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Decibéis amazônicos
Por
Ricardo Alexandre Imagens: Ricardo A./Renato
Reis/Reprodução
'Decibéis
Sob Mangueiras' e 'Matança de Animais' são os dois temas centrais da Casamata
nessa edição. Ambos do estado do Grão-Pará, estão juntos aqui por três motivos:
o primeiro, por serem conterrâneos; segundo, pela grata coincidência de ambas as
entrevistas ficarem concluídas num mesmo momento; por fim, o quarteto amazônico
é uma das prediletas do Ismael Machado, o Bill, autor do 'Decibéis'.
O livro é uma dica e tanto para quem curte música escrita e crê que o Rock seja
algo além do egocentrismo, ou mesmo artifício meramente profissional. Lançado
com o apoio da Lei de Incentivo Cultural Tó de Oliveira e patrocinado pela
gráfica Graphinorte, garante ao leitor um conhecimento maior sobre o que
aconteceu no período pós-ditadura brasileiro,
tanto em Belém, quanto no Brasil. Remédio certo para quem, num momento de
enxurrada de informações, ainda se espanta com uma metrópole nacional fazendo
Rock e dos bons, e coincidentemente nos últimos festivais, tem oferecido ao
público vários grupos interessantes; Cravo Carbono (do Lázaro Magalhães,
vocalista da banda, que junto do Marco Tuma foram os responsáveis pela capa do
livro), Solano Star e o meteórico Eletrola, são alguns dos exemplos dos ilustres
desconhecidos no país dos Detonautas...
Por fim, o novo EP da
Delinqüentes - Matança de Animais -, que conta com o inédito primeiro videoclipe do quarteto capitaneado
pelo Jayme Pontes, e que está disponível no Dissonância durante a edição #55.
Insatisfeito? Ah, aí só o Círio de Nazaré salvará...
_______________________________
Decibéis Amazônicos I - Rock de Belém a partir dos anos 80
Foi-se o tempo em que das selvas só se ouviam tambores. É bem
verdade que ainda saem vários graves, mas saídos de baixos, baterias e guitarras
distorcidas que ecoam Amazônia afora. Eram os anos 80 despontando,
Brasil abandonando fardas e coturnos e reinstalava-se uma república
'democrática'. Por mais que falar nesta década nos faça prontamente lembrar de
alguns signos como Rock In Rio, Blitz, Cazuza e tantos outros, ou mesmo as festas 80's em tons de
saudosismo que tanto pipocam aqui e ali atualmente, cada lugar guarda o
seu pedaço na História e não foi diferente com a capital paraense e seus
arredores metropolitanos.

Tendo vivido a efervescência das bandas da primeira metade dos anos 80, Ismael
'Bill' Machado, jornalista e escritor paraense, no seu segundo livro aborda a
fase na qual a capital fornecia os primeiros grupos de Rock. Decibéis
Sob Mangueiras - Belém no cenário rock brasil dos anos 80 (Editora Grafinorte - 2004) mostra este ciclo que começou a
ser popularizado com trabalhos como o Stress - tida como a primeira banda
de metal brasileiro -, até o ano de 93, na lendária confusão em praça
pública do Rock 24 Horas, festival que acontecia literalmente por todo um dia e
que dispunha de boa repercussão nacional na terceira e derradeira edição. Era o
Rock incomodando e sendo incomodado.
Em quase 300 páginas,
15 bandas são destacadas, programas de rádio, festivais e
personalidades que orbitavam em torno do Rock e foram conduzidas à posteridade
na memória da cultura local. Mosaico de Ravena, Álibi de Orfeu, Solano Star,
Ácido Cítrico, DNA, Morpheus, Falsos Adeptos (cujo vocalista é o próprio autor
do livro), além da Delinqüentes e Babylóides (duas das minhas prediletas quando
o papo é música), são alguns exemplos ilustrados através do som
que faziam, ou pelas curiosas formas de como se montar ou implodir
determinada banda, sejam os integrantes bem nascidos da classe média, ou a
turma de Icoaraci ou da 'República dos Camarões'.
Nomes de bandas, músicos, bairros, enfim, Decibéis ganha espaço pelo
valor de recontar uma parte do cenário, sem deixar de associá-la ao momento
histórico, regido à época pelas novidades surgidas a partir do eixo Rio-São
Paulo. Levando-se em conta outros lançamentos na área de jornalismo
musical que alardeiam através dos olhos e ouvidos, é pena que às vezes um
lançamento desse porte tenha dificuldades para atravessar as fronteiras, no
entanto, Belém vem apresentada como ela é, não se escondendo por detrás de açaís e
dos exotismos da floresta, mas pelo caráter urbano que o Rock sabe muito bem
delimitar.
