É fato
dado o qual vivemos em uma sociedade dividida em classes, arrogantemente
antagônicas e inimigas por natureza. Esta sociedade reuniu-se em formações
populacionais denominadas urbes, as nossas cidades. Quase que a metade da
população terrena concentra-se em aglomerações urbanas. As estimativas são
para que nos próximos anos a população citadina ultrapasse a rural. Somos
cada vez mais seres urbanóides. A cidade, a Polis produtora de neuroses e
fragmentada da pós-modernidade, não poderia apresentar-se de outra forma a
não ser também dividida geograficamente entre as classes que compõem esta
cidade, ou seja, a burguesia e o proletariado. O que se pretende aqui é
buscar uma compreensão marxiana da divisão do espaço territorial da Polis.
A cidade contemporânea apresenta-se envolta em pretensos projetos modernos
de urbanismo, entendendo o Urbanismo no sentido situacionista do conceito, ou seja, ocupando o papel de Publicidade & Propaganda de um sistema dividido
em classes. Aqui apresentado como o projeto publicitário da cidade capitalística, este projeto urbanista burguês tenta separar a cidade em
pequenos espaços, cada qual ocupado por sua classe correspondentemente
específica. Os bairros possuem em si todo um simbolismo e uma realidade
fatídica, mora-se onde o poder aquisitivo permite e não onde se quer ou se
escolha. Determinismo econômico no quesito habitação. Há um outro fator de
interferência na vida diária do indivíduo, que a sua posição geográfica
impõe, o qual refere-se ao valor moral-burguês de encarar o local que o
sujeito habita como parte integrante do seu caráter.
Existem duas cidades dentro de cada cidade. Uma para a burguesia, para os
gerentes da crise do capital, uma parte da cidade, os bairros burgueses e
megalomaníacos, habitados pelos próprios acionistas e pilhadores da cidade.
Já a outra cidade tem como cartão-postal as favelas e os bolsões de miséria.
São bairros sem esgoto tratado, sem água encanada, sem luz elétrica, ruas
sem asfalto ou calçamento. Esta outra metade, não aqui entendida como
divisão matemática igual em espaço territorial, mas como metade de classe
pertencente aos trabalhadores em geral, sejam os operários fabris, sejam os
trabalhadores informais como os camelôs, catadores de lixo e o lupem-proletariado em geral.
É plenamente constatável que vivemos em um apartheid geográfico. Talvez numa
vontade torpe da burguesia em esconder a sujeira debaixo do tapete, colocar
os pobres onde não podemos os ver muito bem, os mesmos que freqüentam
durante o dia as casas da burguesia na função de empregadas domésticas,
jardineiros, pintores, pedreiros e etc, no fim do expediente é preciso que
eles ocupem um lugar próprio e distante.
Notamos dois projetos de urbanismo compondo o fracassado desenho de cidade
capitalista, um urbanismo moderno e estiloso, presente nos bairros
burgueses, nas ditas regiões nobres da cidade, e em muitos poucos casos
respingando para a região central. Apenas em cidades onde o espaço central
(ainda) possui um valor financeiro elevado este projeto é levado a cabo
pelas administrações municipais títeres do apartheid geográfico. São locais
onde junto a uma ordenação dita científica do espaço urbano se dão projetos
paisagísticos, numa tentativa de formatação artística clean desses bairros.
A dita Arquitetura & Urbanismo que reivindica o estatuto de ciência e de
arte ao mesmo tempo. Uma arte modernista, positivista (por se querer uma
ciência exata), excludente e quadrada. O segundo projeto urbanístico
presente na cidade, surge - melhor, urge - como espontaneísta mesmo,
apresenta-se na verdade como um anti-projeto no sentido racionalista e de
engodo da ciência burguesa, são ruas abertas a esmo, terrenos ocupados sem
preocupação de delimitações, planos toscos de escoamento do esgoto e etc.
Esta segunda formatação urbanística surge da necessidade do dia-a-dia desta
fração pobre da cidade.
Existem duas cidades. Antagônicas. É fato. Uma segunda não só esquecida, mas
negada mesmo, encarada como latrina para a burguesia pretensamente
europeizada.
As ruas surgem como veias entre estes dois modelos de urbanização, canal de
"diálogo", e é nestas veias que a contradição excludente de um plano diretor
da cidade se torna claro. A olhos vistos, dia e noite, as duas cidades se
encontram para um diálogo antagônico. Para ilustrar basta no entanto que nos
recordemos de cenas diárias e corriqueiras nas ruas das diversas cidades
espalhadas pelo mundo. O diálogo forçado e estéril se dá entre os carros
importados que circulam lado a lado com carroças de catadores de papel. É a
BMW cortando em alta velocidade a avenida que costeia a favela. O Fusca ao
lado do Porsche, o pedestre sem dinheiro para a passagem de ônibus ao lado
dos veículos populares da classe média.
Este planejamento urbano, com viés de modernista e democratizador do
processo, nada mais é do que forma de controle. Parafraseando Marx: o
urbanismo dominante nada mais é do que o urbanismo (imposto pela e para a)
da classe dominante. Ideação que quer status de ciência em forma de projeto
burocrático, cumpre o papel de delimitador geográfico de classes. Como o
próprio antagonismo existente entre as classes é a contradição mais latente
- no sentido de visibilidade - na sociedade capitalista, as ruas desempenham
esta função na cidade moderna. E é nesse papel de tentar intercambiar a
mão-de-obra barata de uma classe com a necessidade da compra (ou aluguel)
desta mão-de-obra por outra classe (que precisa desta mão-de-obra para dar
continuidade ao seu joguete de acumulação de renda), que este diálogo
forçado se dá na cidade. A movimentação se dá no sentido da produção
material. A cidade (moderna) tem como principal função sua a logística de
mercadoria, bens de consumo, de uso, recursos humanos (ver projeto de
transporte coletivo público, quem o utiliza e com qual finalidade?).
Visualiza-se a necessidade de pôr abaixo todo esse referencial conceitual e
teórico que se tem sobre a cidade e o processo de planificação (delimitação
e controle) citadino.
[
Página Inicial
]