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desde 13/07/2003


 Canção, canción, chanson


 Por
Marcos Sosa

 Imagem: Reprodução
 

 

 

  Tanto naquilo que se refere à criatividade literária, riqueza sonora ou mesmo na dimensão sociológica, é consensual, na área do estudo da música popular, que a produção brasileira pode ser considerada, no mínimo, como uma das mais importantes do mundo. É uma constatação interessante e capaz de referir um outro Brasil, um Brasil de coisas boas, não só de pobrezas. E a razão deste consenso pode ser explicada. Afinal, por vários ângulos, as condições da produção musical, aqui, são favoráveis, e bastante. Contando essa história em sua cronologia, é possível, de saída, apontar o fator da riqueza cultural do país: um espaço formado pela presença de etnias africanas, indígenas e européias até o século 19. Neste mesmo século, ainda, ocorre a chegada de gente de toda a Europa a partir da revolução industrial e sua contraparte pela via da imigração. São italianos e alemães, sim, mas também poloneses, japoneses, suecos, eslavos, e, vá lá, é gente de toda parte do mundo mesmo, cada qual com uma mala e uma história, um sonho, uma língua e, em suma, a magia de toda uma cultura. Não é pouco. A imigração estende-se até o século 20, abarca todo o território e é fato cotidiano do país ao longo de mais de um século. Somam-se a esta conta outros fatores: a extensão territorial do país e a localização de nichos culturais específicos, a formação das grandes cidades, os sucessivos saltos de industrialização a partir da década de 1940 e a conseqüente incorporação de novas tecnologias - fato este que veio também a serviço da difusão artística.

  Mas isso tudo é uma coisa. Outra coisa é que tive a feliz oportunidade de escutar o Jean-Jacques Goldman. Certo, o cara não é muito conhecido por aqui. É da França, país distante - ao menos é o que afirma a nossa vã geografia. França: confesso que também pensei na boa e eterna Edith Piaff. Só que o Goldman é música contemporânea pelos poros, é música do mundo: guitarras interessantíssimas, sonoridade abrangente, voz belíssima - que o diga "Les Choses", do álbum "Chansons pour les pieds". E vamos e viemos: música brasileira é boa sim, mas é plausível que exista coisa boa noutros lugares. E mais: se a música brasileira é boa, o é justamente pela razão de incorporar, de ir lá e conferir o que é que outra formação sonora tem a propor, o que é que tem por aí neste mundo, ao mesmo tempo tão grande e tão pequeno, que serve à composição. (E ouve-se, é certo, de tudo o que há em inglês: toca no rádio, eu gosto, tu gostas, ele gosta. Mas onde é que a gente topa com um cara como o Goldman, pergunto. Onde é que entram no nosso itinerário de ouvintes folcloristas como Atahualpa Yupanqui, Violeta Parra ou Alfredo Zitarrosa; ou mesmo um artista do pop que está ali, no nosso nariz, com uma carreira consolidada, como o Fito Paez - eis algumas perguntas, em breve esboço. Quem conta as biografias desse pessoal todo, suas ficções, sua cosmovisão - importa ou não importa, faz falta ou não faz, é mais próximo ou menos próximo que a música do Dylan ou do Chico Buarque? Enfim.

  Parece, aqui, que há um nó de importância à análise. A força da indústria cultural, do contrato entre rádios e gravadoras e das tiragens estratosféricas assumem a proporção de apagar um pouco esse interesse e de dizer, como num comando hipnótico: "ó, o disco do momento é mais interessante que o Goldman: quando eu contar um-dois-três isso será verdade - um..., dois..., três!", e era isso, todo mundo já sabe qual é a nova música que embalará os costumes. E, é óbvio, isso tudo não é, em si mesmo, nem bom, nem ruim. É apenas um paradoxo sintomático que, mais ou menos, envolve a todo mundo que ouve música - e todo mundo ouve música - e refere uma música "forma de conhecimento" e outra música "entretenimento". (Quem sabe um convívio mais ameno entre essas duas músicas fosse legal, fosse interessante; quem sabe esta balança ainda se ajusta um dia.)

  Paradoxo. A rigor, como nos paradoxos em geral, este também é, a um só turno, de fácil e de difícil compreensão. Por um lado há a explicação dos interesses financeiros entre gravadoras, difusão, público e artistas. Por outro, daí sim o lado difícil de entender, fica a pergunta: como é que pode ocorrer que, num mundo globalizado, especialmente uma cultura como a brasileira - com essa vocação tão incorporante de outras culturas -, encerre-se sobre si mesma e os interesses, sejam eles de quais ordens forem, movimentem-se de forma convergente a um centro? Enfim: como é que funciona essa pose www que satisfaz a curiosidade na loja trivial de discos? Ou não há curiosidade, hipótese improvável. E como é que funciona a pose moderna das grandes companhias e seus mercados mundiais, mas que preferem a verticalização de seus catálogos, com discos específicos para formatos culturais específicos, sob a prerrogativa de uma formação cultural endógena - toda essa estratégia só pra vender milhões de discos. Faz sentido? Parece que sim e parece que não. Alguém ganha, é certo. Mas perde-se, por outro lado, a possibilidade do acesso ao Goldman. Perde-se a possibilidade de uma cultura toda olhar para outra e ver lá o simplesmente humano. Perdem-se biografias, ficções, harmonias, desarmonias. E, mesmo assim, daria pra entrever alguma espécie de movimento reativo nisso tudo: obviamente, o ouvinte estará atento e não deixará de fazer escolhas - ele está aí, sim, vai querer algo que responda a sua curiosidade, vai selecionar a sua canção na língua em que quiser, e não tão-somente agindo sob comandos hipnóticos. Nem que isso ocorra pela via da pirataria, nem que seja burlando as estruturas em resposta ao cerceamento da indústria.

  A propósito - a França, a Argentina ou o Uruguai são mais próximos ou mais distantes que os Estados Unidos?


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