The day after
 


                                                     
 Por Daniel Paes
                                                               
Imagem: Reprodução/www
                                                                                        

 

 

  Após a reeleição de W. Bush, resta pensar sobre as conseqüências possíveis para os Estados Unidos e para o mundo. São mais quatro anos de George W. Bush. Não adiantou grande parte da mídia impressa, como os jornais New York Times e Guardian, declarar repúdio ao governo; o documentário de Michael Moore "Fahrenheit 11/09" não teve o resultado esperado, e os bilhões de opositores da política externa de Bush pelo mundo tiveram que engolir sua reeleição.

  Mas para pensar este fato, é importante apontar que Bush foi mantido na Casa Branca por uma margem pequena de eleitores. A América do Norte saiu dividida de uma eleição típica da democracia estadunidense, onde a tendência se faz real. Na verdade, neste sistema de eleição as mudanças não ocorrem rapidamente. Como coloca o doutor em Sociologia pela Washington University, Gláucio Ary Dillon Soares: "O resultado não é uma foto do que quer a população. O ideal da representatividade perfeita vai sendo distorcido (...) por várias instituições políticas e eleitorais e pelos problemas da sociedade, extremamente desigual para uma sociedade industrial".

  Partindo de um cruzamento entre a eleição estadunidense e a última eleição brasileira, poderíamos afirmar que, se por aqui se fez imaginar que uma corrente de esperança impulsionou uma renovação imaginada, nos Estados Unidos da América aconteceu o contrário. O medo venceu e o presidente linha-dura foi reeleito, impulsionado por uma corrente que tomou grande parte dos eleitores do país. Sem dúvida, nesse rio, a aparição do inimigo número um da América do Norte - Osama Bin Laden - em uma gravação há quatro dias das eleições foi corrente a favor.

  Mas será que algo realmente mudou no Brasil após a eleição do candidato do maior partido político de esquerda do mundo? Se o candidato da oposição, John Kerry, nesta eleição da maior democracia e do país mais "estável" politicamente do mundo houvesse vencido, será que haveria tamanha mudança? Esta é uma questão a ser pensada. Tal comparação é interessante quando posta sobre os olhos dos que acreditavam em uma grande reviravolta no plano político após a eleição de John Kerry. Não havia certeza.

As faces da moeda

  Nos EUA, a eleição segue uma ordem praticamente binária, entre dois partidos, já que os demais não têm nenhuma representatividade no âmbito nacional. Os dois lados da moeda nesta eleição foram: os Democratas com John Kerry como candidato, e os Republicanos com Bush Jr. Os dois partidos são muito parecidos.

  O partido democrata é mais antigo, foi fundado em 1792 e elegeu, para o cargo de presidente, personalidades como Thomas Jefferson (fundador), Franklin Roosevelt, Harry Truman, John F. Kennedy e Jimmy Carter. Os democratas privilegiaram a causa dos imigrantes, aprovaram a primeira lei de assistência a crianças e trabalhadores, e criaram planos poderosos de economia como o New Deal (entre 1933-1939, que consistia em uma intervenção em massa do Estado na economia) e o Plano Marshall (gigantesco plano de investimento feito entre 1948 e 1951 pelos EUA na Europa destruída pela 2ª Guerra. Este plano foi um dos frutos da Doutrina Truman, cujos pressupostos formaram a base da supremacia dos EUA no pós-guerra). Em 1992, Bill Clinton foi eleito, trazendo um período de grande expansão econômica, redução de desemprego, redução de índices de criminalidade. Em 1996, tornou-se o primeiro presidente democrata a ser reeleito desde Roosevelt.

  O partido republicano é um pouco mais novo e foi fundado em 1850 por ativistas contrários à escravidão. Dez anos depois, Abraham Lincoln foi eleito para a Casa Branca. Ele aprovou a Proclamação da Emancipação que libertou os escravos, a proteção igualitária por lei e a Décima Quinta Emenda, que contribuiu para garantir o direito de voto dos afro-americanos. Alguns dos grandes presidentes do país foram republicanos: Eisenhower, Nixon - que manchou a história do partido com o escândalo de espionagem política contra os democratas, conhecido como Watergate. Além de ter sido provado que levantou dinheiro de forma ilegal para sua campanha. Após isso, teve de renunciar. Mas houve também nomes como Ford, Reagan e Bush (o pai).

Quem venceu?

  Entre Kerry e Bush, durante a disputa eleitoral, havia pontos de divergência ideológica. George W. Bush é contra o aborto, restringiu as liberdades civis com o Patriot Act (em prol de uma dita segurança contra ataques e por mais poderes para identificar e prender suspeitos) e é a favor da pena de morte. Em todos estes pontos Kerry se opôs.

  O republicano mostrou intenção de construir um oleoduto no Alaska, afirmou a permanência de tropas americanas nas áreas interessantes petroliferamente e rejeitou o Protocolo de Kyoto, enquanto o candidato democrata estabeleceu uma meta de independência do petróleo do Oriente Médio em dez anos e afirmou repensar o protocolo por uma outra forma mais viável e menos agressiva que a atual para com o meio-ambiente mundial.

  Bush é sabidamente defensor de mecanismos que livrem fabricantes de armamentos de ações judiciais, geradas pelo mau uso de armas (como o episódio da escola em Columbine), e Kerry, apesar de defender o porte de arma, afirmava querer leis mais severas para seu uso e mecanismos de segurança para evitar acidentes com menores de idade. Afirmação que vai de encontro a uma das maiores indústrias estadunidenses: a bélica.

The day after

  Claro que não é com cândida intenção que o candidato democrata prometeu tais feitos tão divergentes à direção atualmente adotada pelo republicano. É sabido também que seria muito difícil, se eleito, que ele viesse a realmente praticar isso. O sociólogo e professor da USP e da Uerj, Emir Sader, colocou antes do resultado final das eleições um diferenciamento interessante entre as intenções dos então candidatos: "Kerry não é de esquerda, mas promete retroceder na política de Bush de diminuir os impostos, a fim de ter mais recursos para o social. Bush, como todo político de direita, tenta ganhar simpatias da classe média reduzindo impostos". Já que muitos interesses político-sociais e econômicos estariam em jogo, na verdade, John Kerry pouco mudaria no curso da maior potência armamentista-cultural e econômica do mundo. Mas o importante é que algo mudaria.

  E mais ainda: os Estados Unidos não seguiriam nesta doutrina a passos firmes como os do reforçado presidente George W. Bush, que aplicou uma "pisada de coturno" ao designar oficialmente a conselheira de Segurança Nacional da Casa Branca, Condoleezza Rice (considerada linha dura e ufanista radical), para substituir o secretário de Estado Colin Powell (tido como moderado). Agora, mais do que nunca, se fazem muito fortes as palavras do professor Sader: "Um triunfo de Bush representa, certamente, avançar na direção de consolidar as ocupações militares e de aumentar a repressão à resistência dos que lutam contra ela. A vitória de Bush representa o referendo à política agressiva que caracteriza o seu governo".

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