Ela era casada com o pastor.
Sabemos que no Protestantismo isso é, por dogma, permitido aos
seus representantes. O ex-monge Martinho Lutero "legalizou" o
desejo de muita gente pregando isso na Reforma religiosa do século
XVI.
Sempre acompanhava seu marido nos cultos da manhã e da noite; à tarde ela
cuidava dos negócios... dela e da Igreja. Pouco depois do
meio-dia, ela se despede do marido e também dos fiéis que estava
em dispersão. Todos estavam confiantes em vida nova, pois acabaram
de ocorrer alguns testemunhos emocionantes. O ramo deste
Protestantismo proíbe os seguintes absurdos: uso da calça comprida
para as mulheres, bem como o freqüente corte de cabelo. Dessa
maneira, acreditam, o Tinhoso não "atenta"; logo, a bela mulher do
pastor exibe seus longos cabelos e algumas curvas de suas pernas
são cobertas por uma longa saia de brim cru.
Já no banco, deposita os dízimos
arrecadados pela manhã e na noite anterior na conta do Senhor. O
céu é mais uma vez loteado. Ainda bem que ele é infinito. A conta
de luz também foi quitada. Negócios da igreja quitados, agora são
os dela a serem cuidados.
Arruma as coisas na bolsa, enorme bolsa. Vai saber das coisas que as
mulheres têm que levar para o dia-a-dia, não é? Vaga pelas ruas à
procura em algum edifício comercial; uma sala com banheiro
disponível. Entra em uma sala e, alegando uma situação
emergencial, pede a uma secretária permissão para utilizar o
"toalete". Demora. Demora.
Um dos que estavam na sala de espera, para quebrar o silêncio após a
entrada da mulher, deduz que a moça pode estar, deveras, passando
mal. Não seria um simples alívio líquido fisiológico. Ouvem a
descarga e segundos depois vem o barulho do abrir do trinco. Todos
se inclinam e parecem não reconhecer a moça que sai, tamanha a
transformação desta. Cabelos, agora presos com fios desmesurados e
despenteados, uma saia um terço do tamanho da outra, e rosa;
saltos altíssimos e pontiagudos e uma nova dose de maquiagem.
Despede-se agradecendo à secretaria somente encarando-a. Parece
que na maquilagem havia um pouco de madeira-de-lei dada a
cara-de-pau da mulher do pastor.
Fantasiada (ou sem fantasia), segue para um restaurante perto de uma
igreja. Um carro popular estaciona defronte ao estabelecimento; e
sem olhar para lado algum, nem tirar os óculos escuros, ela entra.
- Boa tarde, padre.
- Boa tarde, irmã.
- Muito trabalho durante a manhã?
- Apenas escutei as confissões de uns alunos que farão primeira comunhão
no fim do ano.
A moça olha para o banco de trás e acha uns embrulhos.
- O que tem ali?
- Um tinto seco, francês. Safra 2002. É o seu predileto, não?
- Acertou em cheio!
O padre obedece aos dogmas da igreja católica, como percebemos. Celibato
total, casar-se nunca! Permite, entretanto, o consumo de bebida
alcoólica. Como in vino veritas, A Verdade dele pode ser
revelada daqui a pouco. O sangue de Cristo, neste caso, parece ter
poderes a mais que provavelmente o padre não recomendaria a seu
rebanho.
O carro arrancou e a partir daí não se vê mais nada.
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