Falando de Luisa e Ana Camerinda...


                                                        
                                                         Por
Ricardo Alexandre 'Guerrillero'
                                                                          Imagens: Divulgação


 
O Fernando Paiva é velho conhecido do leitor do Dissonância, sendo importante grifar que o próprio assina a seção 'Máquina de Escrever' desde o início das atividades do front, em 2003. Mas essa sintonia aconteceu bem antes, quando em 1999/2000 o primeiro registro da banda na qual é guitarrista - Luisa Mandou Um Beijo - chegou ao meu conhecimento e assim muita água rolou. Muito menos água do que no dilúvio de Carta Para Ana Camerinda, livro do também jornalista e torcedor do Fluminense (!).

  Rolando a tela, será possível saber mais sobre a banda e o seu quarto trabalho, além das 103 páginas da novela que conta a história de um 'Homem' e um surpreendente envelope amarelo. A pedida é boa, ainda mais que aparecem para papear tanto o Fernando guitarrista, quanto o Fernando escritor, comentando com a simplicidade de quem recorda os guardanapos da sala de estar.

  Veja só:
      

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          * Entrevista com o Fernando Paiva *


Dissonância - Quem acompanha a seção 'Máquina de Escrever' aqui no Dissonância está acostumado a ler as suas opiniões a partir de fatos do cotidiano. Como é ter desenvolvido o seu primeiro livro - 'Carta para Ana Camerinda' - no formato novela e trazer a ficção como nova forma de expressar a sua criatividade?

Fernando Paiva (Luisa Mandou Um Beijo) -
Bom, antes de ser jornalista eu era escritor. Meu sonho desde pequeno era ser escritor. Essa história de jornalismo apareceu mais tarde na minha vida. Desde pequeno escrevo livros. Mas o primeiro na minha fase adulta foi "Carta para Ana Camerinda". Foi também o primeiro que julguei digno de uma edição profissional.

  Criar personagens, ambientações e tramas foi algo que sempre adorei. Exercitei isso muito não só através da redação de novelas, contos e poesias, mas também através do RPG (Roleplaying Game). Fui mestre de jogos durante toda minha adolescência. Hoje não tenho mais tempo para RPG, mas continuo achando um jogo fascinante.

  Encaro o jornalismo como ganha pão. O prazer eu tiro da arte, seja com a música ou com a literatura.
                                     
                                             
Dissonância - 'O Homem' foi a forma pela qual você optou chamar o protagonista, aliás, um homem com os dilemas e afazeres da maioria dos mortais. Ele trabalha numa agência postal, mira um raro envelope amarelo e apega-se à Ana Camerinda, a destinatária de existência incerta, tão desconhecida quanto a origem do dilúvio que atingiu a cidade na qual a história é ambientada.

  Ética (ou a ausência dela), eternas esperas, ineficácia do poder público, apego à insolitude, é realmente preciso um 'dilúvio' nas proporções do criado por você para que 'O Homem' fique mais atento às esquinas da vida?

Fernando Paiva (Luisa Mandou Um Beijo) -
Mais do que o dilúvio, o que fez aquele personagem, o Homem, levantar-se e questionar-se sobre a vida burocrática e monótona que levava foi o furto da carta. Ou, mais precisamente, a insólita paixão pela carta. Acho que em vez de fechar os olhos para o mundo ao redor, uma paixão pode abri-los.

  É interessante notar como o livro desperta diferentes interpretações. E acho isso extremamente válido, afinal, sou um profundo defensor da teoria da obra aberta, de Umberto Eco. Meu livro foi recentemente adotado por um colégio aqui no Rio. Recebi muitas perguntas dos alunos. Alguns enxergaram na figura do Homem uma metáfora do homem moderno, imerso em sua rotina de trabalho. E viram na chuva sem fim uma mensagem niilista de que não há solução para a vida de hoje.

  Achei as interpretações bonitas e profundas, mas tive que confessar que não pensava em nada disso quando escrevi o livro - embora admita que possa ter havido, talvez, alguma intenção inconsciente da qual ainda não me dei conta. A única mensagem política embutida no texto (e por sinal bem clara) é a de anti-opressão e pelo fim de um paradigma hierárquico, influência de meus ideais libertários.

