diante daquela triste figura aos prantos, sentada sobre o vaso, com a roupa toda aberta, amarrotada, a cara vermelha e inchada e a dor da derrota sobre si.

         


 

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