Dias de azar com os Street Bulldogs

 

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Maldito Zine (Impresso)

 

Por Ricardo Alexandre "Guerrillero"

Imagens: Reprodução

 

 

  E eis que Unlucky Days (Thirteen Records - 2003), terceiro álbum de inéditas do quinteto paulista Street Bulldogs, vem reforçar a bola de neve gerada desde o primeiro compacto, ainda em vinil, nos idos de 1995. Desde essa época não li, ouvi ou mesmo escrevi algo diferente de expressões como "tão bom quanto o anterior", sendo o ponto de partida para todas as conversas sobre esses caras.

 

  A missão de suceder Faster, Louder and Alive, de 2002, não fez com que eles "amarelassem", afinal de contas, este antecessor é sem o menor exagero, um dos grandes discos de Rock lançados por estas pairagens. Não, não tem os "monstros do Rock", como vários já podem inclusive questionar, entretanto, quem falou que ter proposta definida e trabalho honesto sejam fatores a serem ignorados? 

 

 

 

 

  Desta maneira, voltaram do estúdio com novos 30 minutos da habitual pegada bulldog, que entra disco e sai disco, entra integrante e sai integrante, mas incrivelmente não há uma alteração drástica na qualidade das canções. Falando em permutas de músicos, a nova formação tem  o Koala (Hateen) no lugar do Sonrisal, ambos guitarristas -, e claro, junto ao Zé (baixo), Guilherme (bateria), Fabrízio (guitarra) e Leo Kobbaz (vocal),  continuam a trajetória exitosa do grupo.

 

  Com as duas guitarras "conversando" no melhor estilo Somewhere In Time (clássico do Iron Maiden) à la hardcore em todo o cd, os primeiros instantes são ao pé-da-letra iniciais com a faixa Sweet Threat, na qual falam que estão "aqui de novo para mostrar o nosso estilo de vida". Típica música condenada a abrir shows por ter um formato de cartão de visitas, de anunciar para que começou o gig, e quem quiser hc mela cueca vai ter que procurar outro terreiro. Entretanto, além de Living For Today e Disturbed, as duas inéditas do ao vivo anterior agora em versão estúdio, Spider e Ghost of My Words refletem o lado mais sentimental do álbum. Detalhe: as estórias terminam no cada um para o seu lado, imersos nos erros e indiferenças, ao invés de sacrificarem os cotovelos e ouvidos alheios.

 

  As demais canções expressam outros sentimentos, basicamente constatações do mundo ao redor, as relações humanas e o cotidiano repleto de ciladas, só que com possibilidades reais de você seguir a sua cabeça, e não um mero objeto de ressonância social. Em outras palavras, colocam algo de auto-estima e zelo pela individualidade (não individualismo) dentro de uma perspectiva coletiva: We Are The One, All Day, Padrão (em português), Sensation, Break Your World, You Might Be Wrong e Poor Minds(religiões e fiéis).

 

Day after day i go

I´m looking for something to take me

To a better place where i know

How to consolidate my dreams

 

(Extraído de 'All Day')

 

  No mais, Unlucky Days (faixa-título) será melhor explicado na conversa a seguir com o Leo, daí os interessados saberão porque "não existe preço que pague viver estes dias de azar". Acima de tudo, recado que serve aos que conduzem suas vidas conforme as convicções, ou rumo aquela luz própria que se esconde no fim do túnel. Para ilustrar o tal azar, a hipotética faixa de número 13 não existe, sendo representada pelo trevo de quatro folhas, popular amuleto da sorte que no caso dos Street Bulldogs, ganha sentido inverso. Portanto, esqueça o sal (e o olho) grosso. 

 

  Um grande disco de Rock, mas incorrerei na redundância num próximo texto, pois Tornado Reaction (disco saído do forno),  já chegou e ao que parece, manterá esses bulldogs soltos na rua sob os argumentos de sempre... Queiram ou não.

 

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Dissonância - Oi, Leo. Sendo o único remanescente da formação original (1995, segundo o compacto-vinil 'Screaming For Anarchy'), poderia falar um pouco sobre o que significava formar a Street Bulldogs naquela época? Teria alguma relação com o que consta no release oficial, "surge uma banda vinda de Pindamonhangaba, mostrando que não é preciso ser de uma ceninha da Capital para fazer rock de verdade"?

 

Leo Kobbaz (Street Bulldogs) - Sim, é exatamente isso, a gente há 10 anos atrás no interior, não tinha idéia do que se passava em SP. A gente fazia o que gostava e até hoje é assim; não estamos preocupados com cena, com fama, com nada disso, apenas com o som, nossa realidade, e o que vier a gente vê o que faz, hehehe.

  Naquela época era outro mundo, você tinha tatuagem, roupa rasgada, cabelo raspado, no interior você era um louco, rebelde, delinqüente, e mesmo sabendo disso, preferimos enfrentar para acreditar no que gostamos e fazer o negócio funcionar; mostrar que é só acreditar e não
desistir.

  As influências continuam sendo as mesmas bandas que ouvimos até hoje, tipo Social Distortion, Circle Jerks, Black Flag, Husker Dü, Dag Nasty, Uniform Choice, Dead Kennedys, Ramones e muuuuuuitas outras. Isso que fez a gente existir.

Dissonância - Chega a ser curioso, ao lermos os comentários acerca dos discos de vocês; sempre falam, no mínimo, que o mais recente está no mesmo nível do anterior. Acompanho alguns textos sobre o mundo da música, e dificilmente as bandas mantêm essa média de receptividade.