  É um livro triste, sem dúvida. Algumas pessoas reclamaram do final. Talvez esperassem um encerramento hollywoodiano, onde tudo acaba bem. Já não tenho mais paciência pra cinema americano. O final é de filme europeu. Nórdico, talvez...

Dissonância - Além de ter sido adotado num colégio no Rio de Janeiro e receber interpretações distintas dos leitores, como foi o feitio do livro? Ele saiu independente? Aproveite para contar como está sendo a divulgação do mesmo, se um sucessor está a caminho...

Fernando Paiva (Luisa Mandou Um Beijo) -
O livro foi editado pela Ibis Libris, uma editora pequena aqui do Rio que aposta em autores novos. Ela costuma focar em poesia, mas agora está começando a lançar autores de prosa também. Estou pensando em lançar no ano que vem um livro de parágrafos-poesia. Uma amostra desse novo trabalho está disponível nesse site.

 Saiu uma resenha legal sobre o livro no site literário Paralelos e algumas notas sobre o lançamento nos jornais do Rio. O livro está à venda em poucas livrarias - apenas aquelas mais "cult", como Timbre, Letras & Expressões e Argumento, aqui no Rio. Sei que em São Paulo havia exemplares na Livraria Cultura. Não sei se a distribuição chegou a outras cidades. Mas quem quiser pode comprar diretamente comigo, solicitando por esse e-mail: fpaiva@centroin.com.br.


Dissonância - Musicalizando o papo, como você vê (e ouve!) o novo disco da Luisa Mandou Um Beijo? No que ajuda lançá-lo através de um selo experiente quanto o midsummer madness?

Fernando Paiva (Luisa Mandou Um Beijo) -
É um disco de músicas compostas entre 1999 e 2001. Demorou tanto para ficar pronto que soa um pouco antigo para os ouvidos de nós, integrantes da banda. Mas muita gente ainda não conhecia algumas dessas músicas e tal. Hoje, já temos repertório para um segundo álbum completo e o começo de um terceiro. O primeiro ficou soando um pouco pop demais, eu acho. Os próximos terão mais "barulhinhos". E serão um pouco menos alegres, eu acho.

  Lançar pela midsummer madness é muito bom, pois o selo é conhecido no Brasil inteiro e isso ajuda na divulgação.


Dissonância - Como é ter soado 'pop demais' o disco de uma banda que usa a formação tradicional voz/guitarra/baixo/bateria, mas entram trompete e flauta transversal, além de letras que fazem pensar um pouquinho mais do que o pop normalmente exige?

Fernando Paiva (Luisa Mandou Um Beijo) -
Ah, me refiro aos arranjos. Acho que faltaram "barulhinhos" e uma produção um pouco menos perfeitinha, talvez. Sim, acho que as letras são boas e não têm nada de pop. E mesmo musicalmente, não é assim tãããão pop (risos). É que comparando com o que estamos fazendo hoje, é bem mais pop. Você precisa ouvir as músicas novas... Tem umas em compasso 3/4, as linhas de trompete estão mais ricas... Tem várias músicas da Flávia, algumas bem sombrias.

  O segundo disco será mais complexo, mais sofisticado, eu diria. A gente brinca entre nós dizendo que agora estamos virando uma banda "indieprogadelic". Mas claro que é um exagero... (risos)


Dissonância - Há boas perspectivas de apresentações depois desse recente álbum, inclusive fora do Rio de Janeiro, ou são várias toalhas brancas para acontecer um show da Luisa?

Fernando Paiva (Luisa Mandou Um Beijo) -
Estamos querendo participar de festivais este ano. Vamos mandar material para vários. O problema às vezes é o custo de passagens, hospedagem, alimentação etc. Não fazemos questão de ganhar dinheiro com o show, mas também não queremos pagar pra tocar. O ideal é que a produção do evento pelo menos arque com parte desses custos.
 
Dissonância - Entra a pergunta que 'não deve calar' sempre que surge um papo com alguém ligado à música: tem novidades interessantes no universo das bandas? (se sim, quais?)