Sob o pano de fundo
do Rock, fatores sociais, econômicos e políticos envolvidos não ajudam
somente a compreender a realidade musical de Belém, mas compará-la e inseri-la
no âmbito nacional, de modo a abrir a percepção para além-Música. Decibéis
ajuda a refletir sobre as relações a partir do universo pop e a constatar a
falta de unidade entre as regiões do país, garantindo a condição de estranhos
sob mesma bandeira e idioma, ainda que em determinados nichos e sob os acordes
universais do bom e velho Rock 'n' Roll. Leitura de primeira.
Abaixo, prosa
especialíssima com o autor do livro, Ismael Machado...
>>> >>> >>> >>> >>>
Dissonância - Depois de ler o
"Decibéis Sob Mangueiras", nem precisa perguntar o porquê de Belém ser o cenário
do livro. Você vem dessa cidade e não por acaso participou e vivenciou o
cenário dos anos 80. Esse também é o tempo do livro. Qual foi o aditivo para plugar o "Decibéis" nos amplificadores?
Ismael "Bill" Machado - Eu poderia te dar várias versões, mas uma eu acho que
contempla todas e me satisfaz: é que eu vivi
aquilo de forma muito intensa. Minha relação com o mundo sempre foi de tentar
aprender as coisas de uma forma mais profunda,
então, ao mesmo tempo em que quando moleque eu jogava bola e ia andar no mato,
eu também lia muito e brincava sozinho. Esses
dois pólos me foram sempre muito juntos.
Sempre ouvi música, por causa dos meus irmãos, minha irmã principalmente. Mas
nada era muito organizado; gosto de Nélson
Gonçalves, Martinho da Vila, e Clara Nunes por causa de minha mãe. Gosto dos
Beatles e da Jovem Guarda por causa da minha
irmã. Eu cresci tendo consciência de momentos históricos. Senti isso quando o John Lennon morreu, e foi meu passaporte
definitivo para o mundo do rock. Eu fui adolescente nos anos 80, tendo uma
consciência muito grande de que tudo aquilo que
estava acontecendo era uma mudança histórica no país. O PT, as Diretas Já, o
Plano Cruzado, o Clip-Clip da Globo, o roque
brasileiro.
Enfim, eu ia vivendo as coisas, mas ao mesmo tempo refletindo nelas, não sei se
fica fácil de entender. Mas eu não me
furtava de curtir intensamente tudo e ao mesmo tempo analisar racionalmente. O tempo passou, eu fui viver outras coisas,
em outros lugares, quando voltei percebi, a partir de papos com antigos amigos,
que havia uma lacuna que poderia ser
preenchida.
Como escrever é meu prazer, meu ofício e minha fonte de alegria e
dor, resolvi partir para essa empreitada,
tendo sempre em mente que eu tinha uma vantagem. Fui um participante ativo de
todo aquele frenesi dos anos 80.
Dissonância -
Sei o quanto essa mistura de sonoridades em casa é importante,
e no caso de vocês aí no Pará, certamente tinha eco na
juventude e influía na variedade de estilos das bandas em Belém. Poderia nos
falar sobre esse "frenesi" do cenário rock
oitentista, traduzindo a relação que havia entre grupos do eixo Rio-São Paulo -
que dominava culturalmente - e o nem tão
incipiente Rock da capital paraense?
Ismael "Bill" Machado - Bom, acho que ocorreram dois momentos distintos nos anos
80. O primeiro se refere aos quatro
primeiros anos da década, que na verdade pode ser dito que iniciaram por volta
de 78, 79. Foi um período em que aqui em
Belém, havia um clima meio Hair, meio Woodstock. Quem gostava de rock ouvia
aqueles sons dos anos 60, 70 (Janis, Led,
Beatles, Yes, etc). E havia o início daquilo que se chamou nova onda do metal,
com Iron Maiden, Saxon, Motorhead. Era uma
mistura disso o que rolava em festinhas, na época.
Eu lembro que em 83 ganhei uma fita do Police e gostei daquilo. Gostei de umas
coisas do Duran Duran. E ao mesmo tempo
lembro de quando ouvi Ramones e Sex Pistols a primeira vez. O punk não tinha a
força que teria no futuro ainda por aqui. Eu
andava com duas turmas diferentes. Uma que gostava daquele rock que eu cito no
início, e outra que gostava de ouvir MPB. eu
ouvia muito os mineiros, gostava muito daquilo. Gosto até hoje.