Leo Kobbaz (Street Bulldogs) - Para a gente, tem que sempre melhorar, nunca vamos querer fazer algo que seja inferior ao anterior, por isso nos preocupamos com a qualidade da música, boas influências fazem isso.

 

Dissonância - Como é ser independente, lançar discos (pelo menos os últimos) ano a ano, viajar todo o país, ocupar um lugar de destaque no underground, e no entanto, vendo que a rapaziada (grande público) é literalmente arrebanhada a pensar que só duas ou três bandas "têm estilo"? Tem noção do tipo de público que os acompanha?

 

Leo Kobbaz (Street Bulldogs) - Não nos preocupamos muito com a parte visual da banda, e sim com o que as pessoas vão ouvir. É muito gratificante, porque sabemos que tudo isso é feito pela música, e somente a música, porque não aparecemos na tv, no rádio, etc.

 

  Somos uma banda conhecida por sua atitude, respeito e qualidade musical, assim conquistamos o nosso público. É mais legal do que você saber que é conhecido porque está com a cara exposta na tv; a gente não tem isso, é show e mais nada, por isso é mais gratificante e empolgante. Tudo que a gente se fode por ter dificuldades e ser independente compensa quando você sobe no palco e vê muita gente lá, cantando a sua música porque realmente gosta, e não porque quer ver a banda do momento, que passa na tv. Não somos atores.

Dissonância - Em "Unlucky Days" (música do álbum homônimo) vocês falam do dia-a-dia de uma banda de hard core, em tempo, cheio de surpresas pelo caminho, nem sempre agradáveis. Para terem escrito, subentende-se que isso também faça parte do cotidiano dos Street Bulldogs. Ao contrário do que quem lê esta pergunta possa pensar, a música não tem dor-de-cotovelo e ainda fala que não há preço que pague essa parada. De que maneira assumem e encaram os riscos dessa estrada?


Leo Kobbaz (Street Bulldogs) - É como eu disse acima: tudo que nos prejudica por não termos estrutura e vivermos num país ignorante, compensa ao subir no palco e saber que as pessoas gostam da gente como uma banda de hardcore, que é o que somos. Por isso a gente retrata isso na letra, não ha preço que pague esses dias de azar, pra gente isso é o combustível para continuar.

 

Dissonância - Desde o "Question Your Truth" (2001) que os SB trazem ao menos uma faixa em português, incluindo, de lá para cá, os três discos que vieram na seqüência. Com o repertório quase que na totalidade cantado em inglês, qual a pretensão ao mesclar os dois idiomas? Pra tornar curioso, as "portuguesas" são tão bem aceitas quanto as demais, não é isso?

 

Leo Kobbaz (Street Bulldogs) - São bem aceitas sim, mas é que nós não gostamos de cantar em português, porque achamos que não fica legal, e outra, já começamos com esse propósito e agora que virou moda cantar em português, será a última coisa que iremos fazer.

 

Dissonância - Para quem está há tanto tempo na ativa, diga-se de passagem bem movimentados, o que se pode constatar desse tão falado "circuito independente"? O que você destacaria, no âmbito das bandas nacionais, como bons trabalhos?

 

Leo Kobbaz (Street Bulldogs) - Nós estamos na ativa vai fazer 11 anos só com esse nome, e as melhores coisas que gente vê ainda são as antigas, porque tem personalidade. Existem coisas novas boas, mas enquanto houver a pretensão de algumas bandas quererem ficar "famosas", o underground nunca vai melhorar. Não tô falando de crescer em quantidade, mas sim qualidade.

 

Dissonância - Espaço Livre.

 

Leo Kobbaz (Street Bulldogs) - Muito obrigado por nos dar  essa oportunidade e de fazer perguntas coerentes. Abraço a todos e que o verdadeiro hardcore nunca acabe.

 

 

 

_ Contatos:

 

* http://www.tramavirtual.com.br/street_bulldogs

 

 

 


 

 

Maldito Zine

 

 

A versão comemorativa de aniversário do Maldito Zine, lançada em maio/2004, ainda sopra as velinhas e espalha maldições também em versão impressa. Tudo isso por culpa do site, há pouco mais de um ano no cyberespaço.

 

  Contém: entrevista com o pessoal da Space Rave/Planondas; resenha de um show do Júpiter Maçã em Chapecó (SC); entrevista, com o Gustavo Lange (zine Punkzaum); poema da Ane Meira, Mens Insana.

 

  (A/C - Edilson)

 

 

 


 

Conspirações Anteriores:

* Programa Estúdio B

* Petiscos do Astronauta Pingüim

* Freak Le Boom Boom

* Assim Sou Eu

* Lugar de Punk Rock é na cozinha

* Rock com The Feitos (RJ)

* O estilo original do Eddie (PE)

* Tamborete Neles!!!

* O Oscar e o dragão da ingenuidade

* Disco novo e entrevista com Wander Wildner (RS)

* Detetives (SP)

* RUÍDO FESTIVAL II:
O sabadão de shows

* RUÍDO FESTIVAL III:
Entrevista com Rodrigo Quik sobre o "Manifesto da Cultura Independente Carioca"

* Luísa Mandou um Beijo (RJ) lança Single

* A Cretinice Que (A)Trai

* Diários de Motocicleta, Inc.

* Entrevista com a Crivo (ES)

* Entrevista com a Noitibó (RJ)

* Show Viana Moog + Dante Inferno

* Show Viana Moog + SOL

* Punk/Hard Core Cristão - Pogando com O Senhor!

* Madeixas – Parte II

* Show Lava (SP), Girlish e Viana Moog no Andar de Cima

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