Parte 1

                                                                       Por Éverton Luiz Cidade
                                                                   Imagem:
Sérgio Rodriguez



 
Foi depois que tive problemas no paraíso que resolvi deixar para trás as máquinas e a carne podre.

  Primeiro passo: seringas e café-com-leite.

      

  Estive tão mundano, por muito tempo ocioso. Minha fé me clareou por algum tempo. Sou feito de José Ventura e sou feito de Carlito Cidade e de Maria de Lourdes. Sou fritura em gosto. Segundo passo: ódio.

  São Francisco de Assis me perdoe. Mantive minha promessa. Mas sou couro e resignação. Sou osso e uma alma que de nada vale. Eu sei. Todos sabem. Enquanto espalho camisetas e camisas de vênus no chão do teu apartamento, que cheira a buceta sempre, cheira a foda. Sempre, conto cada osso da tua coluna vertebrada e  mordo o lábio pra que saia um pouquinho de sangue. Quando sobe em mim e aperta tuas coxas nas laterais do meu corpo, não é comigo que fode. É com outro que tem a minha cara e o meu cheiro. Mas não sou eu. Eu já não sou. Nunca fui. Quando teu rabo mole pede trégua, não sou eu que te abraço. É outro com o teu suor na pele fria. Sou um cordeiro. Esse aí é outro que tem a minha cara e o meu cheiro. Mas não sou eu. Eu jã não sou. Nunca fui. Quando me chupa, pra que me pau de novo endureça, não sou eu, é outro que ofega e diz "putinha, que bom".  Esse aí que te põe de quatro e pensa em te machucar, que penetra com raiva e angústia, é outro com a minha raiva e a minha angústia. Teu rosto ainda é o teu, mesmo que distorcido, conserva a mesma pele e os mesmos ossos. Quer mais. Esse outro que não sou eu te dá mais. E mais ainda. Porque a raiva nunca se esgota.

  Tuas tetas já tocam o travesseiro quando geme fundo. E já é toda fedor. Já é toda bicho. Já é toda o que sempre foi. Fica de pernas escancaradas pra que eu lamba teu gozo misturado com a porra recém-liberada. Mas não sou esse que te lambe. Esse que lambe teu gozo. Não sou eu. E essa porra não é minha. É outro que te aperta os bicos do seio com satisfação e violência. Esse aí, que bate as bolas no teu entrepernas com sofreguidão e paixão bélica.

  É outro com a minha cara e a minha raiva. Eu sou um cordeiro quando teus calcanhares se juntam nas minhas costas. Minhas costas não são minhas costas. Minhas costas são arqueadas e cansadas de carregar asas que não eram minhas. Asas pesadas que não eram minhas, mas que também não eram esse que aí está com a minha cara nos teus seios redondos. Vencido. Acabado. Com pentelhos úmidos e dentes trincados. Vira de bunda pra mim, quer que eu a abrace. Mas não sou eu que abraça com nojo e má vontade. Eu sou um cordeiro suplicando amor. Esse aí é outro. Com a minha cara e com meus vícios. A bunda dela é boa. Grande. Macia. Acostumada a palmadas. As lambidas e até queimaduras com cigarro. Coxas firmes, tetas imensas, cintura fina. O pau se aquieta e descansa no rego quentinho que é oferecido. Rosto sobre rosto. O sono. Esse aí que não sou eu, preferia estar dopado, pois não dorme quase nunca. Não sente a harmonia das coisas fúteis o acalentando. Esse aí que não sou eu. É outro com a minha cara e a minha raiva, não tem sossego, não tem descanso porque eu não lhe dou. Descanso. Minha voz soa eterna e ininterrupta no seu crânio doente.

  Tem fome. Tenho fome. Vai tomar um banho. Esse que não sou eu fica ainda deitado, rindo sozinho. Assim como eu, tem 3 cicatrizes. Revira os livros e as revistas dela. Acha fotos dela quando mais jovem e a ternura o golpeia. Ternura essa logo rechaçada, que não é ternura o que queremos. É raiva, ódio e fraturas. Houve época em que não éramos assim, eu nem esse outro que não sou eu. Já tivemos uma luz nos envolvendo, luz quente e santa. Luz automática. Onde perdemos essa luz que fulgurava e agora, escassa, nos abstrai da felicidade com selvageria e rancor? Nós somos o eclipse, o apocalipse e uma piada sem graça. Somos o que leva todos que amamos pra obscuridade. Somos a merda sob a corda e o cetro dourado. Somos o que nos tornamos, sem escolha ou coragem. Somos a gafe e a vergonha em expansão. E mais do que isso, somos raiva e angústia. Mas esse que aí está não sou eu. Porque eu já não sou. Nunca fui. 
             



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