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desde 13/07/2003


 Debutante


 Por
Júlia Machado

 Imagem: Reprodução



  Momento esperado. Ansiedade. Sem medo. Medo, só de não dar certo. Não pode falhar. Não posso. Posso. Sinto. Euforia. Enfim, estou cumprindo minha missão. Essa é minha hora. Sou a estrela que brilha. Apago e acendo. Ascendo. Pronto. Tudo pronto. Coração é bomba-relógio. Oração. Deus está ao meu lado. Amém. Aperto no peito. Não vacila. Bombeia sangue. Jorra. Sinto o som explodindo na veia. Agora, apenas fragmentos do que era. Já tenho quinze anos, mamãe!

  Mamãe é mulher linda. Tem a tez morena e macia, a fala doce e suave, o olhar terno e firme. Seu perfume, posso reconhecer de longe assim como o aroma dos quitutes que prepara à tardinha... Deliciosos! É possível senti-los ainda na boca, aquele gostinho que lembra bem minha infância. Lembro-me do seu cantarolar pela manhã, logo cedo, quando me acorda para ir à escola. Ela acha que devo estudar, pois, somente assim serei alguém melhor. Eu acho que a escola não ensina nada da vida. Acho mesmo é que ela nunca freqüentou a escola, não iria nos querer esse mal caso o conhecesse. Na verdade, mamãe vive para a casa e para os filhos. Acho que devia se cuidar mais.

  Por outro lado, entendo como seria ruim para as outras mulheres vê-la tão bela e, para os outros homens, não cobiçá- la. Sonha com o nosso futuro e percebo em seus olhos que já não espera nada mais para si. Porém, tenta não demonstrar qualquer apatia, incentiva-nos a todo instante, cobrando nossa freqüência na escola e o cumprimento dos deveres de casa. Quase não nos deixa sair para a rua, pois tem medo da violência.

  A violência está tão presente em nossas vidas que aprendemos a conviver com ela. Não passa sob nossas cabeças a possibilidade de eliminá-la, pois parece estar totalmente sem controle. Estamos sujeitos à vontade dos mais fortes, aqueles que têm dinheiro e poder. Já perdi um amigo por isso. Ele tinha apenas quatorze anos, estudava na minha sala e gostava muito de conversar com ele - fora do horário da aula, é claro! Falávamos muito sobre nossos desejos e, numa dessas conversas, contou-me sobre um pintor espanhol que transformava seus sonhos em obra de arte. Agora não me lembro bem o nome...

  Ah, sim... Dalí, Salvador Dalí! Sabe, acho que ele sonhava em ser pintor. Penso até que poderia ser tão famoso quanto o espanhol, pois era muito esperto e desenhava muito bem. Certa vez lhe pedi que fizesse uma pintura para que colocasse no meu quarto, inspirando-me bons sonhos. Prometeu-me que ficaria pronta até o dia do meu aniversário e me daria de presente. Mas, não deu tempo. Um dia, indo à aula, recebo a notícia: “Morreu. Mataram-no”. Não podia acreditar. Éramos amigos, gostávamos de conversar, conhecia sua família e não podia ter acontecido isso com ele. Não podia ter acontecido isso comigo. Nesse dia lembrei da frase de papai.

  Papai é comerciante. Cuida dos negócios, enquanto a mamãe cuida do lar. Mas, também se preocupa com a gente. Sabe, papai é daqueles que tem uma bela frase sempre na ponta da língua e uma delas é: “Corajoso é aquele que sabe transformar raiva em justiça”. Essa, inclusive, é de sua autoria. Ele sabe muitas outras de cor, algumas aprende no jornal, outras, no dia-a-dia. Quando gosta, guarda. Não sei por que não costuma ler livros, talvez não tenha tempo. Eu queria poder ajudá-lo, trabalhando na loja. Assim como ele, penso que o importante é estar sabendo do que ocorre ao redor, do lado de fora dos muros. Afinal, já tenho idade e, hoje em dia, isso é normal. Mas, nem ele nem eu queremos contrariar o desejo de mamãe. Admiro sua força e decisão, e espero poder lhe dar algum orgulho nessa vida.

  A vida já está traçada.

  Seis da manhã. Rezo a Deus. Que seja feita a Vossa Vontade. Sempre rezo. Estou indo à escola. Estou indo, mamãe. Beijo-a no rosto. Ela me olha. Atenta. Parece saber. Escondo o olhar. Não pode. É segredo, mamãe! Nunca consegui guardar segredos. Mas, consigo. Omito. Mão no rosto. Um beijo.

  Sinto sua pele macia como seda. Às vezes, quando está sentada, passo a mão sobre sua cabeça, alisando seus cabelos. Em casa, estão sempre soltos. Apesar de achar que merecia mais, ela me ensinou a agradecer ao destino que me cabe. Na verdade, estou descobrindo que meus antigos heróis são impotentes e detesto os falsos ídolos. Estrelas do futebol ou astros do cinema são uma grande mentira fútil. Penso ser necessário mudar a ordem das coisas.

  O destino é coisa que não mais me preocupa. Não vale a pena pensar sobre ele. Acredito que cada um tem sua missão e, há pouco, descobri a minha, o meu papel, o meu ato. Mamãe vai sofrer, eu sei, não entenderá. Já posso sentir sua dor profunda, tristeza e depressão. Acho que, um dia, terá orgulho de mim. Poderei, enfim, dar-lhes o que lhes falta: Esperança. Terão uma casa, assim que for destruída, e serão cuidados. Mas, sua emoção estará lá dentro, acesa como uma chama em brasa. Sinto isso como um desafio, mas sei também que esta é minha missão, e não cabe contestá-la. Nem mesmo isso será capaz de me impedir.

  Caminho. Desvio. Encontro marcado. Na hora. Em ponto. Tudo certo. Fotos. Vestem-me. Instruções. Não tem erro. Certeza. Tenho. Mais nada. Quero conseguir. Sigo. Passos. Vou. Arrependimentos, dúvidas? Não. Lição assimilada.

  As ruas estão tomadas. O caos está instalado. As saídas bloqueadas. Prisão. Não temos direitos, não temos voz. Somos vigiados constantemente. Todos temem todos. Ninguém é ninguém. Nossas famílias se perdem no cotidiano. Fingem não ver, mas sentem. Pânico. Desespero. Sofrimento. Não há escolha. Constantemente ameaçados, acuados. Somos bichos em gaiolas. Um muro de conceitos nos divide. O medo que paralisa e aterroriza uns, move outros. Cresci, não sou mais criança. Meus olhos estão abertos. Meu peito, dentro bate a bomba. A raiva, enfim, transforma-se em coragem. Não posso mais viver isso. Vou trilhar o meu caminho e Deus é meu único guia. Ninguém irá mais me procurar. Ninguém pode mais me encontrar. Já não sou mais o que era. Sou meu próprio herói em busca da liberdade.

  Acelero. Eles estão vindo. São muitos. Correm em minha direção. Estão chegando... Agora!

 . . .

  Ataque suicida em Tel Aviv matou ao menos três e deixou outros trinta feridos. A explosão aconteceu às 11h15 perto do mercado central da cidade, e provocou um incêndio, controlado pelos bombeiros. O autor da ação também morreu. O grupo palestino extremista Frente Popular de Libertação Palestina (FPLP) assumiu a autoria. O governo de Israel prometeu uma retaliação.

 

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