Debutante
Por
Júlia Machado
Imagem:
Reprodução

Momento esperado. Ansiedade.
Sem medo. Medo, só de não dar certo. Não pode falhar. Não posso.
Posso. Sinto. Euforia. Enfim, estou cumprindo minha missão. Essa é
minha hora. Sou a estrela que brilha. Apago e acendo. Ascendo.
Pronto. Tudo pronto. Coração é bomba-relógio. Oração. Deus está ao
meu lado. Amém. Aperto no peito. Não vacila. Bombeia sangue. Jorra. Sinto o som explodindo na veia. Agora, apenas fragmentos do
que era. Já tenho quinze anos, mamãe!
Mamãe é mulher linda. Tem a tez morena e macia, a fala doce e suave, o
olhar terno e firme. Seu perfume, posso reconhecer de longe assim
como o aroma dos quitutes que prepara à tardinha... Deliciosos! É
possível senti-los ainda na boca, aquele gostinho que lembra bem
minha infância. Lembro-me do seu cantarolar pela manhã, logo cedo,
quando me acorda para ir à escola. Ela acha que devo estudar,
pois, somente assim serei alguém melhor. Eu acho que a escola não
ensina nada da vida. Acho mesmo é que ela nunca freqüentou a
escola, não iria nos querer esse mal caso o conhecesse. Na
verdade, mamãe vive para a casa e para os filhos. Acho que devia
se cuidar mais.
Por outro lado, entendo como seria ruim para as outras mulheres
vê-la tão bela e, para os outros homens, não cobiçá- la. Sonha com
o nosso futuro e percebo em seus olhos que já não espera nada mais
para si. Porém, tenta não demonstrar qualquer apatia,
incentiva-nos a todo instante, cobrando nossa freqüência na escola
e o cumprimento dos deveres de casa. Quase não nos deixa sair para
a rua, pois tem medo da violência.
A violência está tão presente em nossas vidas que aprendemos a
conviver com ela. Não passa sob nossas cabeças a possibilidade de
eliminá-la, pois parece estar totalmente sem controle. Estamos
sujeitos à vontade dos mais fortes, aqueles que têm dinheiro e
poder. Já perdi um amigo por isso. Ele tinha apenas quatorze anos,
estudava na minha sala e gostava muito de conversar com ele - fora
do horário da aula, é claro! Falávamos muito sobre nossos desejos
e, numa dessas conversas, contou-me sobre um pintor espanhol que
transformava seus sonhos em obra de arte. Agora não me lembro bem
o nome...
Ah, sim... Dalí, Salvador Dalí! Sabe, acho que ele sonhava em ser
pintor. Penso até que poderia ser tão famoso quanto o espanhol,
pois era muito esperto e desenhava muito bem. Certa vez lhe pedi
que fizesse uma pintura para que colocasse no meu quarto,
inspirando-me bons sonhos. Prometeu-me que ficaria pronta até o
dia do meu aniversário e me daria de presente. Mas, não deu tempo.
Um dia, indo à aula, recebo a notícia: “Morreu. Mataram-no”. Não
podia acreditar. Éramos amigos, gostávamos de conversar, conhecia
sua família e não podia ter acontecido isso com ele. Não podia
ter acontecido isso comigo. Nesse dia lembrei da frase de papai.
Papai é comerciante. Cuida dos negócios, enquanto a mamãe cuida do
lar. Mas, também se preocupa com a gente. Sabe, papai é daqueles
que tem uma bela frase sempre na ponta da língua e uma delas é:
“Corajoso é aquele que sabe transformar raiva em justiça”. Essa,
inclusive, é de sua autoria. Ele sabe muitas outras de cor,
algumas aprende no jornal, outras, no dia-a-dia. Quando gosta,
guarda. Não sei por que não costuma ler livros, talvez não tenha
tempo. Eu queria poder ajudá-lo, trabalhando na loja. Assim como
ele, penso que o importante é estar sabendo do que ocorre ao
redor, do lado de fora dos muros. Afinal, já tenho idade e, hoje
em dia, isso é normal. Mas, nem ele nem eu queremos contrariar o
desejo de mamãe. Admiro sua força e decisão, e espero poder lhe
dar algum orgulho nessa vida.
A vida já está traçada.
Seis da manhã. Rezo a Deus. Que seja feita a Vossa Vontade. Sempre
rezo. Estou indo à escola. Estou indo, mamãe. Beijo-a no rosto.
Ela me olha. Atenta. Parece saber. Escondo o olhar. Não pode. É
segredo, mamãe! Nunca consegui guardar segredos. Mas, consigo.
Omito. Mão no rosto. Um beijo.
Sinto sua pele macia como seda. Às vezes, quando está sentada,
passo a mão sobre sua cabeça, alisando seus cabelos. Em casa,
estão sempre soltos. Apesar de achar que merecia mais, ela me
ensinou a agradecer ao destino que me cabe. Na verdade, estou
descobrindo que meus antigos heróis são impotentes e detesto os
falsos ídolos. Estrelas do futebol ou astros do cinema são uma
grande mentira fútil. Penso ser necessário mudar a ordem das
coisas.
O destino é coisa que não mais me preocupa. Não vale a pena pensar
sobre ele. Acredito que cada um tem sua missão e, há pouco,
descobri a minha, o meu papel, o meu ato. Mamãe vai sofrer, eu
sei, não entenderá. Já posso sentir sua dor profunda, tristeza e
depressão. Acho que, um dia, terá orgulho de mim. Poderei, enfim,
dar-lhes o que lhes falta: Esperança. Terão uma casa, assim que
for destruída, e serão cuidados. Mas, sua emoção estará lá dentro,
acesa como uma chama em brasa. Sinto isso como um desafio, mas sei
também que esta é minha missão, e não cabe contestá-la. Nem mesmo
isso será capaz de me impedir.
Caminho. Desvio. Encontro marcado. Na hora. Em ponto. Tudo certo.
Fotos. Vestem-me. Instruções. Não tem erro. Certeza. Tenho. Mais
nada. Quero conseguir. Sigo. Passos. Vou. Arrependimentos,
dúvidas? Não. Lição assimilada.
As ruas estão tomadas. O caos está instalado. As saídas
bloqueadas. Prisão. Não temos direitos, não temos voz. Somos
vigiados constantemente. Todos temem todos. Ninguém é ninguém.
Nossas famílias se perdem no cotidiano. Fingem não ver, mas
sentem. Pânico. Desespero. Sofrimento. Não há escolha.
Constantemente ameaçados, acuados. Somos bichos em gaiolas. Um
muro de conceitos nos divide. O medo que paralisa e aterroriza
uns, move outros. Cresci, não sou mais criança. Meus olhos estão
abertos. Meu peito, dentro bate a bomba. A raiva, enfim,
transforma-se em coragem. Não posso mais viver isso. Vou trilhar o
meu caminho e Deus é meu único guia. Ninguém irá mais me procurar.
Ninguém pode mais me encontrar. Já não sou mais o que era. Sou meu
próprio herói em busca da liberdade.
Acelero. Eles estão vindo. São muitos. Correm em minha direção.
Estão chegando...
Agora!
. . .
Ataque suicida em Tel Aviv matou ao menos três e deixou outros
trinta feridos. A explosão aconteceu às 11h15 perto do mercado
central da cidade, e provocou um incêndio, controlado pelos
bombeiros. O autor da ação também morreu. O grupo palestino
extremista Frente Popular de Libertação Palestina (FPLP) assumiu a
autoria. O governo de Israel prometeu uma retaliação.
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