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desde 13/07/2003


 Fla x Flu de c* é r***

 

 Por Fernando Paiva
 
Imagem: Reprodução + Dissonância

 



  No sábado de carnaval tem um Fla X Flu decisivo no Maracanã pelo título da Taça Guanabara, o primeiro turno do campeonato estadual do Rio de Janeiro. Além do espetáculo prometido por estrelas como Felipe, Roger, Romário e Edmundo, as torcidas devem dar um show à parte. São esperadas mais de 70 mil pessoas, que, ao o longo de 90 minutos, levantarão bandeiras, balançarão bexigas coloridas e, talvez o que as faça mais felizes, entoarão canções de xingamento.

  É impressionante a fascinação das torcidas organizadas pelo sexo anal. Não somente o heterossexual, mas, principalmente, o homossexual. Talvez isso seja fruto de uma fase anal mal resolvida. A verdade é que, se do lado de fora esses torcedores fazem pose de machões enfrentando-se em brigas selvagens, dentro do estádio seus cânticos sugerem um relacionamento diferente. Para um leigo em matéria de cultura futebolística, tais músicas poderiam causar a impressão de que o Maracanã estaria sendo palco de um congresso de pederastas com hormônios à flor da pele.

  A lista de exemplos é farta. A começar pela simpática saudação de boas vindas: “Ei, xxxx (nome do time adversário ou de um de seus jogadores), vai tomar no c*!”, gritada em uníssono pela torcida inteira e acompanhada de palmas e gestos marcando cada sílaba. Na semana passada, ao se classificar para a final, a torcida do Fluminense cantava ao deixar o Maracanã: “O Urubu tomou no c*, a cachorrada se deu mal, o Bacalhau chupou meu p** e o Tricolor tá na final”. E que tal essa outra, exclusiva dos tricolores: “Sorria, sorria, é tempo de sorrir, sorria! Sorria pra chuchu, que o campeão é Flu e o resto vai tomar no c*!”. É verdade que o apelido carinhoso do time facilita a rima, mas a fixação pela sodomia está presente em todas as grandes torcidas do Rio de Janeiro e, acredito eu, do Brasil.

  É curioso notar como em muitas letras os torcedores se projetam enquanto ativos em uma relação homossexual com o adversário e não vêem problema nenhum nisso, apesar de muitos serem notoriamente homofóbicos e, em tese, heterossexuais convictos. Serve de exemplo uma canção contra os vascaínos:  “Vem, Bacalhau! Vem, Bacalhau! Senta no meu p** que eu te levo a Portugal!”. E a resposta deles: “Vem, vem chupar meu p**... Eô! Eô! Que o campeão é o Bacalhau!”.

  Igualmente curioso é enxergar como ofensa chamar alguém de passivo em uma transa homossexual. Tais letras deixam clara a existência de forte preconceito contra os gays não apenas entre torcedores de futebol, mas dentro da nossa sociedade como um todo, pois no estádio, cantando essas músicas, está gente das mais diversas classes sociais e níveis culturais. Para mim, ofensa é chamar de ladrão, de desonesto, de corrupto, de pelego... De homofóbico.
 

  Preferências sexuais, desejos inconscientes e preconceitos à parte, não é possível acusar todos os torcedores pelas letras que cantam. Muitos proferem tais palavras sem sequer se dar conta do sentido embutido nelas. O problema é a manutenção no inconsciente coletivo da imagem negativa contra os gays. Mas isso não é algo que vá mudar graças a um texto crítico ou com alguma campanha para que as torcidas abandonem essas músicas. Isso precisa vir a reboque de um pensamento realmente progressista e libertário ensinado desde a mais tenra idade na escola, em casa e nos meios de comunicação.


  Como estamos a centenas de anos de distância de viver numa sociedade que respeite as minorias, sugiro um tratamento de choque para esses torcedores ignorantes. No lugar das cheerleaders boazudas recentemente incorporadas às partidas de futebol por influência da cultura americana, deveriam botar go-go boys seminus agitando pompons cor de rosa. Será que geraria alguma reflexão na cabeça dos selvagens na arquibancada? Quem sabe um ou outro não descubra sua verdadeira opção sexual?  

 

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