O paradoxo estético das ruas:
 tornando nu e gritante as condições sociais
 da cidade capitalista


 


                                                               
 Por Dani-el Macedusss
                                                                                       
 Imagem: Reprodução

 

 

 

“O pior que um príncipe pode esperar de um povo

que lhe é contrário é ser abandonado por ele.”
                                 

                                      (Nicolau Maquiavel)

 

 

 


 

  É fato dado o qual vivemos em uma sociedade dividida em classes, arrogantemente antagônicas e inimigas por natureza. Esta sociedade reuniu-se em formações populacionais denominadas urbes, as nossas cidades. Quase que a metade da população terrena concentra-se em aglomerações urbanas. As estimativas são para que nos próximos anos a população citadina ultrapasse a rural. Somos cada vez mais seres urbanóides. A cidade, a Polis produtora de neuroses e fragmentada da pós-modernidade, não poderia apresentar-se de outra forma a não ser também dividida geograficamente entre as classes que compõem esta cidade, ou seja, a burguesia e o proletariado. O que se pretende aqui é buscar uma compreensão marxiana da divisão do espaço territorial da Polis.

  A cidade contemporânea apresenta-se envolta em pretensos projetos modernos de urbanismo, entendendo o Urbanismo no sentido situacionista do conceito, ou seja, ocupando o papel de Publicidade & Propaganda de um sistema dividido em classes. Aqui apresentado como o projeto publicitário da cidade capitalística, este projeto urbanista burguês tenta separar a cidade em pequenos espaços, cada qual ocupado por sua classe correspondentemente específica. Os bairros possuem em si todo um simbolismo e uma realidade fatídica, mora-se onde o poder aquisitivo permite e não onde se quer ou se escolha. Determinismo econômico no quesito habitação. Há um outro fator de interferência na vida diária do indivíduo, que a sua posição geográfica impõe, o qual refere-se ao valor moral-burguês de encarar o local que o sujeito habita como parte integrante do seu caráter.

  Existem duas cidades dentro de cada cidade. Uma para a burguesia, para os gerentes da crise do capital, uma parte da cidade, os bairros burgueses e megalomaníacos, habitados pelos próprios acionistas e pilhadores da cidade. Já a outra cidade tem como cartão-postal as favelas e os bolsões de miséria. São bairros sem esgoto tratado, sem água encanada, sem luz elétrica, ruas sem asfalto ou calçamento. Esta outra metade, não aqui entendida como divisão matemática igual em espaço territorial, mas como metade de classe pertencente aos trabalhadores em geral, sejam os operários fabris, sejam os trabalhadores informais como os camelôs, catadores de lixo e o lupem-proletariado em geral.

  É plenamente constatável que vivemos em um apartheid geográfico. Talvez numa vontade torpe da burguesia em esconder a sujeira debaixo do tapete, colocar os pobres onde não podemos os ver muito bem, os mesmos que freqüentam durante o dia as casas da burguesia na função de empregadas domésticas, jardineiros, pintores, pedreiros e etc, no fim do expediente é preciso que eles ocupem um lugar próprio e distante.

  Notamos dois projetos de urbanismo compondo o fracassado desenho de cidade capitalista, um urbanismo moderno e estiloso, presente nos bairros burgueses, nas ditas regiões nobres da cidade, e em muitos poucos casos respingando para a região central. Apenas em cidades onde o espaço central (ainda) possui um valor financeiro elevado este projeto é levado a cabo pelas administrações municipais títeres do apartheid geográfico. São locais onde junto a uma ordenação dita científica do espaço urbano se dão projetos paisagísticos, numa tentativa de formatação artística clean desses bairros.

  A dita Arquitetura & Urbanismo que reivindica o estatuto de ciência e de arte ao mesmo tempo. Uma arte modernista, positivista (por se querer uma ciência exata), excludente e quadrada. O segundo projeto urbanístico presente na cidade, surge - melhor, urge - como espontaneísta mesmo, apresenta-se na verdade como um anti-projeto no sentido racionalista e de engodo da ciência burguesa, são ruas abertas a esmo, terrenos ocupados sem preocupação de delimitações, planos toscos de escoamento do esgoto e etc. Esta segunda formatação urbanística surge da necessidade do dia-a-dia desta fração pobre da cidade.

  Existem duas cidades. Antagônicas. É fato. Uma segunda não só esquecida, mas negada mesmo, encarada como latrina para a burguesia pretensamente europeizada.

  As ruas surgem como veias entre estes dois modelos de urbanização, canal de "diálogo", e é nestas veias que a contradição excludente de um plano diretor da cidade se torna claro. A olhos vistos, dia e noite, as duas cidades se encontram para um diálogo antagônico. Para ilustrar basta no entanto que nos recordemos de cenas diárias e corriqueiras nas ruas das diversas cidades espalhadas pelo mundo. O diálogo forçado e estéril se dá entre os carros importados que circulam lado a lado com carroças de catadores de papel. É a BMW cortando em alta velocidade a avenida que costeia a favela. O Fusca ao lado do Porsche, o pedestre sem dinheiro para a passagem de ônibus ao lado dos veículos populares da classe média.

  Este planejamento urbano, com viés de modernista e democratizador do processo, nada mais é do que forma de controle. Parafraseando Marx: o urbanismo dominante nada mais é do que o urbanismo (imposto pela e para a) da classe dominante. Ideação que quer status de ciência em forma de projeto burocrático, cumpre o papel de delimitador geográfico de classes. Como o próprio antagonismo existente entre as classes é a contradição mais latente - no sentido de visibilidade - na sociedade capitalista, as ruas desempenham esta função na cidade moderna. E é nesse papel de tentar intercambiar a mão-de-obra barata de uma classe com a necessidade da compra (ou aluguel) desta mão-de-obra por outra classe (que precisa desta mão-de-obra para dar continuidade ao seu joguete de acumulação de renda), que este diálogo forçado se dá na cidade. A movimentação se dá no sentido da produção material. A cidade (moderna) tem como principal função sua a logística de mercadoria, bens de consumo, de uso, recursos humanos (ver projeto de transporte coletivo público, quem o utiliza e com qual finalidade?). Visualiza-se a necessidade de pôr abaixo todo esse referencial conceitual e teórico que se tem sobre a cidade e o processo de planificação (delimitação e controle) citadino.

 

 

 


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