
"Muityo obrihado
pelo sieu amor."
(Stevie B, agradecendo o carinho do público)
(fim de noite. boteco na subida do morro santa marta, o único
aberto aquela hora por ali pelo humaitá. os irmãos dancing
brothers encontram o esquadrão mod adolescente.)
"Aqui não é Londres, mas bem que poderia ser, não?" - ele disse.
Eu realmente acho muito foda terno e gravata. Mas, definitivamente, aqui
não é Londres e faz um calor do carai! Então não tem como fazer
sentido pra mim. Mas confesso que sempre quando rola um casamento
ou uma formatura eu faço questão de ir pra outro lugar depois de
terninho. Principalmente quando a química do meu cérebro já tá bem
aditivada de whisky com Coca, e eu não exagerei nos salgadinhos.
Enfim.
Eu insistia em não querer perceber que seria meio impossível conseguir
transmitir praqueles rockers bem mais novos que nós o quão
grandioso tinha sido o espetáculo que tínhamos presenciado horas
atrás. Eles nem sabiam quem era Stevie B, inacreditável.
Festinhas de Play Homem Leva Refri, Mulher Leva Prato de Salgado. Tony
Garcia vs. Stevie B, quem era mais fodão? Passinhos sincronizados.
A hora da música lenta e a temida vassoura. Por que aquele cara do
Information Society tava sempre andando de patins? O cagaço de
chegar na garota do 4° andar. O drama de viver no meio termo entre
a playboyzada e a galera black do mal. Eles não viveram isso, e na
hora eu me sentia pelo menos uns 6 anos atrasado com relação a
tudo nessa vida. E pagava de velho ridículo.
"Cara, por mais que as suas raízes sejam uma mierda, você NUNCA pode
renegá-las".
Comecei a falar sobre o vinil que eu tinha, "Bon Jovi in Brazil" (foi um
dos meus primeiros contatos com o roque), e uma das paradas que eu
achava mais foda na foto da banda: o Jon tava descalço, sentado no
chão com o pé preto. Aquilo era ser rebelde pra mim, saca? E não
tive a menor vergonha de assumir que eu cresci querendo ser o
cara. Eles ficaram horrorizados, quase escutei todos eles pensando
ao mesmo tempo, "Putz, ninguém merece esse cara".
"Dannie, o Stevie B tinha Dançarinos Prateados, você tem noção?"
Viver fica muito menos doloroso quando você aprende a rir de si mesmo.
Além disso, estimular a revolta das pessoas bacanas de outra
geração, mesmo que pra isso você se queime com eles, é fazer um
bem ao futuro da humanidade.
(...)
(ps: no momento em que encaro essa tela, eu sou o cara mais fã de
Idlewild que já existiu. mas vai passar.)
(...)
(na entrada da fundição. horas atrás.)
A gente tinha um problema sério. Seqüelei, pedi credencial muito em cima
da hora e não consegui entrar em contato de jeito nenhum com o tal
produtor da festa, que tava cuidando da parte de imprensa. Na
porta do lugar, tentávamos de todas as formas ludibriar os
seguranças, mas eles não levaram fé no nosso papo furado, nem no
gravadorzinho ninja de jornalista profissional em minhas mãos. Até
que o Toother teve uma excelente idéia.
"Vamos entrar pelo estacionamento aqui do lado e é só pular a grade. Num
pulo a gente entra".
Adentramos o estacionamento camuflando nossa estratégia, fingindo
conversações telefônicas no celular pra não causar desconfiança no
segurança que vigiava tudo do alto, piscineiro salva-vidas de
clube style. Pórem, a idéia não era tão original como pensei de
início, visto que quando nos demos conta, vários malucos tavam
tentando fazer o mesmo e se dando mal porque existiam seguranças
taticamente posicionados. Mas que fique bem claro aqui a diferença
enorme que existia entre nós, profissionais respeitados da mídia
virtual independente contemporânea, e os outros, malandrões que
queriam entrar na faixa ilegalmente. Nós estávamos lá batalhando
pelo nosso direito de trabalhar, pô! Além disso, eu tinha noção de
como era importante pros meus leitores minha presença em mais uma
passagem pelo Rio de Janeiro do mito do Funk Melody, Stevie B, o
cara mais fodão do universo quando eu tinha 12 anos.
Depois de toda aventura desenrolada muito mais no nosso imaginário do que
na vida real, entramos na fila e (meu deus!) pagamos o ingresso,
dinheiro esse que imagino que nos seja devolvido pelo produtor da
festa logo após ele receber essa linhas.
(...)
A garota me parecia familiar.
"E aí? Você é fã do Stevie B?"
"Não. Eu vim porque me chamaram. Tô achando isso aqui muito chato, um
saco".
"Mas como assim? Você tem noção da importância do Stevie B na história da
música pop mundial?".
"Não quero nem saber. Mas, ei, eu te conheço! Você já me entrevistou uma
vez".
"Bem que eu achei seu rosto familiar. Você tava naquela micareta?"
(...)
Um negão coroa gente boa deu seu depoimento sobre o cara.
"Escuto Stevie B desde os 15 anos. Tenho 38."
"E quem você acha que era mais fodão naquela época? O Tony Garcia ou o
Stevie B?"
"O Stevie, sem sombra de dúvida."
"Hoje em dia, no Brasil, quem você acha que é o grande representante do
Funk Melody? O Latino?"
"Olha, acho que o Marcinho é melhor que o Latino."
