Será que vai virar bolor?


                                                                             
Por Luciano Branco

Imagens: Reprodução

 
  Não é nada engraçado, e muito menos justo, que uma das melhores bandas brasileiras do início da década de 90 seja curiosamente uma das bandas mais desconhecidas na década seguinte. Triste sina para os cariocas da Acabou La Tequila, banda que usou e abusou das fusões de ritmos, de experimentações, do know-how dos músicos envolvidos para fazerem, segundo os próprios, “mistura de rock com música”. Culminaram em dois fundamentais discos para se entender um pouco o que representaram os anos 90 para o Rock Nacional. Vamos a uma longa apresentação.

  O vocalista: Renatinho hoje se divide nos vocais das bandas Carne de Segunda (de Gabriel Bubu, baixista contratado que acompanha os Los Hermanos) e Canastra, que lançou o seu 1º Cd “Traz a pessoa amada em 3 dias” (Monstros Discos) e entre outras canções, as ótimas "Diabo Apaixonado", "Meu Cappucino", “Cada um por si” e “Roleta Russa”.

  O baixista: Donida integrou o Beach Lizards, Dash (que tinha Simone do Vale ex-Autoramas e Formigão Planet Hemp) e hoje toca no countrycore Matanza (de Jimmy, um dos produtores da banda Canastra) e suas peculiares “bebe, arrota e peida” e “Pé na porta, soco na cara!” do seu segundo disco “Musica para beber e brigar”.

  O baterista: André “Nervoso” tocou no Beach Lizards, teve uma rápida passagem pela banda Autoramas, também tocou no Matanza, deu canja cantando e tocando com Lafayette e os Tremendões, e agora segue com seu trabalho solo com o álbum “Saudades de minhas lembranças” (Midsummer Madness), das maravilhosas “Já desmanchei minha relação”, “Maus Limites”, “O Mala” e “O bom veneno”.

  O outro baterista: Leo “Massacre Completo” ex-Riame, se divide entre a Orquestra Imperial e a banda Duplex.

  O guitarrista: Kassin é conhecido como produtor de Lenine, Caetano Veloso e Los Hermanos (banda, fãs e amigos), mas também já foi figurante de filme em “Metal Guru”, multimídia segue com a Orquestra Imperial; o duo eletrônico Mono Aural, além do projeto “+ 2” juntamente com Domenico Lancellotti (que também já esteve na banda) e Moreno Veloso. A essas atividades, somam-se seus trabalhos no seu próprio estúdio, o Monoaural e com o Selo Ping Pong, parceria com Berna Ceppas - eventual participante do Acabou La Tequila, com seus teclados e samples.

  Outros que também estiveram por um breve tempo na banda foram Gabriel Thomaz (ex-Little Quail e atual Autoramas) e Bacalhau (ex-Planet Hemp e atual Autoramas).



                 O legado para posterioridade



  O homônimo primeiro álbum veio  no ano de 1994 e é um compêndio de ótimas canções com referências à música latina, rock, pop, surf music, hardcore, funk (!), reggae, ska, MPB e até um pouco de influências de música eletrônica.

  Desse disco que conta com as participações de Gustavo “Black Alien” em “Como vai Senhor” e João Donato em “Eu não preciso de ninguém pra ser feliz!” (conhecido pelos seus ótimos trabalhos, o músico traz em sua ficha o esquecimento que o fez por duas vezes não participar de um disco de Miles Davis). A única faixa que alcançou uma certa projeção para o público foi “Biscoito”, que teve o seu videoclipe exibido na MTV e  traz um tema super atual - homens que viram senhores do lar e mulheres que trabalham e se transformam em chefes de família. Ficaram de fora as vinhetas dos Trapalhões, Banana Split e Jordi (!).

  As sutilezas ficam por conta de “Deus abençoe Pitágoras” (adoro vê-los seus seios/adoro tê-los, um a um meio a meio/conheço bem todos os seus lados/conheço bem todos os seus ângulos/seu triângulo encoberto é eqüilátero o mesmo exposto triângulo retângulo); a cosmopolita “Eu não preciso de ninguém pra ser feliz” (ela foi embora e disse/que nunca mais voltava aqui/e eu que deveria ter ficado triste/fiquei ate contente); rock´s latinos “Pra Lá em Tihuana”, “Gondolero” e “Persona Non Grata”; miami rock na ode “Rita Cadillac”, o pop “Teto Preto”; Hardcores “Flamig Moe” (os Simpsons, lembram?), “Auto Combustão” (eu sei que você sabe/que você não entende/mas eu posso tentar te explicar) e “O Fim”.

