Diana

 

                                                                            Por Alessandro Ferrony
                                                                                       Imagens:
Ferrony e Divulgação

 

  Chuva fina batia na janela e trazia uma ponta de esperança praquela garota de olhos castanhos, tão miudinhos que quase desapareciam em seu rosto. Era nova, mas tinha uma experiência de vida que poucos alcançam, mesmo quando se chega à velhice. Passara por poucas e boas durante a adolescência vigiada pelos pais adotivos e agora, no início da fase adulta, só pensava em devolver à sociedade tudo aquilo que ela tinha lhe oferecido.

  Presa a uma redoma de frustrações e delírios doentios, Diana sabia que aquilo não ia durar para sempre e que todo mal um dia acabaria. Tinha pensamento fixo nisso. Aos quatro anos de idade, fora submetida aos maus tratos de um velho peão de estância de São Borja, onde passara sua infância e início da adolescência. Imagine, quatro aninhos e o cu arrombado inúmeras vezes por um verme de mãos ásperas e uma enorme cicatriz no rosto.

  Venâncio era seu nome. Contratado por Edite e Adroaldo, os pais de Diana, costumava aproveitar os intervalos das lides rurais barranqueando éguas e maltratando a pobre criancinha que, com o tempo, foi se apegando ao tenebroso hábito. Triste sina da menina que mais tarde sonharia em ser comissária de bordo e trocar sua obsoleta terra natal por Karlsruhe, quem sabe Copenhague, lugares lindos que ela conhecera através de velhas enciclopédias... Mas quis o destino que ela fosse parar em Alvorada.

  Pois foi justamente nessa terra de bailões, homicídios e haréns de empregadas domésticas que Diana encontrou seu chão. Sua mãe morrera e seu pai tinha paradeiro desconhecido. Defendia-se com o que lhe restava numa poupancinha mirrada que sua mãe abrira na Caixa Econômica Federal quando de seu nascimento, mas sabia que aqueles parcos tostões não durariam por muito tempo.

  Teve sorte. Arrumou um empreguinho de passadeira numa lavanderia da cidade. Sorriu ao ser contratada e sentiu-se vencedora ao receber essa função pois, teoricamente, passaria distante das cuecas borradas de clientes relaxados e flatulentos. Borrifava o amaciante com aroma de lavanda na tábua quente e sentia-se no paraíso.

  Da tábua passou ao balcão, e foi aí que seu destino começou a mudar de forma brusca. Semanalmente, um homem de aparência rude, jovem, mas com cabelos grisalhos e de baixa estatura, resmungava palavras a ponto de conseguir fazer com que Diana somente entendesse que ele desejava que suas peças fossem apenas lavadas e secas, nada de passar. Achava estranho alguém preferir sair por aí com roupas amarrotadas, mas resolveu deixar pra lá.

  Era uma quinta-feira nublada quando José Adão, com uma mochila cheia de camisetas, meias, toalhas e um velho calção de algodão entrou na lavanderia. Como sempre, Diana foi lhe atender e, na hora de colocar os panos em cima da balança, José Adão lhe dispensou um sorriso assassino e um olhar de bandido, estendendo um bilhete em sua direção. Diana guardou o papelzinho no bolso e decidiu que leria só em casa.

  “Me encontre no sábado às seis horas na praça João Goulart, do lado da cancha de futebol de areia. Com amor, J.A.” – dizia o bilhete pouco inspirado, porém, direto.

  Na ilusão de ter encontrado alguém que lhe desejasse de verdade, vestiu a sua melhor blusa, comprada num saldão daquelas lojas de turcos e borrifou algumas gotas de Alma De Flores em suas axilas e na nuca, exalando aquela sensualidade típica de sereia suburbana. Exatamente às seis da tarde, lá estava Diana, com seus passinhos pequenos, caminhando ao redor da cancha de areia, deserta, à espera de José Adão.

  Não demorou muito e lá estava aquele homem tosco descendo na parada de ônibus ao lado da cancha, com um chapéu de gaúcho e uma rosa vermelha, solitária, nas mãos. Um buquê seria demais para seus parcos ganhos como frentista num posto que só vendia gasolina adulterada. Mesmo assim, Diana adorou. E não foram necessárias sequer duas palavras. Bastou uma troca de “ois” engasgados de ambas as partes e um silêncio posterior, que durou cerca de dez segundos, para que o primeiro beijo acontecesse. Pois foi aquela troca de saliva proletária o suficiente para que José Adão se revelasse para Diana – “quero estar dentro de ti” – proferiu com seu desejo mais ardente.

  - “Fica frio que eu tenho a chave, vamos lá pra lavanderia”, disse Diana. Há tempos ela sonhava em realizar essa fantasia em seu local de trabalho, e lá se foram os dois, apressadamente. Já dentro da lavanderia, José Adão arrancou a blusinha de Diana, deitada sobre a tábua, sua amiga mais íntima. Com a calcinha de lacinho rosa já nas canelas, fez uma súplica a José Adão: “me chupa com força”. E era com a língua que J.A. sabia trabalhar. Mordiscou aquele capozão gordinho, engoliu um pouco daquela bem cuidada penugem e lambeu o grelo da mocinha com sofreguidão até que, embriagado com aquele sabor de suco de abacaxi quente na garganta, decidiu penetrá-la.

  Mas foi aí que as mais remotas lembranças da menina começaram a aparecer. “Na buça não, Adão, na buça não... Só no cu, é no cu que eu gosto, é no cu que eu quero.” Aquilo foi um choque para José Adão. Ainda que mal tivesse começado aquela relação, já considerava Diana como sua esposa amada e não admitia que mulher sua quisesse dar o botão assim, de prima. “Tu não é de confiança. Mulher não pode dar cu na primeira transa, ainda mais mulher minha”. “Mulher sua?” – respondeu Diana. “Eu sou é de Venâncio!”.

  “Venâncio? Quem é Venâncio?” Diana não teve tempo para responder. José Adão pegou-a pelo pescoço lilás de tanta raiva, e sentindo-se traído. Pouco mais de um minuto de pressão foi o suficiente para que o animal matasse Diana. “Viu sua puta, viu?”, gritava ele para o cadáver fresquinho. “Tu queria no cu, então é no cu que tu vai tomar, putana”.

  Escorou o corpo dela em pé, com a cabeça dentro de uma das máquinas de secar e bombou sua mangueira freneticamente, para dentro e para fora daquela já pálida porteira anal. Terminado o serviço, deitou o corpo de Diana no piso frio da lavanderia e, antes de limpar o pau nos lençóis de uma creche que tinha convênio com o estabelecimento, enfiou a flor com a qual tinha lhe presenteado no cu dela, e despejou todo o seu néctar albino na cara da infeliz.

  Um péssimo começo, e um triste fim, para um romance entre chinelos...

  Moral da estória: uns morrem com espinhos na cabeça, outros...
 


 


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