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Por
Zé Vinícius
O magistrado ao qual Dr. Neto substituiria não se fazia presente, de modo que se acomodou na poltrona e pediu a um subalterno que lhe mostrasse o andamento de alguns processos e a organização do setor em geral. Certo de que o funcionamento atual da Vara possuía a melhor configuração possível, resolveu consentir com o já estabelecido. Pegou um processo nas mãos e pôs-se a ler. De imediato foi alertado por um funcionário que nada ele poderia fazer naqueles autos por não ter sido - o processo - redistribuído ainda. “Burocratas” – pensou. Indagou se a redistribuição seria feita logo. O funcionário disse que estava à espera do pessoal da informática para cadastrá-lo. Cadastrado no sistema, entrou um funcionário, pediu para que o outro saísse e ficaram na sala o rapaz da informática, o funcionário e o Dr. Neto. O rapaz da informática digitou algumas coisas no computador até abrir uma tela. Pediu para que o Dr. Neto digitasse uma senha de sua escolha e a repetisse em uma linha abaixo. Não entendendo nada, o juiz obedeceu perguntando do que se tratava. O funcionário disse-lhe que essa seria a senha para entrar no Decisium 2.0. “Decisium 2.0” – pensou. Antes que perguntasse, o funcionário pediu para que o rapaz da informática deixasse a sala, puxou uma cadeira pra perto do magistrado e, em tom baixo e com cuidado, explicou o funcionamento do programa. Crente de que não havia entendido, Dr. Neto pediu para que o funcionário repetisse. De fato ouvira bem. Tratava-se de um programa onde bastava digitar o nome das partes, a classe do processo, a lide em questão e, com os antecedentes das partes (que estavam incrivelmente atualizados e interligados em uma rede mundial), levando-se em conta toda a vida pregressa conjuntamente com uma espécie de jurisprudência, era feita a sentença em poucos segundos. Perguntou, então, pra que serviriam os processos com depoimentos, testemunhos, provas e etc. Foi informado que se tratava de pura formalidade e para, se alguma das partes solicitasse, pudesse ver os autos – mas quanto instrumento probatório e de convencimento do juiz, de nada serviam. Com o barulho do freio do caminhão do lixo, Neto se acordou. Foi fazer sua higiene pessoal enquanto pensava, meio zonzo, no que havia sonhado. Ao voltar, sentou-se no sofá da sala, recapitulou o sonho, e deu uma risada. Enquanto passava Dr. Astolfo Filho, juiz de entrância final, Neto pensou alto: “e ele reclama da súmula vinculante”.
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