A Voz do Rock

 

Entrevista com Percy Weiss
 



                                               
                         Por Marco Antônio Filho
                                                     
                          Fotos: Reprodução + André Peres



  Com sua voz rouca e cheia de malicia, Percy Weiss fez história no rock brasileiro. Pertencente à geração anterior ao “boom do rock nacional”, foi vocalista na fase áurea do Made in Brazil, gravando o clássico disco Jack, o Estripador. Poucos anos depois gravou com a Patrulha do Espaço o primeiro disco após a saída de Arnaldo Baptista, que ficou conhecido como o “disco preto”, e é considerado um marco do rock e da música independente no Brasil.


  Hoje, após alguns anos longe dos palcos, Percy retoma sua carreira com novos projetos. O primeiro é a Percy’s Band, que já esta em fase de gravação de seu primeiro cd. O outro projeto é o retorno da parceria com a Patrulha do Espaço. Após uma reestruturação na formação da banda, o eterno baterista e líder da Patrulha, Rolando Castello Júnior, convidou Percy para assumir novamente os vocais.

  Em uma noite fria em pleno carnaval, a nova formação da Patrulha do Espaço apresentou-se para o público do Festival Psicodália [leia sobre os quatro dias de música, natureza e diversão do festival aqui]. Horas antes da apresentação arrasadora da Patrulha, Percy conversou com o Dissonância e contou sua trajetória, desde os tempos de menino, quando cantava para se livrar da gagueira, passando pelos gloriosos anos setenta, até sua atual volta ao cenário roqueiro.

 

 

 


                   
                           De volta à Patrulha, no Festival Psicodália (2006)

 


 


Dissonância - Como é que ocorreu essa tua volta à Patrulha do Espaço?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) - Essa volta à Patrulha surgiu em função da minha volta a São Paulo. Estive fora de São Paulo por cinco anos e meio, mais precisamente em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Estava desenvolvendo um trabalho com importadoras de instrumentos musicais, o que fiz por muitos anos, mas que não tenho feito mais.


  E essa volta implicou em novos contatos com o Júnior, e também com o pessoal do Made in Brazil, com quem tenho feito participações especiais. Ao mesmo tempo criei uma banda que leva o meu nome, a Percy’s Band.


  Por ocasião da reformulação da Patrulha, o Júnior me convidou pra retornar à banda, coisa que me agradou muito. Tanto é que nós estamos aqui, já fazendo shows há alguns meses. Já fizemos em várias cidades por aí. E eu gosto muito da Patrulha, me identifico com o estilo de rock dela. Então tem sido um prazer estar tocando com o Júnior, com o Ricardo e com o Vagner [nota: Ricardo e Vagner são respectivamente os atuais guitarrista e baixista da Patrulha do Espaço].

Dissonância - Em que situação está a Patrulha? Já estão compondo material novo?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) - Não. Na verdade a gente montou o show há pouco tempo. E se isso vai evoluir pra novas composições e pra um novo disco é difícil dizer.

Dissonância - Não tem nada programado ainda...?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) - Não. É difícil dizer, mas é algo inerente a estar tocando junto. Tem grandes possibilidades realmente de a gente vir a desenvolver um material em breve.


  O que acontece é que, por enquanto, nós estamos muito separados. O Ricardo e o Vagner moram numa cidade, o Júnior mora noutra, e eu noutra. Talvez, com a continuidade dessas apresentações, a gente consiga reunir um material. Mas não estamos com esse compromisso no momento.


  No momento estamos principalmente com um compromisso de dar continuidade à saga da Patrulha do Espaço. Não deixar a chama morrer. Fazer um show que seja o mais representativo possível dessa carreira - que eu acho gloriosa. Eu participei de uma fase da Patrulha, mas a Patrulha por si só fez um trabalho fantástico. O Júnior é um herói do rock.

Dissonância - Na verdade tu gravou dois discos com a Patrulha do Espaço, né?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) - Na verdade eu gravei o primeiro disco após a saída do Arnaldo Baptista. Esse disco que é um marco, né? Depois, em 92 gravei o Primus Inter Pares. Além disso, fiz gravações que ainda não chegaram a disco nenhum. Foram gravações feitas em 95. E participo daquela coleção de cd’s, o Dossiê, que resgatou esses trabalhos todos, que só haviam saído em LP.

