Coeso

Entrevista hardcore com o baterista Kverna

 

Texto e fotos: Alessandro Ferrony

 

 
  Atuante na cena hardcore do Rio Grande do Sul desde 2003, a Coeso, formada por Gabriel (vocal), Kverna (bateria), Diego (guitarra), Néco (guitarra e vocais) e Dudu (baixo), vem conquistando o respeito de bandas mais antigas e consideração dos fãs por onde quer que passe levando sua mensagem por igualdade, direito e dignidade. Lutas sociais, descrença nos dogmas religiosos e na burocracia do poder também são temas prioritários da banda.

 


  Dissonância aproveitou um agradável final de tarde de domingo no Parque da Redenção, em Porto Alegre, para trocar uma idéia com Kverna, figura conhecidíssima na cidade pela sua atuação e apoio a diversos movimentos sociais e organizações independentes que clamam por justiça e igualdade, seja social, sexual, enfim... Eis o resultado de cerca de 40 minutos de conversa:
 
Dissonância - Pra começar, vamos falar sobre os primórdios da banda. Quem teve a iniciativa, como os integrantes foram se juntando, esses detalhes para deixar os leitores do Dissonância mais familiarizados desde o início da nossa conversa.
 
Kverna (Coeso) - Bom, cara, tudo começou comigo, o Gabriel e o Néco. Eu e o Gabriel fazíamos parte de uma banda chamada Komodo, que só ensaiava e acabou. Mas eu e o Gabriel estávamos a fim de continuar tocando, daí no início fui eu, o Marcel, o Néco, o Gabriel e o Diego (N. do R: não o mesmo Diego da formação atual, mas outro que foi guitarrista da Tombshit). O Diego caiu fora porque tinha outro projeto, o Marcel pra tocar com a XamorX; ficamos eu, o Gabriel e o Néco, daí encontrei o Diego na Internet por meio de indicação e logo depois veio o Dudu. É a formação que dura até hoje.
 

Dissonância - Por que o nome Coeso?
 
Kverna (Coeso) - Quem sugeriu foi o Diego, logo depois de começar a tocar. Daí eu fui procurar no dicionário e lá tava escrito que coeso era algo como união, ligação de pessoas com o mesmo sentido e mesma proposta, então eu acho que o nome ficou bem interessante para uma banda de hardcore, tendo a ver com a nossa proposta inicial.
 
  Muita gente pensa que todos os componentes da banda são straight edge e que isso serviu como critério de seleção na hora de formar a banda. Outros pensam que levantar a bandeira da liberação animal e veganismo, num estado onde o consumo da carne, especialmente o churrasco, é uma das mais fortes tradições do povo e orgulho de esmagadora maioria, é loucura, mas na verdade não é nada disso. Desfaça de vez o mal-entendido.
 
  Eu não sou straight edge, nem o Diego, nem o Dudu. Apenas o Gabriel e o Néco são SxEx. O Gabriel é vegan/SxE e o Néco é straight edge, mas não sei se é vegan, sei lá (risos). Eu sou vegetariano. A banda nunca falou em straight edge nas letras, a gente nas letras fala em união e ao contrário do que muitos pensam, em nenhum momento assumimos esse rótulo. De qualquer forma respeitamos a posição do nosso vocalista e do nosso guitarrista, assim como eles respeitam as dos demais. Não falamos em veganismo ou vegetarianismo nas letras, até porque o Dudu e o Diego comem carne. Já foi falado alguma coisa nesse sentido nos shows, mas de maneira pessoal.

 

  Em nossas letras predominam as questões sociais, o ateísmo e agnosticismo, a exploração humana pelas religiões e movimentos sociais.
 
Dissonância - Como vocês vêem a cena hardcore porto-alegrense no momento?
 

Kverna (Coeso) - Cara, eu vejo ela fraca, no sentido de que bandas como Teardown estão para acabar, dois integrantes da Tombshit largaram, e eram duas bandas que tinham um tempão de estrada. A 288 tá parada, a XamorX também... São poucas as bandas que temos agora com idéias de compartilhar e fazer shows juntas, infelizmente rola isso. Mas também tem bandas que a gente respeita e adoraria trabalhar junto, só que tá rolando muita treta aqui em Porto Alegre, por isso a cena hardcore parece meio parada mesmo.
 
Dissonância - Recentemente a banda andou fazendo shows pelo interior do Rio Grande do Sul, em cidades como Osório, Taquari, Santa Maria e Santo Antônio da Patrulha. Conta pra gente como foram esses shows e qual é a importância para a banda tocar no interior.
 
Kverna (Coeso) - Cara, acho que até hoje nós tocamos mais no interior do que em Porto Alegre. Eu particularmente gosto muito disso, porque eu gosto muito de viajar, e sinto que a banda se une muito mais nessas viagens, seja pra onde for. Porra, a experiência é muito boa, acho que os melhores shows que a gente teve foram no interior, inesquecíveis mesmo.

