Soledad
 


                                                     
 Por Lélia Sampaio
                                           
Imagem: Reprodução/www
                                                                                        

 

 

 


  Soledad, este era o seu nome. Seus pais não eram espanhóis, tampouco descendentes. Sua mãe uma Maria Ninguém, seu pai um estivador, que, nas noites de folga, vagava pelos cais de onde quer que estivesse. E em uma noite qualquer, tão trivial quanto a sua própria existência, enquanto vagava pelos braços das putas, ouviu em um tango desafinado a palavra Soledad. Lembrou-se por um instante da mulher que estava em casa com a barriga cheia de uma menina, e ali, entre garrafas de cerveja vazias e bitucas de cigarro, decidiu que este seria o nome de sua filha. Mal sabia ele que o seu significado seria a única herança que deixaria para a primeira da sua prole.

  Soledad cresceu com o estigma daqueles que só se revelam para si mesmos e em noite de puro breu, nem ela mesma se encontrava. Pobre menina que nunca se encaixara em nenhum conceito, ela não significava nada nem para ela mesma. Talvez as flores de seus vestidos de chita fossem mais expressivas, seu olhar morto e pesado não sobressaia das pálpebras magras. Não era bela, nem feia. Era do tipo que ao passar por milhares de pessoas, poderia atravessar todas elas, que, indiferentes de sua presença, seguiam suas vidas.

  Soledad cresceu sem atrativos físicos, se chamou a atenção de algum homem, ele não ousou demonstrar isto para ela. Densa como as trovoadas em alto mar, ela foi se suportando dia após dia, houve até um tempo em que viver era um fardo difícil de carregar, nem o conformismo se apiedara de sua pessoa.

  Soledad, um dia, preparou o jantar para seus irmãos que iriam chegar de viagens longas, como as de seu pai, falou com a mãe que iria comprar pão. Saiu de casa, na mão direita apenas o dinheiro e as chaves de casa. Ao atravessar a rua, naquele início da noite de uma sexta-feira, um carro dirigido por um bêbado encontrou seu corpo.

  Soledad caiu no chão, e a poça de sangue que nascera em seu ouvido contrastou com a sua pele clara. Em volta daquele cadáver caído no chão, de bruços, se amontoavam pessoas ávidas por cheiro de morte. Quando viraram o corpo que nunca tivera vida, reconheceram a menina que carregou o estigma da solidão. E por ironia, foi depois de morta que seus olhos tiveram expressão de vida.

  Faltaram os sustos na vida de Soledad...


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