![]() |
||
|
|
Textículos de Mary e a Banda D´as Cachorras
Imagem: Reprodução Certa vez eu li a segunda frase creditada ao Carlos Eduardo Miranda: “Musica é o efeito que ela provoca”. Tomei pra mim. E ela está sendo base pra quase tudo que escrevo, quando o assunto é musica.
“Cheque Girl” (pelo menos fora da capital pernambucana) foi pouco comentado e merecia ter tido mais espaço na mídia, sobretudo no meio musical. Mas vai ver que em um país moralista como o Brasil, o selo “Aos Pais AVISO Letras Explícitas” tenha contribuído para esse desinteresse da imprensa e de uma parte do público. Não sabem o que perderam. Formada a partir do dilaceramento das genitais inúteis do travesti Mary/Belmiro (a estória completa está no encarte do cd), os Textículos são compostos por Chupeta (voz e vocais), Silene Lapadinha (vocais), Lollypop (voz e vocais), mais a banda d'as cachorras, composta por Bambi (guitarra e vocais), Dúbia Keitesuelen (baixo, e violão de aço), Pixôta (voz e vocais), Scarlet Cavalêra (bateria e voz em Jeniffer), Loiranegra (percussão e vocais) e Kaiadroga (guitarra e solos). Esses seres fazem música dura, mas muito bem humorada; são cronistas do lado B de qualquer cidade, inclusive de onde eles vivem. O visual é o crossover de Secos & Molhados com o Kiss, mas todos “travestículos”. Já o som não poderia ser diferente: uma suruba com punk rock “Uma Linda em Berlim” (o nome dela é Lindemberg/o sonho dela é morar em Berlim/com sua coleção do Kraftwerk); hardcore “Jeniffer” (Jeniffer foi pro juqueri acompanhada por um bando de junkie/depois de currada em um baile funk/Jeniffer você é muito punk!); reggae “Entradas e Bandeiras” (Integralista conflituada percorrendo afoxés atrás da negada/renegou a família a sua vida passada assumindo que é vira-lata atacada); ska “Natasha Orloff” (Natasha agora vive intoxicada/topa qualquer parada em que possa lucrar/sentindo fome, aperta a barriga em uma cinta liga comprada na C&A); folk “Menarca (Sometimes I Feel Like Crazy)” com letra intimista (depois do 15º baseado/eu não respondo por mim/eu não respondo por nada); psicodelismo e swing em “Desaqüenda”, letra minimalista “dinheiro de cu é rola!”, e uma instrumental pra mostrar o profissionalismo do combo, que assim faz em todas as outras faixas. Como se não bastasse, o disco traz clássicos absolutos como “Todinha Sua (She Ra)”, cover de Xuxa em versão pornô (Porque sou bicha!/me apresenta pro He-Man/teu irmãozinho é uma gracinha e eu sou todinha do bem...Beijinho, beijinho... pau,pau!); o Ska “Charlie Bronson´s Song” (na pia a garrafa vazia/o coração sangrando/o meu medo/e o desejo de matar!); “Legalize Bambam”, de riff de guitarra preciso e letra que relata o encontro de Jeniffer e Wanderley (Sim! O próprio! O da sauna gay - “Trepar por grana é uma bosta!”); para encerrar, só mesmo “Obraite”, dos versos (fist-fucking é comigo mesmo, eu topo de tudo, sou macaxeira... Eu sou putinha e ninfomaníaca, sou a própria Omo, sou a dupla-ação). Bem produzido por Rafael Ramos (que embora muitos ainda não admitam, é um cara que merece muito respeito pelo que anda fazendo pelos novos artistas e bandas brasileiras), o disco da banda deve ser encontrado na internet e sebos, valendo correr atrás para dar uma ouvida atenta, saber que a música de Pernambuco vai muito além das confluências musicais e regionais. Apesar de infelizmente estarem se despedindo dos palcos (por falta de espaço, pela incompreensão de muitos locais, por não tocarem maracatu, etc), os Textículos prometem lançar o segundo álbum - Bissexuástica, claro, se houver grana que dê para isso. Longe dos palcos, mas talvez ainda lançando discos, talvez seja a sina dessa maravilhosa banda.
Mais Luciano Branco em:
|
.::. .: Anteriores :. * A primeira banda chamada Sepultura no mundo * Geraldinho - Trova, Prosa e Viola * Coisa de Louco II: resenha do cd da Graforréia Xilarmônica
|
| [Página Inicial] | ||