Religiosidade... e fé!
 


                                                     
 Por Thiago Quintella
                                                               
Imagem: Reprodução/www                                                                                         

 

 

 


  Ela era casada com o pastor. Sabemos que no Protestantismo isso é, por dogma, permitido aos seus representantes. O ex-monge Martinho Lutero "legalizou" o desejo de muita gente pregando isso na Reforma religiosa do século XVI.

  Sempre acompanhava seu marido nos cultos da manhã e da noite; à tarde ela cuidava dos negócios... dela e da Igreja. Pouco depois do meio-dia, ela se despede do marido e também dos fiéis que estava em dispersão. Todos estavam confiantes em vida nova, pois acabaram de ocorrer alguns testemunhos emocionantes. O ramo deste Protestantismo proíbe os seguintes absurdos: uso da calça comprida para as mulheres, bem como o freqüente corte de cabelo. Dessa maneira, acreditam, o Tinhoso não "atenta"; logo, a bela mulher do pastor exibe seus longos cabelos e algumas curvas de suas pernas são cobertas por uma longa saia de brim cru.

 

  Já no banco, deposita os dízimos arrecadados pela manhã e na noite anterior na conta do Senhor. O céu é mais uma vez loteado. Ainda bem que ele é infinito. A conta de luz também foi quitada. Negócios da igreja quitados, agora são os dela a serem cuidados.


  Arruma as coisas na bolsa, enorme bolsa. Vai saber das coisas que as mulheres têm que levar para o dia-a-dia, não é? Vaga pelas ruas à procura em algum edifício comercial; uma sala com banheiro disponível. Entra em uma sala e, alegando uma situação emergencial, pede a uma secretária permissão para utilizar o "toalete". Demora. Demora.


  Um dos que estavam na sala de espera, para quebrar o silêncio após a entrada da mulher, deduz que a moça pode estar, deveras, passando mal. Não seria um simples alívio líquido fisiológico. Ouvem a descarga e segundos depois vem o barulho do abrir do trinco. Todos se inclinam e parecem não reconhecer a moça que sai, tamanha a transformação desta. Cabelos, agora presos com fios desmesurados e despenteados, uma saia um terço do tamanho da outra, e rosa; saltos altíssimos e pontiagudos e uma nova dose de maquiagem. Despede-se agradecendo à secretaria somente encarando-a. Parece que na maquilagem havia um pouco de madeira-de-lei dada a cara-de-pau da mulher do pastor.


  Fantasiada (ou sem fantasia), segue para um restaurante perto de uma igreja. Um carro popular estaciona defronte ao estabelecimento; e sem olhar para lado algum, nem tirar os óculos escuros, ela entra.


  - Boa tarde, padre.


  - Boa tarde, irmã.


  - Muito trabalho durante a manhã?


  - Apenas escutei as confissões de uns alunos que farão primeira comunhão no fim do ano.


  A moça olha para o banco de trás e acha uns embrulhos.


  - O que tem ali?


  - Um tinto seco, francês. Safra 2002. É o seu predileto, não?


  - Acertou em cheio!


  O padre obedece aos dogmas da igreja católica, como percebemos. Celibato total, casar-se nunca! Permite, entretanto, o consumo de bebida alcoólica. Como in vino veritas, A Verdade dele pode ser revelada daqui a pouco. O sangue de Cristo, neste caso, parece ter poderes a mais que provavelmente o padre não recomendaria a seu rebanho.


  O carro arrancou e a partir daí não se vê mais nada.

 

 

 


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