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Independente de quê, cara pálida?
Por
Daniel Paes Imagens:
Daniel P. + Reprodução
Muito se fala em pós-modernidade. Difícil cunhar termos novos quando um
processo ainda se desdobra. A chamada globalização é mais uma fase do processo
da última revolução planetária: a industrial. E esta revolução se faz de forma
vertical com a expansão dos mercados consumidores por todo o território da
Terra. Hoje, um brasileiro com o computador conectado na internet e que usa o
programa Soulseek tem a mesma possibilidade de ouvir uma canção de Caetano
Veloso que um etíope. E vice-versa. Mas será que esta possibilidade de
comunicação se faz possível? Existem cerca de 192 países no mundo e, a reboque,
milhares de culturas com milhões de musicalidades. Mas faça o teste. Abra sua
pasta de MP3's, classifique por nacionalidades e veja o quanto colonizado você
é. Não pretendo aqui entrar nos deméritos econômicos, óbvios ao meu ver, de um
sistema que explora as potencialidades das nações opressoras (as que lucram)
sobre as oprimidas (as que se endividam).

Pretendo propor um pensar sobre a expansão vertical de uma cultura ready-made.
Quero afirmar um novo estágio da colonização que agora se complexifica no âmago
do humano. Interna e mentalmente. Basta entrar em qualquer locadora de vídeos e
perceber que 90% dos filmes são de um país que exporta esses produtos para todos
seus assalariados globais. Basta ouvir uma rádio e perceber que o mesmo ocorre.
Basta ver os softwares, as roupas, as músicas nos violões adolescentes, os
canais a cabo. Os países do mundo há mais de 50 anos já estavam de joelhos para
o império norte-americano, mas agora os cidadãos destes estados (que
praticamente não existem mais) estão repetindo para si mesmos o mantra ditado.
E a partir desta conquista, a cultura criada para se alastrar pelo admirável
mundo novo invade o social. A lógica racional protestante e industrial já está
introjetada nas mentes das crianças. Os adultos repetem as mesmas frases pelo
mundo. As frases cunhadas in USA. Tempo é dinheiro. Mas tempo não é vida? Então
concluímos que, dentro desta lógica, dinheiro é vida. E quem de nós nunca ouviu
a pergunta que sintetiza bem esse racionalismo: Quem vive hoje sem dinheiro meu
filho? Os índios, uma criança responderia. Mas até mesmo eles já estão andando
de carro importado e vendendo diamantes. Pajés milionários vêem seus curumins
morrerem de fome, enquanto coçam os bolsos cheios de dólares. E para entender
melhor a cultura para exportação norte-americana (escrita e falada) estão por
toda parte cursos de inglês.
Mas esta é apenas uma das vertentes. A estética do país-patrão está presente
mesmo onde se imagina que é reforçada uma identidade cultural nacional.
Importante aqui afirmar que multiculturalismo pressupõe diálogo. E que o domínio
não exclui negociação. Globalizar a Amazônia só se for ao preço de globalizar
também nossa miséria, diria alguém em sã consciência. Colocar um pandeiro entre a
formação clássica do Rock´n Roll de forma alguma é exemplo de interatividade
cultural. Jorge Ben nos mostrou o que é comer a modernidade para reforçar nossa
raiz. O que muitas bandas atualmente fazem é colocar um papagaio no ombro para
se imaginarem brasileiras. Mas a perna-de- pau, o tapa-olho e a cabeça continuam
sendo os mesmos.
Importantíssimo repensarmos a idéia de cultura independente com o risco de
tornarmo-nos representantes da cultura inde-pedante ou depredante. Qual a idéia
que fazemos de dependência? Qual o país ou o grupo não é dependente de outros?
Assim, longe de afirmar a dependência de alguma cultura-modelo, podemos berrar o
surgimento de uma cultura interdependente de tudo o que é artisticamente vivo e
criativo. Talvez com esta atitude de coragem consciente o bicho cultura
brasileira jovem possa realmente se afirmar independente das asas da águia e/ou
de qualquer outro animal usurpador. Muito pelo contrário, amigo de toda a
profusão sonora da selva planetária.
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