  Depois de quase 10 anos do lançamento do primeiro álbum, o Acabou La Tequila lançou em 2004 seu segundo disco, “O Som da Moda”, que obviamente "carecia" de ter sua lenda pessoa. Quando o selo Excelente Discos encerrou suas atividades, seus ex-executivos tomaram caminhos distintos; Carlos Eduardo Miranda foi parar na recém-criada gravadora Trama, e o seu sócio na empreitada, Brian Butler, foi para a gravadora Abril. ambos gostariam de trabalhar com a banda mais uma vez; a banda, por sua vez, optou pelo contrato com a Abril.

  No meio desse processo, houve um imprevisto que fez com que a major mudasse toda a sua diretoria, saindo assim Brian e entrando Marcos Maynard (ex-Sony). O disco amargou um engavetamento até que uma forcinha de Dado Villa-Lobos (ex-Legião Urbana) - que se propôs a fazer um acordo com o ex-presidente da Abril (a essa altura de portas fechadas), João Augusto, que acabara de fundar a Deck Disc, não se interessava em lançar o disco, cedendo os fonogramas para a gravadora Rock It, de Dado. Como numa maldição, a Rock It também fechou as portas, mas Dado (ao contrário do que fez com o Peter Perfeito, de Brasília) cedeu aos seus amigos Kassin e Berna Ceppas os fonogramas. Com o disco produzido, foi lançado através do seu próprio selo, o Ping Pong (que tem distribuição da Trama e pretende lançar o álbum solo de Diego Medina, ex-Video Hits, e Invoke, projeto de Arto Lindsay).

  Entre os vários hits que estão presentes no disco, destaques para faixa que dá nome ao trabalho, “O som da moda” (tá todo mundo falando mal de mim porque eu não faço o som da moda/porque eu não faço o que eles querem ouvir/e o que eu faço incomoda), guardadas as devidas proporções, lembra um pouco "Radio Gaga" (Queen); "Tranqüilo", um reggae misturado com salsa e letra bem sacada (tranqüilo levo a vida tranqüilo/não tenho medo do mundo/não vou me preocupar) (musica gravada de forma mais intimista pela cantora-atriz-global Thalma de Freitas). A slide-guitar da música estranha e chiclete “Tu É Choque"; o Rock visceral comparece com "Pela Saco" (mas o povo é sábio e sabe quando o cara é cuzão/não é à toa que pegaram no seu pé e não apertam mais a sua mão/já inventaram até nome pra isso/eles agora só vão te chamar de pela saco) e “Mais ou Menos”, com direito a muito groove, sampler e scratchs; música eletrônica ("Kung Fu", que teve os samples de "Operação Dragão" do Bruce Lee, retirados por não terem seu uso liberados); o Tango "Ferina" com participação do ainda não convertido (ou invertido?) Rodolfo (ex-Raimundos e Rodox); countrycore "Dallas"; jovem guarda "Solarização" (Nervoso dando pistas de seus trabalhos futuros) e "Tekila Boogaloo"; o ska "Eu Era Pop" (eu era Pop/um dia eu já fui Pop/também aproveitei todas vantagens, que se tem/quando se é alguém no mundo Pop); o hardcore "Pensa Demais", entre outras faixas menos cotadas e “Agradecimentos”, onde o pai de Pedro Sá, o Sr. Ro Tapajós, faz uma locução lendo os agradecimentos da banda sobre uma base instrumental com cara de musiqueta de baile de debutante.

  Se a Acabou La Tequila fosse uma banda gringa, com certeza você teria comprado os dois discos deles, afinal, eles fizeram o que o Super Furry Animals só iria fazer em 99, após três álbuns com seu elogiado “Guerilla” (nota: embora tenha sido lançado em 2004, o segundo álbum do ALT foi inteiramente composto e produzido em 1999): efeitos, distorção, melodias assobiáveis, influencias latinas, letras desencanadas, mas inteligentes, porque se houve uma banda que soube utilizar o conceito da palavra ecletismo para se criar um som, com certeza essa banda foi o Acabou La Tequila.

  Pena que essa legião de “Joselitos”, que são os programadores de rádios do Brasil, não sacaram a verve da banda, e juntamente com a falta de iniciativa do público, deixaram de reconhecer em seu devido tempo uma banda tão interessante, que ilustra bem o fato de que enquanto os executivos de terno e gravata das grandes gravadoras ainda estiverem somente de olhos no grande hit de verão, ou na próxima moda musical, as chances de uma banda como o Acabou La Tequila aparecer para o grande público ainda serão, deveras, remotas.


 

Mais Luciano Branco em:

 

+ www.poraoweb.com.br

 

 



.::.

.: Anteriores :.

* Secos & Molhados dos infernos!

* A primeira banda chamada Sepultura no mundo

* Geraldinho - Trova, Prosa e Viola

* Coisa de Louco II: resenha do cd da Graforréia Xilarmônica

 


[Página Inicial