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V Fórum
Social Mundial
Um pouco do que aconteceu nesta
quinta versão do Fórum Social Mundial poderá ser visto na seqüência... Não,
nada de tomadas aéreas, entrevistas com ministros ou aquele papo
descontraído com o Saramago. Nada. O que não quer dizer que tenha sido por
opção, e sim por circunstâncias.
Serão doses à la amostra grátis - únicas. E isso pode ser bom,
afinal, são duas pessoas que não combinaram essa junção de impressões.
Imagens, visões, tudo bem longe dos "dogmas tecnofacistas", permita-nos o
Camisa de Vênus... Quer dizer, ahã, passavam tirando tinta do travessão, mas
felizmente não marcavam o gol, pelo menos em nosso time. Se perdeu a
oportunidade de ver o jogo, veja o "vt" com os melhores momentos... Detalhe:
a edição é nossa!
* Ângulo Fórum
*
Por
Ricardo Alexandre "Guerrillero"


Nada como um dia após o outro...
Por
Ricardo
Alexandre "Guerrillero"
Nada como um dia após o outro... 2003, terceira edição do Fórum
Social Mundial e entre quilos de esperança, cá estava eu com os meus. Vendo
pela primeira vez, o colorido das bandeiras, as vertentes ideológicas (ou
não), governo de "esquerda" recém-chegado ao poder, um algo a mais pairava
no ar. E continuamos com aquela pergunta: outro mundo é possível?
Pergunta assim tão abrangente sempre ampara um 'tem', em
contrapartida, suscita o incômodo em vários. Já disse um incitativo autor
inglês, traduzindo, que para cada êxito, 10 inimigos conquistados, o que me
fez lembrar do ócio insuspeito. Ah, quando esse tipo de ócio entra em cena,
sai de baixo. Contamina quase tudo o que estiver pela frente.
O tempo que precedia o ato inaugural, a Marcha de Abertura no dia 26
de janeiro, apresentava-se impregnado de má-disposição perante os
preparativos do famoso encontro mundial. Fórum do PT; a prefeitura
que deveria gastar esses tantos milhões em infra-estrutura para sei lá o quê;
shopping de Che Guevaras... Esporadicamente um gringo sendo abrigado
por alguma família em Porto Alegre; o comércio e a rede hoteleira que irão
faturar altíssimo... Caso você cruzasse com informação sobre o Fórum, seria
possível o assunto ser esgotado nestes poucos itens. Nem o mais cético
seguidor partidário ficava imune ao resmungo, àquele colapso carrancudo
que se tem quando há intromissão por parte dos alheios. Ou mal-intencionados
formando opinião, tanto faz.
Mesmo sob a febre ocasionada por esse tipo de argumento, sabia que o
"uso do capacete" já evitaria danos maiores. Logo ao chegar e perceber o
ambiente, quem iria perder tempo com espasmos? Paraíso chegando? Óbvio que
não. Outro mundo possível logo de cara? Hummm, mais ou menos... Difícil
acreditar que um acontecimento que atraia tantas culturas e milhares de
pessoas, seja estranho o suficiente para carregar o peso dos rótulos
atribuídos por quem ou não "perdeu" tempo para ir lá na Orla do Guaíba, ou
foi predisposto às constatações e críticas de mesa de bar.
Dentre os estupros, assaltos e drogas fartamente informados,
não precisava ser gênio para saber que os grupos de trabalho oficiais dos
fóruns estaduais, nacionais e internacionais estavam em plena atividade,
proporcionando a interação suficiente para que os membros não sejam
excluídos da economia de subsistência. Soberania alimentar, bens comuns da
Terra e dos povos, lutas sociais, desmilitarização, eles também eram ouvidos
em diversas rodas, lidos em faixas, vendidos em bancas e dados em noções nas
tendas.