 

  O pessoal tem gostado bastante, tem rolado bastante convite e no interior a cena tá forte. Aqui em Porto Alegre, como a coisa tá fraca, a gente no momento prefere mesmo tocar no interior. É legal que a gente conhece gente interessante como o Apocalipse, o cara que é o rei do metal de Taquari, uma figura, espécie de “Luiz Caldas do metal” (risos). Tem também a galera do Festival X, de Osório, e outras pessoas da cidade, só gente boa, nos deram abrigo e rango. Uma galera de Santa Maria que cola cartazes anti-imperialismo pela cidade. A gente vai sempre se lembrar dessa galera.
 
Dissonância - Também recentemente a Coeso promoveu uma gig com a banda catarinense Conduta e outras bandas locais no Pop Bar, aqui mesmo na capital gaúcha. Pretendem levar o som da banda para outros estados através de shows ou pensam que, hoje em dia com o advento da Internet e do MP3, a divulgação eletrônica para lugares mais distantes já é suficiente?
 
Kverna (Coeso) - Na verdade quem promoveu esse show foi o Gustavo, da XamorX, e a Lílian, que eram mais chegados do pessoal da Conduta, mas eu já conhecia os caras de outros shows, são muito gente boa, trocamos muitas idéias. Eles gostaram muito do nosso som, e a gente do deles. Temos a pretensão sim de tocar em outros estados, regiões, quem sabe até alguma coisa na Argentina, que a gente tem contato lá, fazer coisas na América Latina, mas estamos numa fase de gravar CD pra consolidar isso, fazer essas correrias. Um passo de cada vez.
 
Dissonância - É justamente sobre isso que eu gostaria que tu falasse agora. A banda está em estúdio preparando a sua primeira demo. No site da banda estão disponíveis três músicas para download. Essas três músicas vão aparecer na demo? Serão regravadas ou as mesmas versões disponíveis para download constarão no trabalho?
 
Kverna (Coeso) - Das três músicas que estão no site para download, acho que a única que vai estar na demo é “Apatia”. A gente vai regravar essa, outra mais ou menos nova chamada “Intervenções”, e estamos fazendo ainda mais dois sons, porque a gente ainda não sabe se na demo vai ter quatro ou cinco faixas. Talvez a gente coloque quatro e mais um vídeo com uma música, um vídeo legal, de show mesmo. Isso a gente não decidiu ainda. Vão ser quatro ou cinco músicas apenas, mas queremos fazer algo com uma qualidade ótima, muito boa mesmo.

 

  Tá pra ir ao ar o site novo também, com mais fotos, e quem sabe em seguida a gente coloque um desses sons novos pra galera baixar. A gente tá indo com calma, não temos previsão de lançamento, mas acho que o site novo deve estar entrando no ar em três semanas.
 
Dissonância - Quais os temas que terão mais ênfase nesse futuro lançamento da banda?
 

Kverna (Coeso) - “Apatia” fala de como as coisas acontecem, de quando há força conjunta num trabalho, e mesmo assim as pessoas baixam a cabeça; as coisas acontecem na nossa frente, a gente simplesmente fica apático, deixa aquilo passar e, por preguiça ou comodismo, não faz nada e fica por isso mesmo.

 

  “Intervenções” fala sobre a questão dos EUA entrarem em outros países sem qualquer autorização do povo, e lá criarem quartéis-generais para impedir uma guerra civil, onde o povo se sente desesperado e não tem a quem clamar, e também não tem quem aclamar, pois não confiam mais em ninguém. Daí os EUA se acham no direito de chegar nesses lugares e instalarem as suas bases com seus cupinchos militares.

 

  Ainda estamos trabalhando nas duas músicas novas algo sobre temas sociais, coisas que nos incomodam, passar alguma coisa pras pessoas que forem ler e ouvir o trabalho possam refletir, que venham trocar idéias com a gente sobre esses problemas que afetam todos nós. O conteúdo das letras vai ser bem forte, bem político, contra esse pessoal que é contra os movimentos sociais e as pessoas que querem fazer algo pra mudar de fato, por uma sociedade mais justa. Todas as nossas letras são feitas de coração.


 

Dissonância - A maioria dos shows de hardcore em Porto Alegre privilegia as vertentes melódica e emo. Há alguma dificuldade em se fazer um metal core como vocês fazem por aqui, seja em termos de organização do pessoal, quantidade de bandas, etc?
 
Kverna (Coeso) - Cara, eu gosto de alguma coisa emo, eu gosto de alguma coisa melódica, me condenem, me batam (risos)... Acho que não há dificuldade, mas tipo, acho que tem mais público se a banda for mais emo ou mais melódica, acho que isso até ajuda, não temos nada contra.

 

  De fato há menos público pra bandas como a Coeso, que tocam um hardcore com mais peso, mas se fizer alguma coisa bem divulgada, rola. A gente poderia tocar para um público num lugar como um ginásio e acabar se decepcionando. Por outro lado, se a gente tocar num lugar menor, pra menos pessoas e esse público for legal, tá ótimo. Eu gosto de tocar em lugares pequenos mesmo. Eu acho que pode-se misturar sim as sonoridades.
 