Fernando Paiva (Luisa Mandou Um Beijo) - Sim! A melhor coisa que escutei nos últimos meses foi uma banda de São Paulo chamada Cérebro Eletrônico: letras inteligentes, ritmos eletrônicos com guitarras... Muito bom! Outra surpresa boa é a banda de ska-jazz instrumental que meu irmão está tocando, a Fanfarra Paradiso. Eles ainda não têm cd gravado, mas fui em alguns ensaios e gostei muito do que escutei.

Dissonância - Finalizando... (Espaço livre)

Fernando Paiva (Luisa Mandou Um Beijo) -
Acho que nunca é demais destacar que existem bandas independentes fazendo um trabalho bem feito, inteligente e, não raro, muito melhor do que aquilo que ouvimos nas rádios comerciais. Vale a pena fuçar um pouco na internet e ler alguns fanzines para descobrir essas pérolas.

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                                  Luisa Internacionalista

                                                           
  Depois de 2 ep's e um single, chega a vez do hepteto carioca Luisa Mandou Um Beijo lançar o seu primeiro disco 'cheio'. A banda emprestou o nome ao seu quarto álbum, que apresenta 6 músicas inéditas de um lado, 6 antiguidades láááá de 1999, como Amarelinha, Bauhaus Today, Hoje o Mar Dançou no Céu e Low in C (agora, a literalmente cinematográfica Anselmo). São mais de 40 minutos de peripécias da Luisa, que saiu das páginas de  Hóspede da Utopia, livro do Fernando Gabeira, cruzou o caminho de outro Fernando - o Paiva (guitarra e letras) - e da Flávia Muniz (voz), ganhou bateria (Luciano Grossman), outra guitarra (PP), um baixo (PC), trompete (Shockbrou) e flauta transversa com o André Ramos.

  O grupo que chegou de Amarelinha em 99 e recebeu 2001 Com Um Pote de Geléia de Morango nas Mãos, hoje fala da Julia do cigarro aceso entre os seus dedos, com direito a incidental de Deus e o Diabo na Terra do Sol, além da concepção visual que reproduz um folhetim impresso em xilogravura, por onde desfilam Buñuel, Maracanã, Mano Negra...  Tem duas xilogravuras de uma mulher em traços sensuais, causando a impressão de queimar por dentro, como uma Gabriela Cravo e Canela ou Dama do Lotação, daquele tipo que não ficaria no sofá apenas ouvindo Bauhaus Today.

  E internacionalista é uma das idéias do cd, que torna possível, por exemplo, a livre adaptação de Carinhoso (Pixinguinha/João de Barro) e juntá-la ao som diferente feito pela Luisa e a coloca ao lado de grupos como o 4track valsa (que virou Casino tempos depois), feedback club e Madeixas, bandas muito interessantes  (as 3 com vocais femininos) da segunda metade dos anos 90. O álbum foi produzido pelo baterista Luciano Grossman e lançado pelos selos Volume I e midsummer madness.

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                       Alguém viu a Ana Camerinda por aí?

  Carta Para Ana Camerinda é o primeiro livro do Fernando Paiva (Ibis Libris - 2004), que narra o inusitado apego de um funcionário dos Correios (O Homem) por um envelope amarelo, cor rara naquela agência. Destinada à Ana Camerinda - moradora da Rua das Oliveiras, 126 -, a correspondência não consegue chegar à destinatária de existência e paradeiro desconhecidos, desenvolvendo no Homem a curiosidade por saber quem era Ana Camerinda e qual o conteúdo daquele envelope.

  Em cem páginas,  carta e dilúvio ampliam, para o Homem e o leitor, o universo multifacetado da sociedade, recortando diversos tipos que estão desde a velha do apartamento ao lado, que colecionava chaves; à colega funcionária de contornos exuberantes; o chefe exemplar e de hábitos ásperos; até a constatação do vazio existencial no cotidiano das pessoas. Uma fábula impregnada de mundo real,  que reafirma o desejo essencial (e recessivo) de  "mais chuva onde faz sol, mais sol onde faz chuva", como anota o próprio autor.   

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                _ Site oficial: http://www.luisamandouumbeijo.com

                _ Máquina de Escrever: www.maquinadeescrever.com

                  
 

 

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