Consumo. Logo, existo.


                                                             
                                                                                 
Por Daniel Paes
                                                        Imagens: Daniel P. + Reprodução

                                                                        

  Parece que o consumismo está atingindo um ponto interessantíssimo para quem se situa à margem desta área movediça. Desta posição, uma análise fria pode ser tecida a respeito dos que andam colocando o carro na frente das vacas e fazendo tunning (adicionar acessórios) em carro de bois. O ato de trabalhar para consumir e de consumir para trabalhar já não pode ser mais visto com olhar ingênuo. Não se trata de imbecilidade ou compulsão simples. O ter tornou-se sinônimo de comunicação: eu comunico o que sou (ou imagino ser) através do que tenho.

     
       


  Comunicamo-nos pelos objetos que nos cercam. Alguém que tem um carro personalizado (tunning vem do inglês 'to tune', que significa afinar) com peças caríssimas quer acreditar que é um sujeito único e valorizado. E realmente o é, já que compartilha este conceito com os semelhantes que o admiram. Se o proprietário tem dezenas de livros, não importa quantos foram lidos. E mesmo dos lidos, não importa quantos foram incorporados. Quer parecer inteligente. E se expressa esta posse em brochuras a tira colo, está dizendo: Olhe para mim! Sou intelectual.

  Camisas que falam de honestidade e outras virtudes são rótulos para os sujeitos pasteurizados. Tudo berra hoje em dia. Os objetos nunca falaram tanto e o verbo, velhinho, passa o microfone para a verba, que poderia ser uma apresentadora loira da televisão. Muito variadas podem ser as articulações destes objetos. Visualize um jovem vestido com uma camisa onde está impresso o símbolo comunista. Ele toma uma Coca-Cola lendo uma revista de artes marciais enquanto espera na fila do cinema do circuito cult europeu. Ele é o que aparenta ser e faz questão de manter este canal aberto.

  Para pensar um pouco esta linguagem que tem como vetor os signos compráveis, proponho levantar como exemplo o depoimento de uma mulher que se considera viciada em comprar equipamentos para seu carro. Carro é um veículo de rodas para transporte de passageiros ou de carga; viatura; automóvel; carro de boi. Boi é um ruminante bovídeo empregado em serviços de lavoura (puxa o carro); na alimentação do homem; macho da vaca. Vacas falam: "Pensei em desmontar o carro várias vezes porque virei uma escrava dele, mas o desejo de deixá-lo cada vez mais equipado é maior. É mais um vício do que um hobby."

  A mulher trabalha como um bovídeo empregado em serviços de lavoura para ter dinheiro e assim equipar um carro que é seu canal de comunicação com a vida. Logo, a mulher trabalha para se comunicar. O carro é a voz deste ser humano: animal de carga comunicacional.

  Enfim, o conteúdo aqui exposto é uma forma arcaica de falar com vocês. Eu seria muito mais claro e objetivo se aparecesse por aí com uma camisa dizendo: “Você é o que você consome”. Ou desfilasse pela faculdade com o livro 'Consumidores e cidadãos', do antropólogo Néstor Canclini, debaixo do braço. Na cultura do olhar, o ser humano troca a eloqüência de suas palavras pelas pró-formas de vitrine neste caldeirão onde todos consomem rótulos ambíguos e duplamente cortantes. Se tal olhar crítico for treinado, veremos claramente que a questão já extrapola a esfera do consumir ou não consumir: imagino Hamlet se questionando para uma lata de refrigerante na mão. É preciso repensar esta dinâmica. Vomitar conceitos caducos e consumir sim. Mas aquilo que nos é realmente interessante e nutritivo.
 

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