Dissonância - Muitos shows esse ano aqui em Porto Alegre tiveram uma mistura dessas três vertentes que mais se destacam no hardcore de hoje em dia: true hardcore, hardcore melódico e emocore. Tu acabastes de afirmar que acha a mistura de sonoridades algo positivo. E a mistura de públicos? Tu acha que uma pessoa que vai num show pra curtir uma banda emo ou melódica pára pra ouvir uma banda mais pesada e com letras que visam a conscientização da galera sobre vários temas?
 
Kverna (Coeso) - Ninguém pára! Nem o nosso público, seja punk, seja straight edge, seja skinhead, seja o diabo a quatro... Ninguém pára! O cara pode estar ali gritando “o demônio é o nosso rei” ou “salve, salve aleluia” que todo mundo vai dizer amém... Mas aí é que está, entre as nossas músicas a gente conversa, fala sobre nossas letras, expõe nosso ponto de vista e sempre abre o microfone para que outros cheguem até ali e também exponham seus pontos de vista.

 

  A gente tá num palco, mas a gente é o mesmo tipo de pessoa que aquela galera que tá ali, a gente também é público. Se os caras quiserem falar sobre amor, sobre o que for... Beleza cara, a gente respeita se os caras sentem isso, mas a gente não quer falar sobre isso. Se a gente conseguir agradar a galera com o nosso som, que ótimo... Se não conseguir, foda-se, paciência...
 
Dissonância - O hardcore de Porto Alegre está dominado pelo modismo emo no momento. O que vocês acham disso? É uma tendência que veio para ficar ou é uma moda como outras que surgiram e vai passar? Isso tira público de vocês? Tem algum tipo de concorrência ou não?
 
Kverna (Coeso) - Acho que não tem concorrência. Se as pessoas querem se vestir assim, se sentem confortáveis assim, paciência, cada um, cada um. Só acho que as pessoas têm que ter personalidade, sei que todo mundo tem a sua idade, a sua época, sabe... Se o cara se sentir bem naquele momento, se o cara estiver vestido de palhaço, de hardcore ou de metal... Se o cara se sentir bem, paciência... Agora, se o cara faz isso por moda ou porque viu na TV, eu acho que esse é o tipo de cara com quem a gente tem que conversar mesmo, se é que ele quer conversar, e mostrar pra ele que aquilo que ele quer ser não é exatamente aquilo que ele é.

 

  Essa moda não chega a me emputecer, mas se algum dia essas pessoas se arrependerem, paciência, cada um tem que ter sua personalidade, características, caráter... E seguir com a sua vida.
 
Dissonância - Como tu disse antes, os questionamentos políticos que aparecem nas letras da banda não são absorvidos pela totalidade da galera através do som e dos discursos da Coeso nos shows. Isso acontece com a maioria ou com alguns apenas? Vocês percebem, após cada apresentação, que a exposição do público ao som de vocês surtiu efeito?
 
Kverna (Coeso) - Olha, eu acho que só vai surtir algum efeito mesmo no dia-a-dia. Eu pessoalmente levo muito em consideração o que a gente toca e sempre procuro trocar idéias sobre as nossas letras com o pessoal. Se surtiu efeito naquele momento é difícil dizer, só vai surtir efeito se a pessoa for aplicar aquilo que ela ouviu no dia-a-dia dela.

 

  Eu sou um cara que foi atingido por letras. Eu optei pelo vegetarianismo depois de ouvir músicas com letras pró-vegetarianismo. Eu optei por não me drogar por ouvir letras. Esse meu lado mais crítico, a mesma coisa. É por isso que eu acredito, e se o que eu estiver falando atingir uma ou duas pessoas já está mais do que bom, vou ficar muito feliz. É o que eu sempre digo: a banda é o resultado do que eu ouço, do que o Gabriel ouviu, do que o Diego ouviu, do que o Néco ouviu, do que o Dudu ouviu... A gente não tá aí pra ser um exemplo, a gente tá aí pra passar uma idéia. Se as pessoas concordarem com as nossas idéias, beleza, teremos mais amigos e parceiros. Se as pessoas não concordarem, paciência, o mundo não é feito só de bandas como Coeso.
 
Dissonância - Kverna, pra finalizar, espaço aberto para falar o que tu quiser e mandar um recado para os leitores/internautas do Dissonância.
 
  Bom, a gente tá muito feliz com o momento da banda, com o que tá rolando, shows, gravações. Queria convidar todo mundo a comparecer nos nossos shows e também prestarem atenção no nosso site. Toda música que tem pra baixar tem também a letra. Então, depois que baixarem as músicas, dêem uma lida nas letras, vejam o que vocês acham e venham trocar idéias com a gente.

 

  Nosso site está aí, www.coeso.net. Queria também te agradecer Ferrony, pela entrevista e também por tu ter feito as nossas fotos, que ficaram bem bacanas e em breve vão estar no site novo. Agradecer a todas as bandas que tocaram com a gente até hoje e dizer que a gente tem um respeito por essas bandas e nossos amigos. É isso aí, Coeso é união, Coeso é hardcore.
 

 



 


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