Soledad, este era o seu
nome. Seus pais não eram espanhóis, tampouco descendentes. Sua mãe
uma Maria Ninguém, seu pai um estivador, que, nas noites de folga,
vagava pelos cais de onde quer que estivesse. E em uma noite
qualquer, tão trivial quanto a sua própria existência, enquanto
vagava pelos braços das putas, ouviu em um tango desafinado a
palavra Soledad. Lembrou-se por um instante da mulher que estava
em casa com a barriga cheia de uma menina, e ali, entre garrafas
de cerveja vazias e bitucas de cigarro, decidiu que este seria o
nome de sua filha. Mal sabia ele que o seu significado seria a
única herança que deixaria para a primeira da sua prole.
Soledad cresceu com o estigma daqueles que só se revelam para si mesmos e
em noite de puro breu, nem ela mesma se encontrava. Pobre menina
que nunca se encaixara em nenhum conceito, ela não significava
nada nem para ela mesma. Talvez as flores de seus vestidos de
chita fossem mais expressivas, seu olhar morto e pesado não
sobressaia das pálpebras magras. Não era bela, nem feia. Era do
tipo que ao passar por milhares de pessoas, poderia atravessar
todas elas, que, indiferentes de sua presença, seguiam suas vidas.
Soledad cresceu sem atrativos físicos, se chamou a atenção de algum
homem, ele não ousou demonstrar isto para ela. Densa como as
trovoadas em alto mar, ela foi se suportando dia após dia, houve
até um tempo em que viver era um fardo difícil de carregar, nem o
conformismo se apiedara de sua pessoa.
Soledad, um dia, preparou o jantar para seus irmãos que iriam chegar de
viagens longas, como as de seu pai, falou com a mãe que iria
comprar pão. Saiu de casa, na mão direita apenas o dinheiro e as
chaves de casa. Ao atravessar a rua, naquele início da noite de
uma sexta-feira, um carro dirigido por um bêbado encontrou seu
corpo.
Soledad caiu no chão, e a poça de sangue que nascera em seu ouvido
contrastou com a sua pele clara. Em volta daquele cadáver caído no
chão, de bruços, se amontoavam pessoas ávidas por cheiro de morte.
Quando viraram o corpo que nunca tivera vida, reconheceram a
menina que carregou o estigma da solidão. E por ironia, foi depois
de morta que seus olhos tiveram expressão de vida.
Faltaram os sustos na vida de Soledad...
[
Página Inicial
]