
"O Homem é um
idiota consumado. De vez em quando, mas apenas de vez em quando, o
que quer dizer em grandes intervalos, surge um idiota divino. Infelizmente, as palavras de sabedoria que emanam de seu lábios
causam mais mal do que bem."
Henry Miller ("Deslizando para os Everglades")
Em 4 de abril de 1994, Kurt Donald Cobain desferia um tiro na
própria cabeça, na garagem de sua casa em Seattle. Era o fim de
uma das bandas mais importantes das últimas décadas, o Nirvana.
Apesar de sua carreira ter sido curta e meteórica, Cobain
conseguiu deixar seu nome no panteão daquilo que realmente importa
no Rock. Passados dez anos de sua morte, fica a certeza de que
aquele tiro não atingiu apenas ele. Além dos 68 jovens que, à
época, resolveram imbecilmente imitá-lo, o Rock também parece ter
sido fatalmente atingido. Principalmente o Rock que chega ao
grande público via grandes corporações musicais e rádios
comerciais, rádios que se tornam, cada vez mais e mais, comerciais
e sem o verdadeiro "espírito jovem" que assolou o mundo no início
dos anos 90. São os estilhaços daquele tiro que nos atingem até
hoje.
Deixando de lado a questão (pessoal e muito complexa) se deveria
ou não ter puxado o gatilho, vamos tentar nos ater na importância
que a figura carismática e problemática de Cobain teve na história
da música e nas produções rockeiras pós-Grunge. Kurt Cobain era,
acima de tudo, um artista. Dono de uma criatividade fascinante,
era pela música que exprimia o que lhe atormentava e o que lhe
fazia bem. Pela música ele exorcizava seus demônios, expressava
toda a sua dor. Uma forma sublime de libertação, diriam alguns. Por isso, foi mais mártir do que herói de uma geração. Ele morreu
não só pela pressão da fama (e de toda a merda que essa pressão
atrai), mas também por causa de seu próprio caos interior e as
drogas, que tanto podem ter sido usadas para aliviar dores físicas
e emocionais como também ter sido mais uma conseqüência funesta
da fama, aquela amante puta incerta, e dinheiro.
Kurt Cobain foi o último poeta romântico da história. No fundo, a
filosofia dos poetas ultra-românticos do fim do século XIX -
aquela que diz que se deve viver a vida com a máxima intensidade
sem se importar com as conseqüências - é a mesma que está embutida
no slogan "Sexo, drogas e Rock 'n' Roll". A mesma que movia Cobain e
sua eterna depressão. Ele era mais um desses existencialistas que
têm uma intensa fome de viver ao mesmo tempo que sentem que tudo é
um absurdo, sem sentido. Tão absurdo e tão sem sentido que chega a
causar úlcera e desilusão. Ao viver dotado de uma ânsia para se
afirmar como pessoa e voltando cegamente à criação, deixou que o
caos e as drogas tomassem conta de seu destino. Ao mesmo tempo que
queria a fama, a rejeitava. Ao mesmo que queria atenção, cuspia em
câmeras. Era o anti-astro da música, contraditório como todos os
gênios, de Mozart a Kafka. Por um lado, a auto-destruição, por
outro, a luta desesperada pela salvação e aceitação incondicional.
Temos que admitir que, após a decepção com os pais, com o sistema,
sua dificuldade de relacionamento, a loucura criativa e o mergulho
nas drogas, Cobain não conseguiu ver outra saída para sua vida e
que nós, na mesma situação, também não conseguiríamos. A vida
cobra um preço de todos, e alguns não conseguem suportar. Mas a
influência dele pode ser notada nas paradas de sucesso, do pós-Grunge (The Calling, Creed, The Vines...) até o
New Metal,
passando por Radiohead, Queens of the Stone Age e System of a Down. O legado que Cobain deixou marcou aquela década e, com certeza,
influenciará as posteriores. Para o bem e para o mal.
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