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A Carta e o Cão
Por
Andréa C. Migliacci
Imagem:
Reprodução
O vento varre seus cabelos que dançam selvagens batendo em seu
rosto pálido. Sua mão segura a carta com tanta força, que as articulações se
tornaram brancas, as unhas traspassam o papel e cravam em sua palma. Gotas de
sangue tingem a folha branca, pingam uma a uma na barra de seu vestido antiquado,
que se arrasta pelo chão pedregoso. O mar ruge abaixo, bate nas pedras com
violência parecendo chamá-la. As lágrimas reprimidas saltam de seus olhos, e de
sua boca um urro de dor é abafado pelo vento.
Seu único companheiro está deitado aos seus pés, imóvel, orelhas para
trás, focinho erguido, à espera de uma palavra, de um comando. Pobre cão, não
sabe que ela não vê nada que não seja o mar feroz e as pedras mortais abaixo
deles. Ela se aproxima mais da beirada, criando coragem, estremecendo ao pensar
que em minutos sua pele vai ser rasgada e seu sangue será lavado pela água
salgada do mar. O cão a segue e insinua o focinho gelado em sua mão livre. Ela o
empurra delicadamente, mas ele insiste. Ela se irrita e lhe dá um tapa tentando
afugentá-lo dali. Ele gani e retrocede alguns passos. Ela estende o braço e abre
a mão ensangüentada, deixando o vento carregar a carta que lhe quebrara o
coração em mil pedaços. Nada mais resta. Nada. Ela olha para trás uma ultima
vez, olha para a casa que seria um lar. Agora é só uma casa carregada de
lembranças, lembranças demais para ela.
O cão se aproxima de novo e se põem na sua frente, com uma pata ele chama
sua atenção, um ganido triste acompanha o gesto delicado para um cão tão grande.
Ela o olha e se lembra que desde que recebeu a carta não lhe deu água ou comida,
o pobre cão nunca reclamou... Ela dá um passo para o lado, saindo da proteção
do corpo maciço. Ele, de um pulo, se põe por trás dela e puxa seu vestido a
lançando ao chão. Ela chora agora sem controle, seus soluços sacodem seu corpo
enquanto ela tenta se levantar, mas o cão a mantém no chão, pulando e batendo em
seu peito cada vez que ela se apóia para se pôr de pé. Ela grita, grita de
raiva, de dor e de medo por não conseguir. Quem daria de comer ao cão? Quem o
manteria aquecido e protegido quando as tempestades chegassem? Não... Ela não
podia pensar nisso, sua vida terminara com a chegada da carta. Ela empurrou o
cão e se ergueu decidida.
O rugir do vento era assustador, mas mais assustador era continuar só.
Seu pé tocou a borda e ela abriu os braços para o nada. Um uivo se ergueu mais
alto que o vento, um lamento que cortava a respiração, machucava o coração. O
uivo seguiu arrepiando seus pensamentos, penetrando em seu coração ferido. Ele
desistira de fazê-la ficar, só estava lá parado, demonstrando toda tristeza e
abandono que sentia. Ela colocou as mãos nos ouvidos tentando deixar de escutar,
deu um passo para trás, e mais outro, e outro. Seus joelhos cederam, batendo
no chão duro e ela gritou novamente. Gritou até perder a voz, gritou acima dos
uivos e do vento, gritou sua dor, e por fim caiu sem sentidos.
O tempo passou sem ser notado, ela abriu os olhos e sentiu os pingos
grossos de chuva no seu rosto, mas não sentia frio, estava aquecida. O cão
estava acima dela, se apoiando nos joelhos da frente para não pressioná-la com
seu peso. Seu focinho comprido repousava em seu peito. Quente, protetor. Ela o
abraçou e ele a puxou, ajudando-a no levantar. Pegou sua mão com a boca,
delicadamente, e a puxou para casa. Ela não olhou para trás, não olhou para o
penhasco ou para o mar que tragara a carta. O cão tinha fome e sede, e dependia
dela. A casa parecia deserta, abandonada, mas logo ela daria um jeito nisso,
acenderia um bom fogo e faria um chá para se aquecer, o cão ganharia uma tigela
de leite quente e poderia dormir em sua cama com ela. O cão... Ela deu um
sorriso trêmulo e passou a mão por seu pêlo úmido da chuva...
Lá fora, no mar,
uma carta manchada de sangue se desfazia entre as ondas, e no céu um raio de sol
rompia as nuvens de tempestade, para dourar a beira de um penhasco deserto.
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