Ater-se às minúcias que entravam não somente algo do porte do Fórum,
mas cada relação do dia-a-dia, é raciocínio sedentário. Por conta dos mais
de 150 mil que ali circulavam, é importante lembrar do movimento, da
composição diversificada. Das latinhas de Coca-Cola esvaziadas sob o calor
dos 40 graus aos molotovs punks; da banda de "forró-universitário" ao vivo
na tv à Dona Hebe de Bonafini (Madres de Plaza de Mayo) presente num outro
lado da cidade; da água mineral que aumentava 100% ao adentrar nas tendas à
economia solidária; da sensação de muitas vezes estar sozinho na multidão à
videoconferência que unia dois pontos não menos distantes - Porto Alegre e
Lyon (França) -, a debaterem processos culturais alternativos. Ah, pobres
jovens sem bons modos e ISO 9002...
Respostas de outro mundo
Por
Juliano Rigatti
O ano de 2001 trouxe para Porto Alegre a primeira edição do Fórum Social
Mundial. Era o início de uma caminhada organizada pela esquerda política de
todo o mundo para discutir questões centrais para a construção de um outro
mundo. Nos outros três anos que se seguiram, o Fórum voltou a acontecer em
Porto Alegre. Com a participação do público aumentando a cada edição,
chegou-se ao número de 100 mil participantes em 2003.
No ano passado, o
encontro ocorreu na cidade de Mumbai, na Índia e envolveu cerca de 100 mil
pessoas outra vez. Este ano, o recorde foi estabelecido. Segundo informações
de autoridades locais, o Fórum chegou a ter 200 mil pessoas circulando ao
longo dos armazéns do Cais do Porto, Usina do Gasômetro e parques
Farroupilha e Marinha do Brasil, locais onde o evento aconteceu. Em 2006, a
idéia é que o Fórum seja descentralizado, tendo suas discussões ocorrendo em
diversos países, simultaneamente. No outro ano, em 2007, a África vai
receber o encontro. Marrocos passa a ser a bola da vez. O país seria a porta
de entrada para o Fórum atingir os países do Oriente Médio.
Tornou-se polêmica ano passado a declaração do presidente Lula
dizendo que o Fórum tratava-se de uma “feira ideológica” e que pouco chegava
a soluções práticas. Aceita por muitos e rebatida por outros tantos, o certo
é que a questão avançou, foi discutida entre os milhares de participantes do
Fórum, entre os painéis. Em sua opinião, como um outro
mundo é possível?
Um grande mural construído no local do Fórum, expôs 352 sugestões para
tornar possível um outro mundo. As idéias foram recolhidas durante os dias
do evento e o mural tornou-se o grande símbolo dos anseios dos diversos
povos que passaram por ali.
Eu fui até lá e quis ouvir a resposta de pessoas de diferentes partes
do mundo. Muitos são os credos, as raças, as línguas que compõem a
diversidade do Fórum Social Mundial. Muitos são percebidos logo de cara,
pelo olhar curioso que examina o mapa na mão, pelo excessivo cheiro de
bloqueador solar e pela estranheza com que percebem as coisas ao redor. Os
anseios fazem todos, porém, habitantes da mesma aldeia. O sentimento é de
revolta, de urgência e de esperança.
*
Em sua opinião, como um outro mundo é possível?
Os atuais governantes do mundo, especialmente os neoliberais americanos e a
sociedade neoliberal espalhada pelo mundo todo, estão fazendo a vida mais
difícil pra maioria das pessoas do mundo. Este Fórum é uma forma de
confrontar esse ataque com os interesses de qualidade de vida e saúde das
pessoas.
Mas nós esperamos mudar essa situação que traz guerra e devastação.
E, claro, há problemas políticos como a ocupação do território palestino, do
Iraque, do Afeganistão.
(Ghassan F. Abdullah, pesquisador universitário de Ramallah, Palestina)
*****
Um dos exemplos é este Fórum. Um centro de discussões democráticas,
participações de jovens, comunicação. Um outro mundo é possível quando se
volta a atenção para os pobres, para os países do terceiro mundo. Um outro
mundo é possível sem desigualdade social, sem imperialismo, sem dominação
dos americanos, da Europa, de quem quer que seja. Um outro mundo é possível
com igualdade política. Principalmente com democracia, cara. O diálogo, a
conversa...