E paralelo a isso tudo fui acompanhando o rock brasileiro que começava a
emergir. Um amigo tinha aquele disco clássico
SUB, do punk paulista. Surgiram, além do disco da Blitz, que tocava direto, dois
discos fundamentais, do Barão Vermelho e
Camisa de Vênus. Foram os discos referenciais em 82, porque começou a haver
aquela febre do rock engraçadinho e essas duas
bandas fugiam disso.
Tudo isso começou a ganhar corpo de uma forma muito difusa para muitas pessoas,
mas bem claras pra mim. E é engraçado que
começou a haver um racha nas turmas de rock. os mais radicais não aceitavam
aquela sonoridade que começou a se proliferar a
partir do Rock In Rio. U2, Smiths, Echo and The Bunnymen, Jesus and Mary Chain,
etc. Para aqueles radicais, isso não era
rock. E eu me encantei com esse som, porque na verdade, eu não conseguia gostar
muito de Saxon e Motorhead, por exemplo. A
estética metal nunca me encantou, sempre achei meio presepeira, brega. E foram
essas bandas (a dos anos 80) que moldaram a
sonoridade de grande parte dos grupos que surgiram na década. Pra mim foi um
sopro de novidade que eu havia insinuado existir
desde que ouvi Police.
Então ficou uma coisa meio assim: punks prum lado, metaleiros pra outro, e gente
como eu que ouvia todo tipo de rock, mpb,
jazz, reggae, o que eu achasse que era boa sonoridade.
Belém teve muito disso. Uma vez um figura entrou no ônibus em que eu estava com
uma namorada e disse que eu era um traidor
do rock. Como assim? O rock é um corno? Eu devo fidelidade aos meus ouvidos. E
só.
Dissonância -
As 18 bandas que "viraram capítulos" no decorrer da narrativa,
entraram seguindo qual critério? Separá-las
foi uma iniciativa sua, ou consenso de um círculo de amizades, por exemplo?
Como se dava a influência das emissoras e seus programas de rádio com as
bandas e o público, em plena época de proliferação de FM's no governo Sarney?
Ismael 'Bill' Machado - A seleção, digamos assim, das bandas, foi uma conseqüência de eu estabelecer pequenos subgrupos que
representaram o todo que foi o rock em Belém no período. A iniciativa foi toda
minha.
Quanto às rádios, em determinados momentos houve uma participação intensa delas
em Belém. E uma coisa é muito clara pra
mim: as rádios são um fator poderoso para fazer com que determinados estilos
ganhem a preferência do público e proporcionem a
abertura de espaços adequados. Foi assim em Belém com a Belém FM durante alguns
anos. Está sendo assim atualmente com a Rádio
e Tv Cultura, que estão proporcionando espaços para as novas bandas.
Dissonância -
Pelo fato de você haver escrito o Decibéis, o seu conhecimento
desde quando músico até descobrir uma ou
outra história inédita com os entrevistados, tornou-se ainda mais claro. Rock e
um pouco da cidade de Belém e região
metropolitana, sempre comparados ou esclarecidos a partir do panorama nacional.
De que modo você apresentaria o Rock da sua cidade, no sentido das diferenciações
com o restante do Brasil, os grupos que merecem
destaque, os estilos que mais atraem a rapaziada?
Ismael 'Bill' Machado - Acho que, sem bairrismo, Belém produz hoje um dos
melhores cenários musicais pop do Brasil. temos
aqui, ao contrário de anos anteriores, uma diversidade muito grande de bandas
com características diferentes.
Há sabores regionalistas como Cravo Carbono e La Pupunha; viagens loucas como o
Radio Cipó e a Lu Guedes, pop chiclete
delicioso como o Suzana Flag e o Eletrola (que anunciou a separação
recentemente), porradas bacanas como o Delinqüentes e o
Madame Saatan, e muito mais: Euterpia, Norman Bates, Stereoscope, Álibi de
Orfeu, etc.
Enfim, é um cenário muito bom, de uma cidade que busca um espaço próprio no
urbano.
Dissonância -
Como o livro está repercutindo junto ao leitor -
incluindo a parcela mais ligada à cultura - e aos
meios de informação? Está havendo boa
divulgação/repercussão desse trabalho em outros estados?
