Tem gente de Porto Alegre?


                                                  
                                                                                
   Por
Marcos Sosa
                                                                                                      
Imagem: Reprodução

 

  Mick Jagger mencionava a cidade de Porto Alegre no show de Copacabana do último dia 18, e eu custei a acreditar. Entre os colegas que estavam junto, no calor da hora, não faltou quem sugerisse: "O Mick Jagger é gaúcho!" – revisitando, desse modo, nossa velha fórmula gaudéria e autocongratulatória, que não tem jeito mesmo, porque afinal o Papa, Deus e seja lá quem mais, todos eles são gaúchos.

  Mas o fato é que o show dos Rolling Stones foi gigante, imponente, fosse Mick Jagger gaúcho ou não. Que importa? A começar pela seleção de repertório, uma espécie de espinha dorsal de 40 anos de história de banda e, por conseqüência, de 40 anos de essencial entre as mais importantes canções que o rock produziu até hoje.

  Só pra citar, sem deixar passar em branco: a inacreditável abertura com “Jumpin’ Jack Flash”, seguindo-se de outros hinos como “It’s Only Rock’n’Roll”, “Wild Horses”, “Sympathy for the Devil”, “Start Me Up”, “Brown Sugar”, e o incrível fechamento com “Satisfaction”. Mais: para que ninguém viesse a dizer que os Stones vivem da mais pura e simples nostalgia ou de hits arcaicos, também estavam lá algumas das faixas do último e vigoroso CD, “A bigger bang”, de 2005.

  Em meio a tudo isso e mais um pouco, a maior compensação pra quem conhece algo de guitarra foi a oportunidade singular de poder ouvir Keith Richards em cima do lance. Para mim, que tenho alguma passagem mínima pelas 6 cordas, foi uma experiência definitiva: a uma devido às proporções do concerto, a duas porque travou-se ali um momento dedicado para a audição de um guitarrista que influenciou gerações de músicos e de apreciadores de música, com sua afinação aberta, riffs crus e enraizamento bluesy.

  De volta a Porto Alegre (cidade privilegiada entre as quatro geografias mencionados por Jagger), algumas coisas ficaram claras: Porto Alegre e Bahia (as duas únicas menções fora do centro do país) têm uma forte tradição rocker: da Bahia, Raul Seixas e Marcelo Nova são dois exemplos em si mesmos; e daqui da ponta do Brasil poderíamos falar, a título de ilustração, no recente aporte nacional da Cachorro Grande, uma grande banda, que é o que é: música que não tomou conhecimento de frescuras modernas, tocada por músicos que preferem amplificadores valvulados, discos de vinil, e intitularam o último CD de “Pista livre”. A Cachorro Grande é uma das bandas mais Rock 'and' Roll que o Brasil já conheceu. Leia-se como se queira, mas na minha leitura há, na menção de Jagger, uma referência implícita aos lugares onde se faz e se curte rock neste país. Sim, Porto Alegre, a exemplo da Bahia, e das duas cidades gigantes que são Rio e São Paulo, tem café no bule.

 


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