Acho que é importante isso. Porque, qual que é a idéia do Fórum?
Na minha opinião é essa. É reunir a diversidade num mesmo tom, que é
discutir os problemas da sociedade.
(Diogo Cavalcanti, estudante universitário de São Paulo)
*****
Eu acredito e acho que todos os que estão aqui pensam assim também, que há
aqui muita inquietude. E penso que esta edição do Fórum deu um salto
qualitativo. Que depois deste Fórum já se possa estabelecer talvez uma
filosofia, uma ideologia, um partido político...
Concordo com Saramago
quando ele fala conosco sobre as Nações Unidas... Para que as Nações Unidas
recupere essa voz plural, que é o que todos queremos. Acho que é um pouco
por aí que um outro mundo é possível. Mudar as estruturas. E o Fórum nos
mostra um grande movimento nesse sentido. Nós que estamos aqui entendemos
que se pode mudar, que se pode se ter um mundo mais plural, mais diverso,
com muito maior inclusão.
Que não seja uma coisa hegemônica, que não somente
a voz de um pretenda representar a de todos.
(Luz María Helguero de Plaza, diretora do jornal
El Tiempo, do Peru)
*****
Eu venho dos EUA, que é um país que se considera o melhor do mundo e
especialmente em termos de democracia. Mas é um país que não prioriza áreas
que eu considero importante como educação, saúde, arte e cultura. Eles se
preocupam mais com militarismo, capitalismo e consumismo. E com uma espécie
de falso sentimento de felicidade.
Então, no meu ponto de vista, um outro
mundo seria possível priorizando as coisas que eu já mencionei. Eu não tenho
certeza se pra isso nós precisamos de governo, mas no momento nós temos um
governo e eu espero que ele comece a corresponder às necessidades que eu
acho que todas as pessoas no mundo têm.
(Monika, universitária nova-iorquina)
*****
Acho que um outro mundo é possível nessa perspectiva que estamos vivendo
aqui no Fórum. Ele é possível no momento que a gente se propõe a trabalhar
duro, a se matar para construir esse mundo. Porque ele não vai acontecer do
nada e as edições do Fórum estão bem pontuadas nesse sentido...
A primeira
edição foi mais rebelde, tipo pra dizer “nós existimos, estamos aqui e somos
contra um pensamento único”. Depois a coisa foi se estruturando e eu acho
que este Fórum está bem mais maduro. Eu acabei de participar de um painel
que propõe a montagem de um Observatório Brasileiro de Mídia. Isso é
importante. Esse tipo de coisa, que nasce com o Fórum, é fundamental. Já
tinha nascido o Media Watch Global em outra edição. Isso demonstra um
amadurecimento mesmo. É claro que temos muito mais pra caminhar, mas estamos
no caminho certo.
Também vejo que a organização deste Fórum se propôs a
rebater as críticas de que do Fórum não nasciam soluções práticas. E eles
tiveram um grande acerto no momento em que eles decidiram socializar e
democratizar o próprio controle do Fórum. Dizer “vem aqui, vamos conversar,
vamos organizar”. Este foi um grande acerto. Eu até acho que as primeiras
edições acertaram em centralizar mais a organização. A gente vai errando e
vai acertando... Virão ainda muitas outras questões, mas repito que estamos
no caminho certo...
(Joice Elisa Costa, cientista
política. Vive em Pelotas/RS)
*****
Eu acredito que um outro mundo passa inevitavelmente pela leitura. Os livros
são nossos sábios, novos conselheiros. Mas infelizmente nós não temos uma
cultura que desenvolva o hábito pela leitura, o bom gosto. Acredito piamente
que a leitura é um dos principais caminhos para se construir um mundo bom.