Ismael 'Bill' Machado - O livro teve boa repercussão local. Dos 500 exemplares,
mais de 300 já foram vendidos e ajudou
a solidificar a idéia de que a música pop merece um destaque que ainda não
tinha. Dois trabalhos de conclusão de curso na Universidade Federal do Pará inspiraram-se no livro. Isso é legal.
Quanto aos
outros estados, saíram notinhas em alguns
veículos, mas nada grandioso, até porque não era bem essa a intenção. Quem
estiver interessado pode adquirir comigo
(ismael.machado@uol.com.br e
billmachado@yahoo.com.br). Custa apenas 20 contos.
Dissonância -
A sua carreira literária ainda pode voltar aos temas musicais?
Quais outros livros você já compôs?
Ismael 'Bill' Machado - Decibéis é o meu segundo livro. Antes lancei um livro de
contos chamado Vapor Barato. Não há mais
nenhum exemplar dele. Usar temas musicais? Penso em escrever um romance sobre os
anos 80. Já tenho concluído um romance
policial sobe um serial killer aqui em Belém. Tentarei viabilizá-lo ainda esse
ano.
Dissonância -
O que você acha desse número crescente de publicações na área
de 'jornalismo musical/cultural', fato que mesmo assim não
significa quantidade e presença garantida nas nossas bancas de revista?
Ismael 'Bill' Machado - É fundamental. Parafraseando aquela frase que diz que 'o
futebol é a mais importante coisa entre as
coisas menos importantes', o universo pop é a mais importante coisa entre as
coisas menos importantes. Precisamos registrar
nossa história.
_______________________________
Decibéis amazônicos II - Matança de Animais
Depois do álbum oficial lançado em 2000, Matança de Animais traz a
Delinqüentes de volta à seção 'Lançamentos' de cds. São cinco músicas novas e
duas releituras, vide Ídolos Mortos e Indiocídio, com
direito à formação diferente da que esteve no primeiro disco, mas a
pancadaria rola à vontade, se esse for o caso.
Sempre com
o Jayme Pontes à frente dos
vocais e letras, quando as
atividades começaram na
segunda metade dos anos 80, o quarteto paraense é um daqueles exemplos
recorrentes da época: várias formações e uma única pessoa 'sobrevivendo' e
acreditando na aura do projeto. E com a Delinqüentes, um grande projeto, ou o
que dizer sobre manter-se fiel atualmente só em igrejas, e o punk/hc então,
coitadinho, está disputando cada centímetro com Rouge, KLB e outras pérolas do
cancioneiro do amor adolescente. É tanto desacordo com as raízes do estilo que
qualquer nerd afetado (ou indie, para os íntimos) se acha com o topete de lançar
frases de efeito como: 'nossa, punk rock não existe. não é Rock'. 'Bichice',
diriam uns rotos.
Mesmo com o amor no ar, Delinqüentes, tal qual
as suas influências - Olho Seco, Agnostic Front, RxDxPx (para o nerd, a banda do
João Gordo) - ou contemporâneas Karne Krua, Babylóides, Garotos Podres, não
deixam a face social ser levada pela maré das unhas pretas, bonés de
caminhoneiro e muito amor no coração. "Bom rapaz, direitinho", como não queria
ser o Tom Zé. O que falar de Indiocídio e Ianomâmis, bradando
contra a situação dos índios que povoam a Amazônia; do cara que sai do Norte
para a cidade grande (Migração); da ilusão do consumismo em Utopia
Milenar; o estrelismo criticado à la Ascensão e Queda (RDP); a
reforma agrária de Ocupação e Resistência; claro, Matança de Animais, que
dá nome ao EP, fala sobre as touradas de Madri, Roma de Nero e Farra do Boi, e é
uma das ótimas músicas de rock distorcido que já ouvi. Insatisfeita, a
faixa que dá nome ao álbum ainda virou o primeiro videoclipe do grupo!
Em tempo:
Matança de Animais apesar de recém-chegado e ser uma prévia do próximo cd
'cheio' , é um disco imperdível, mostrando não ser à toa que a Delinqüentes
permanece como referência em letras e no crossover infalível de sempre.
Jayme (vocal)
Rogério (guitarra)
Jacob (baixo)
André (batera)
Só rolar a tela e
sacar um papo com o Jayme Pontes...
>>> >>> >>> >>> >>>
Dissonância -
Salve, Jayme. Vi no EP a presença de algumas faixas de demos anteriores,
porém que não saíram no chamado "primeiro disco oficial", caso de 'Indiocídio',
numa versão reformulada; 'Ídolos Mortos', que mantém a mesma música e pegada,
tal a formação anterior. Aliás, "oficializar" os hits que antes saíram só nas
demos é algo para manter a banda viva, ainda que com novos
integrantes?
