|
|
Lâmpadas velhas por novas!
Por
Andréa C. Migliacci
Imagem:
Reprodução
A respiração ofegante, a transpiração que umedece a
roupa e a face serena. O carrinho range pela rua e ela chama com sua voz velha e
cansada: "Jornal velho! Quem quer jornal velho?" Algumas cabeças saem à janela.
Não estão acostumadas a que lhes ofereçam jornal velho e sim que o peçam. A
velha senhora olha e sorri para os rostos surpresos e continua oferecendo "Quer
jornal velho?" As pessoas acenam nãos e sorriem de volta sem nem perceber. E ela
continua em seu caminho. A respiração chiando, o carrinho rangendo e a voz velha
anunciando.
O carrinho é pintado de verde-alface, com flores coloridas em toda volta, era
menor do que os que vemos com os catadores de jornal, talvez para combinar com a
força, ou falta dela, da velha senhora. Os jornais estavam bem arrumados, cada
fardo bem embrulhado e amarrado com barbante que terminava num laço bem feito.
Ela vestia um vestido de feitio antigo, azul claro de flores rosas e amarelas
com um babado na frente de renda creme. Por cima do vestido um avental azul mais
escuro, que protegia sua delicada vestimenta. Seu cabelo era um halo branco e
encaracolado que parecia flutuar com o ar fresco da manhã. O rosto de rugas
profundas era rosado, límpido, puro. Combinava com a voz tranquila e cristalina
que era carregada longe como por mágica. "Jornais velhos! Quem quer jornais
velhos?"
Ela não sabia dizer a quantos anos não conseguia colocar um jornal em uma boa
casa. As pessoas pareciam não aceitar nada que não fosse o comum, ordinário e
esperado. Uma moça saiu de uma casa apressada. Bolsa, pasta e lutava com um
telefone celular que gritava para ser atendido. Ela parou no portão e, largando
tudo em cima de seu carro, atendeu o diabólico aparelho. Enquanto dava
explicações e orientações, seus olhos cruzaram com os da velha senhora que,
parada no meio da rua com seu carrinho verde, a olhava com um sorriso. Ela
sentiu como se seu peito se esvaziasse da pressa, preocupação e irritação das
manhãs de trabalho e com uma desculpa, desligou o celular. A senhora se aproximou
devagar e agora podemos ver que manca um pouco da perna direita.
"A senhorita gostaria de jornais velhos?". A moça a olhou sem entender e procurou
com os olhos o carrinho ali, descobrindo os bem feitos embrulhos. "Eu não
preciso, obrigada, talvez minha vizinha, que tem cães, possa comprar um pouco". A
velha senhora sorriu. "Não, minha filha, eu não os vendo, eu os dou para quem
merece. Você me parece precisar de jornais. Posso lhe deixar um pouco?". A moça,
que perdera os sentimentos ruins com a simples visão daquela mulher, não pôde
pensar em outra resposta: "claro, eu adoraria um pouco de seus jornais". O
sorriso de resposta lhe fez sentir algo que a muito não sentia, uma felicidade
simples por agradar alguém.
A velha senhora foi até seu carrinho e lá remexeu em seus pacotes até achar um
fardo apropriado. "Aqui está, escolhi com cuidado para você. Use bem. Quando
precisar de mais eu passarei por aqui". E lá se foi ela com seu carrinho verde
que rangia pelo caminho. A moça ficou olhando os jornais por muito tempo e tarde
demais pensou em dar um dinheiro em retribuição. Correu para a esquina por onde
a velhota desaparecera, mas nada encontrou, nem velhota, nem carrinho e nem pôde
ouvir seu rangido.
Ela voltou para casa esquecida de tudo e se sentou no chão de tábuas de
sua sala para abrir o embrulho. As páginas dos jornais estavam todas em branco.
Ela arregalou os olhos e pensou que a velhinha era bem maluca. Levantou-se
perguntando que caminho faria para escapar do trânsito, e com o canto dos olhos
viu algo. Se virou e no jornal em branco um mapa se desenhara. Um mapa que a
levava até seu escritório. Encantada, ela começou a pensar em seu dia e em como
resolver os mil problemas que estavam em seu caminho. A cada pensamento, mais e
mais se enchiam as páginas com respostas. E então ela pensou que a Mega Sena
estava acumulada e seria ótimo se... Os números começaram a se desenhar na
folha e ela os tampou com a mão. Não, um presente desses não era leviano, e não
deveria ser usado assim. Os números se apagaram e ela saiu de casa com seu mapa
e uma esperança que não existia quando acordou.
Longe, muito longe dali, sentada em uma cadeira de balanço, a velha senhora
sorriu feliz. Depois de muitos anos ela conseguira achar alguém digno de seus
jornais.
|
.::.
.: Anteriores :.
*
O Colosso
*
A Carta e o Cão
*
A Revolução
*
O Espelho
*
Da Janela do Meu
Quarto
|