Mas, afinal, o que diabos é Funk Melody? Eu não sei, mas tava escrito no
flyer.
Imagino que o Punk do Ratos De Porão estaria para o Punk do CPM 22, assim
como o Funk Pancadão está para o Funk Melody, e essa foi a
"definição regra de três" menos tosca que eu consegui criar.
(...)
A verdade é que eu nunca assisti a um show tão curto. Mas a galera não
tava nem aí, ele tocou "Spring love" no final, tá valendo.
O cara entrou no palco acompanhado dos Dançarinos Prateados sob uma chuva
de Confetes Prateados ou algo parecido, e o tempo todo insistia em
tocar as novidades.
"Vozess quierem ovir uma úsica nuova?"
Eu gritei "Nãoooooooo", e apesar de ter gritado sozinho, me sentia como o
porta-voz de todo mundo que ficou quieto, mas que no fundo queria
mesmo era ouvir Spring Love e foda-se o resto.
(entrevista com uma fã)
"Então você é fã do Stevie B?"
"Sou, adoro Stevie B."
"Então diz uma música nova dele."
"(...)" - váários minutos.
"Valeu, obrigado."
A galera pirava mesmo era quando ele falava "Blah blah blah, let's go
back to the 90's"!
Primeiro foi "In my eyes". Depois uma balada que demorei a reconhecer ("Because
i looooove yooooooouuuu...") e que broxou a galera por completo.
Mas no fim, cara...
(...)
"Soon you'll see
that it was me you were searchin' for
Oh, my love searching for
I really need you I really want you baby
I need you and I want you baby
Spring love
Come back to me
I gotta have you baby"
("Spring love", poesia responsa e clássico da juventude perdida
nos 90's)
As duas gatinhas pareciam um pouco abaladas e alegaram dor de cotovelo.

"Mas como assim vocês estão com dor de cotovelo?"
"Estamos. Minha amiga viu o gato dela número 1 ficando com outra, o gato
número 2 ficando com outra e eu vi o que eu queria com uma outra".
"Ah, tá. E o que vocês vão fazer com relação a isso?"
"A gente tá pensando, a gente tá articulando um plano e ainda tá vendo
como a gente vai botar em prática".
"(...)" - já tava quase me oferecendo pra fazer parte do plano maligno,
mas meu profissionalismo falou mais alto - "Podecrer. Mas você é
fã do Stevie B?"
"Ele é das antigas, né? Ele marca momentos muito legais da minha vida".
"Você já foi em alguma festinha de play de prédio que tocou Stevie B?"
"Já, claro que já!"
"E "Spring love"? Você já teve um "Spring love" ou não?"
"Isso eu não posso falar".
"Por quê?"
"Porque eu vejo nos seus olhos que essa pergunta é maldosa".
Pô, mas eu só queria saber se ela já teve algum amor de inverno. Não
entendi nada.
(...)
Bom, o show
rolava e os Dançarinos Prateados acabaram mexendo com a gente, a
ponto de despertar grosseiramente o Tiny Dancer Adormecido em cada
um de nós. De repente, me peguei imitando um deles durante o
momento mágico "Spring love" e, a partir daí, meu amigo, quando o
show acabou e o DJ passou a soltar só pancadão das antigas, nos
deixamos levar de vez pelo embalo dançante. Tarde demais. Nós
éramos os Irmãos Dancing Brothers e já estávamos dando vexame.
Quase uma versão White Trash do finado Milli Vanilli, nossa performance,
que incluía passos de dança mal sincronizados propositalmente,
referências à Polka russa nas trocas de chutes na canela um do
outro, tapas na cara ensaiados e epilepsias robóticas travolteanas
diversas, não foi bem assimilada pelas pessoas ao redor que nos
olhavam pasmas. Não pegamos ninguém, lógico, o que me causou certa
frustração, visto que sempre escutei esse caô de que mulher gosta
mesmo é de homem que dança. Talvez a Fundição, o Shopping Center
from Hell mais descolado da cidade, não estava pronta ainda pras
coreografias eróticas dos Irmãos Dancing Brothers. Ou talvez as
mulheres curtam sim os homens que dançam. Contanto, apenas que
eles não ofusquem o brilho feminino, muito menos percam o senso de
ridículo.
Toother fazia o Passo da Meia-Lua, que tinha a ver com usar um dos braços
como se fosse o ponteiro dos segundos de um relógio dos 9 aos 3
fazendo assim 180 graus, e finalizar com as mãos apoiadas no
joelhinho tchutchuca style, e um bombado olhava compenetrado,
provavelmente tentando guardar a seqüência pra usar na próxima
micareta, ou então na próxima night na Ilha dos Pescadores.
Cansamos do Funk, descemos ao subsolo onde os mais mudernos piravam no
bate estaca e, mesmo não acostumados com a tecnologia sonora
apavoradora, não fizemos feio.
Toother jogava cerveja em cima de mim, eu retribuía com encontrões no ar
e lembrava do clip de "Song #2", do Blur.
(...)
(o primeiro contato com a líder do esquadrão mod adolescente.)
"Alô?"
"Coé, garota. Tá aonde?"
"Coé. Tô num boteco no Humaitá, mas já tá fechando, o cara tá expulsando
a gente."
"Vamo pra outro então!"
"Vamo, você tá aonde?"
"Tô saindo daqui da Lapa e indo praí. Mas e a negra gorda e os pivetes
gêmeos que cantam e dançam? Tão aí com você?"
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