Nós sabemos que existem ainda muitas outras questões que podem nos levar à
construção de um mundo bom. Mas acredito que elas estão mais no mundo da
utopia do que da realidade. Enquanto que a leitura pode ser tornar, sim,
realidade.
Esta edição do Fórum eu acredito que esteja mais vazia, digamos assim, de
intelectuais. Me parece que esvaziou. Eu estou vendo menos pessoas
reconhecidas, pessoas públicas, mais notórias. Estou percebendo que aumentou
o número de pessoas no evento, mas esvaziou o lado das pessoas mais
pensadoras, mas decisivas. E eu vejo este Fórum como uma grande arena para
as decisões futuras da humanidade. Seria uma pena se acabasse, porque ele é
uma grande referência para se tomar decisões futuras no planeta.
(Elias Elliot, escritor. Vive em Campinas, São Paulo)
*****
Bom, o que estamos vivendo é bastante complicado, não? É uma etapa de muita
guerra e muitas crises. Mas isso não quer dizer que não poderá haver mudança
radical e revolucionária na sociedade. Nem mesmo pelo que está acontecendo
no Iraque, na Palestina, no Haiti, o mundo não se dá conta de que cada vez
mais vivemos pior...
Um outro mundo é possível, sim. Mas temos que lutar
muito e de forma revolucionária. Para nós, o capitalismo quer destruí-lo.
Não é possível reformá-lo. Porque sua lei será sempre de mais guerras e mais
conquistas. Os maiores problemas são o imperialismo e o capitalismo.
E é
isso que queremos dialogar com os povos latino-americanos, do mundo todo,
com as pessoas que estão aqui. Acreditamos, sim, que um outro mundo é
possível. Mas há que se lutar muito.
(Hugo Verjadez, membro da Liga Socialista Revolucionária, Argentina)
*****
O FSM é um bom exemplo de como um outro mundo é possível porque você vê
pessoas vindas de diferentes países, falando diferentes línguas, não
necessariamente se comunicando, mas entendendo umas as outras, criando um
fantástico encontro internacional com tantas atividades diferentes, como
cultura, música, muito sobre política.
Eu não vejo o Fórum como um evento
pra se falar sobre como um outro mundo é possível, mas é um exemplo disso.
Como o respeito por diversidade sexual e racial. O Fórum é um exemplo dessa
possível mudança.
(Um jovem nova-iorquino, estudante de Política Americana nos EUA)
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Um outro mundo se dá a partir das diversidades. Pra isso, é preciso que as
diversidades apareçam, se manifestem. Nesse sentido, a mídia tem um papel
fundamental que é o de abrir espaço para que essas diversidades tomem corpo,
tomem forma. A gente sabe que a mídia tradicional tem já os seus interesses
delimitados e não se tem muito espaço nesses veículos.
Então, é necessária
uma articulação da cidadania para que crie esses espaços. E isso vem
ocorrendo no Brasil nos últimos tempos, com a criação das rádios
comunitárias, TV's comunitárias, os sites, os blogs. Então essa é uma
conquista importante, porque a diferentes opiniões se manifestam aí, as
idéias são colocadas e as pessoas podem, então, fazer sua opção para que
esse novo mundo comece a ganhar corpo.
No nosso caso, especificamente de uma
TV pública, esse compromisso deve ser a base de toda a programação. O
compromisso com a pluralidade das informações, das opiniões. O compromisso
com a verdade, no sentido de não tentar passar uma opinião já formada. Por
ser um canal do Estado brasileiro, ele tem esse compromisso: de ser um canal
por onde as informações trafeguem com um grau de oficialismo, de
responsabilidade. Essa preocupação toda existe também porque somos fonte de
informação para outros veículos. Nós temos convênios com outras televisões
públicas de todas as partes do mundo que retransmitem a nossa programação.
Então, nós começamos com esse sentido aqui no Fórum. Conseguimos colocar no
ar opiniões de diferentes países, procuramos sempre estabelecer debates e
entrevistas com a diversidade... Acho que vamos conseguir.
(Delorgel Kaiser, Canal TV Brasil Internacional)
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