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Regurgite it!
Por
Daniel Paes Imagens: Reprodução

1972, Brasil. Nos covis da ditadura, um instrumento de tortura foi
inventado pelos militares para arrancar confissões dos supostos subversivos.
Esta invenção brasileira de tortura por meio de descargas elétricas se espalhou
pelo mundo e foi denominada pau-de-arara. Através dela tudo era
confessável.
2004, Brasil. No Teatro Cândido Mendes, em Ipanema (RJ), um jovem
atado a fios elétricos leva choques a cada provocação poética que destila aos
espectadores. Provocação e choque. Em todos os sentidos. Quanto mais ele poetiza,
mais choca e é chocado. A lâmpada acende atrás dele. Em todos os sentidos
também. As descargas elétricas são conseqüentes da captação de todo e qualquer
som emitido pela platéia no sistema tecnológico ironicamente denominado pau-de-arara,
reações estas provenientes das confissões do subversivo.
Regurgitofagia apareceu timidamente em uma casa pequena, mas muito bem
freqüentada no circuito de artes do Rio de Janeiro - o espaço Sérgio Porto, no
Humaitá. A freqüência do público foi aumentando, o que fez a temporada ser
estendida diversas vezes. De lá em diante, muitas pessoas levaram os choques
críticos de Michel Melamed, autor do monólogo, que provoca desde o título:
Regurgitofagia: ato de “vomitar” os excessos, a fim de avaliarmos o que de fato queremos re-deglutir. A “descoisificação” do homem através da consciência crítica, a
“ignorância programada”.
Interessante a relação criada entre eu – entrevistador – e Michel –entrevistado –
pois, não levei gravador, e imaginei anotar algumas coisas. Porém, após
conversarmos sobre isso, chegamos a uma conclusão: não escreveria nada. Faríamos um
entrevista diferente das que captam o autor (engessado no sentido do “ter”).
Nosso processo de troca seria, então, mais solto. Um bate-papo mesmo (fluído no
sentido de “ser”). Michel não merecia uma entrevista pró-forma.
Reflexão é o mote principal da peça. Crítica do comum enlatado que promove
repensar nossa condição de consumidores de cultura. Os choques ao vivo, a
poesia, a ausência de cenário, tudo isso coaduna para uma questão que envolve
uma fuga do espaço comum criativo. Mas se perguntado quanto ao caráter
considerado experimental do espetáculo, Melamed é incisivo: “todo teatro é
experimental”. Afirmando assim que o verdadeiro teatro deve ser inovador na
estética. E não pró-forma. O teatro deve negar o mesmo, buscando levantar
questões, criticando e aguçando este olhar para o que andamos devorando e para
o que comemos sem perceber. Isso sem falar do que nos é empurrado garganta
abaixo. “Eu quero destruir verdades”, disse ele sentado na mesa de um bar em
Ipanema. Multimídia? Também não. Não neste sentido que brota por aí. Ele usa
vários meios para expor seu pensamento. Mas não que os meios sejam por si a
mensagem. Melamed é ator, apresentador de tv, poeta escritor e disse estar
interessado em compor também. E isso não é muito. Isso é possível para alguém
que, na contra-mão da cultura da técnica, sabe usá-la como extensão de suas
questões reflexivas. Como ele afirmou: “Se é para colocar um nome, prefiro o de
artista. Mas escritor talvez, já que tudo nasce em uma folha de papel”.
POETAPR
ESENT
ADOROTEI
RISTA
Quem choca quem
Michel cria um jogo de espelhos que gera a seguinte questão: quem choca quem? O
artista leva descargas elétricas. Sim, teatralmente isso fica claro pelos
espasmos que intercedem com o texto e a lâmpada que acende. Mas, de acordo com
ele, as pessoas não vão ao teatro pelo simples prazer sádico de ver alguém
recebendo choques. Os estímulos críticos do artista chocam as pessoas, e esta
confrontação se dá muitas vezes de forma bem humorada. Mas isso não é sinônimo
de alienação: “O espetáculo é crítico. Todo humor é fruto de críticas muito
cruéis”. Vide Charles Chaplin.
As palavras emergem do fundo negro do teatro e do figurino. A roupa do artista é
instigante; rasgada transposta; gola no braço e cabeça que sai da manga. Ele,
assim, se mostra como um ser além. Vários bolsos que escondem objetos usados na
cena. A roupa me aludiu a um prisioneiro que é incessantemente torturado pelo
que fala, mas não pára de falar. Fala e choque, fala e choque. Quanto mais
apanha, mais provoca. Até que a luz da cidade acabe, ou sua voz seja ouvida.
A verba para o espetáculo foi conquistada junto a Rio Arte, no segmento 'Arte e
Tecnologia', através do conceito criativo da peça. Mas Regurgitofagia completa-se
com o livro de mesmo nome, que traz a poética verbalizada na peça. Cabe aqui
dizer que a edição foi bancada na raça pelo artista. Junto do livro, um cd com
seis textos recitados. Assistam à peça que estará por outros estados do país
logo, logo. Ponto. Porém, como escreve no próprio texto da peça, para Michel
dizer ponto é pouco:
''Se me falam ponto, não sei
se é final, G, nevrálgico,
de encontro, de macumba, facultativo,
de crochê, de ônibus, pacífico, de
equilíbrio,
aquele cara que soprava o texto pros atores,
de exclamação,
de interrogação, de ebulição...''.
Ficha Técnica
Texto e atuação: Michel Melamed
Direção: Alessandra Colasanti, Marco Abujamra e Michel Melamed
Desenvolvimento da interface: Alexandre Boratto/AVLtech
Figurino: Luiza Marcier
Direção musical: Lucas Marcier e Rodrigo Marçal
Projeto gráfico: Olívia Ferreira e Pedro Garavaglia
Iluminação: Adriana Ortiz
Fotos: Débora 70
Assessoria de Imprensa: Vanessa Cardoso
Produção: Bianca De Felippes e Michel Melamed
Michel Melamed é apresentador e roteirista dos programas "Comentário geral"
(TVE), "Babilônia" (TVE) e "Armazém 41 - Lembranças do Brasil" (GNT); ator do
espetáculo teatral "Woyzeck, o brasileiro"; poeta e um
dos fundadores do projeto CEP 20.000.
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