Jayme Pontes -
É mais ou menos isso mesmo. mas a coisa rola naturalmente, tipo, essas são
músicas que fazem parte do repertório atual da banda e a gente não queria deixar
de fora da demo, entende? Indiocídio nunca tinha ficado tão bacana. como fizemos
essa versão, mais crossover e mais porrada, resolvemos colocar. A Ídolos Mortos
foi mais o fato de a mesma ter sido pouca divulgada. Era pra ter saído no cd Pequenos Delitos (2000), mas como não rolou, resolvemos jogar agora,
já que a galera sempre pede ao vivo, e com essa nova formação, que já nem é tão
nova. Tem muita banda aí fora que tem o tempo só dessa galera na banda, hehe
(uns 4 anos).

Dissonância -
Nâo me lembro em qual site foi, mas li uma nota que afirmava o EP como
uma espécie de 'adiantamento' do que virá a ser o sucessor de "Pequenos
Delitos". De que modo sairá o novo disco, quais temas podemos esperar nas letras
recentes e claro, a perspectiva ante o lançamento do primeiro videoclipe?
Jayme Pontes -
Também é verdade. Sempre gostamos de lançar uma demo antes do lançamento do cd
oficial. Isso aconteceu com o Pequenos Delitos, que antes lançamos o Planeta dos
Macacos (ainda em fita). Isso serve para termos idéia da resposta da galera. É
como se fosse uma pré-produção. Muita gente faz isso. A diferença é que a gente
lança a pré-produção, pois de tão pão-duro que somos, não gostamos de
desperdiçar material. A grande novidade dessa demo é a inclusão do nosso 1º
vídeo clipe, da música Matança de Animais. É uma colagens de imagens de shows e
ficou bem legal. Foi produzido por Shinji Shiozaki e Robson Fonseca. O Shinji
inclusive já está acertando o roteiro pro 2º clipe, que deverá estar incluso no
cd oficial.
Quando lançamos essa nova demo (Matança De Animais), havíamos começado a
gravar o cd oficial, sendo que em outro estúdio, com mais recursos. Os temas são
os mesmos: letras que retratam a realidade dos índios e seu
genocídio, a matança de animais por puro prazer com requintes de crueldade, e a
realidade das ruas, como Utopia Milenar, que fala de uma história real, um
lavador de carros que sonhava em ser um astro e teve sua garganta cortada dentro
da "rotina de trabalho". A diferença é que procuro trampar mais agora nas
letras, dando mais variedade nas mesmas. Já fazia isso antes, mas agora está mais
forte.
Dissonância -
O que você acha de projetos como o "Decibéis sob Mangueiras", os quais, na minha
opinião, contribuem para resgatar a memória e conseqüentemente obter
reconhecimento junto ao novo público? A Delinqüentes foi trazida com destaque
pelo seu autor, o jornalista Bill Machado; em que vocês convertem a participação
num livro como esse?
Jayme Pontes - É super-louvável
um projeto
como esse. A leitura imortaliza uma parte da história que certamente iria cair
no esquecimento. Toda cidade e região deveria ter um desses. E o interessante é
que a história se parece muito com a de outras regiões, pois a realidade do
cenário independente de certa forma é quase universal. Fiquei super-honrado em
estar participando do livro.
Meus olhos se encheram de lágrimas em algumas partes, principalmente quando se
refere ao meu início no rock e no punk. As viagens ao Nordeste, os primeiros
shows, está tudo lá, em páginas do Delinqüentes e dos Babylóides, que sempre
viajava conosco. É engraçado que havia fatos de outras bandas daqui que nem eu
mesmo sabia, como o reconhecimento do Álibi de Orfeu no Rio de Janeiro e a
idolatria que rolava com o Mosaico de Ravena. E olha que conhecia todos eles,
mas acho que eu era punk radical na época. Essa foi uma época mágica
para muitos. Lembro-me de uma vez ensaiar inclusive na própria casa do Ismael
(autor do livro). Isso está retratado no livro, foi logo no início e foi
lá que criamos letras como Gueto, vendo a realidade daquele bairro (Icoaraci).
Infelizmente algumas bandas
(principalmente as de Metal) ficaram de fora, mas como o próprio Ismael falou, o
pontapé inicial foi dado. Outros devem continuar.
+
Contatos: http://delinquentes.zip.net
http://www.tramavirtual.com.br/artista/delinquentes
|

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