Dissonância - Já que a gente falou de passado: como é que o rock entrou na tua vida?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) - Ah, veja bem: eu sou o caçula de quatro irmãos. Então na minha casa, quando eu tinha uns 12 anos, a minha irmã mais velha já tava ouvindo Beatles e Rolling Stones, cê entendeu? Então veio naturalmente mesmo. Já tinha Jovem Guarda na tv...


  E te falo uma coisa: eu sou roqueiro bem radical mesmo. Eu comecei a gostar de rock desde garoto, e sempre gostei de rock, e praticamente só gosto de rock. Não que não goste de jazz, funk e tal. Mas pra eu cantar é rock. Não tem como ser diferente.

Dissonância - Quando que começaste a cantar?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) - Na verdade o que aconteceu foi... (pausa) Olha foi uma história interessante. Eu já cantava desde criança em casa, porque eu era muito gago. Muito, muito mesmo. Então o único jeito de me libertar momentaneamente dessa gagueira era cantando. Mas quando eu me interessei por música, eu me esqueci desse detalhe e fui aprender contrabaixo.


  Eu tinha uma amiga no Brooklin, onde eu fui criado em São Paulo - apesar de que sou carioca, vim para São Paulo com cinco anos de idade - e ela namorava um guitarrista bastante conhecido na época, o Egídio Conte. Ele mantinha uma guitarra e um amplificador lá na casa dela, e sempre que estava lá eu tocava. Então um dia ele, chateado de estar sempre tocando sozinho, falou: “Porra, eu tô cansado de tocar sozinho. Cê não canta nada Percy? Canta alguma coisa aí!”. Daí nós começamos a tirar algumas músicas.


  Logo depois eu comecei a formar conjuntos informais na escola, a tocar em festas, e a coisa evoluiu para um grupo que eu formei no Brooklin.

Dissonância - E daí como é que tu acabaste entrando para aquele circuito do rock de São Paulo?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) - Em 72 esse nosso conjunto foi procurado por um músico que estava querendo conquistar um contrato para tocar nas domingueiras do Esporte Clube Banespa. O cara conhecia o nosso grupo lá do bairro e veio nos convidar para participar dessa banda que ele estava formando.


  Então eu comecei a cantar profissionalmente em 72, com 17 anos de idade. A banda estreou nessas domingueiras de fevereiro e tocou até o fim de outubro. A banda chamava-se U.S. Mail: “Correio dos Estados Unidos”.


  Ali tive a oportunidade de começar minha carreira de cantor sobre os auspícios de um contrato profissional de um clube grande, com um equipamento e uma infra-estrutura de primeira. O resultado foi tão bom que chamou a atenção de muitos músicos. Inclusive do Oswaldo Vecchione, do Made in Brazil, que quando precisou de um cantor em 75 foi imediatamente atrás de mim.

 

 

 

 

 
Made in Brazil na época do disco

 “Jack, o Estripador”: Oswaldo, Celso, Percy e Fellini

 



Dissonância - E a época do Made in Brazil, como é que foi? Foi uma época de muito sucesso e fama...?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) - É, o Made in Brazil na minha carreira profissional foi muito importante. O Made era um conjunto muito profissionalizado já pra época. Eles vinham de uma experiência de oito anos. Então eles tinham um puta equipamento e uma puta iluminação. Tudo próprio. Coisa que as bandas hoje nem tem mais. Eles se preocupavam com o mis en scene, com figurino, com uma série de detalhes, cê entendeu? E tiveram um disco de estréia muito bom - com o Júnior da Patrulha de batera, inclusive. Então foi ótimo pra mim, porque eu aprendi muita coisa. Mas também foi um desafio muito grande.


  O que aconteceu é que fui ocupar a vaga de um cara muito importante no rock paulista e um cantor insuperável, o Cornélius. Então tive alguma dificuldade no começo, porque os fãs do Made eram muito vidrados nele. Mas graças a Deus a gente soube se impor, se colocar e conquistar esse público todo. E, para minha sorte, eu gravei o Jack, o Estripador, que talvez seja um dos melhores discos do Made. Fez muito sucesso na época. Foi eleito melhor disco do ano pela mídia. Eu mesmo tive o prazer de ganhar o prêmio de melhor cantor revelação daquele ano numa eleição popular. E, por incrível que pareça, com Rita Lee em segundo lugar e Belchior em terceiro.


  Além disso, o Made me deu a oportunidade de conhecer grande parte do Brasil e de enfrentar platéias incríveis. Chegamos a tocar pra 12 mil pessoas no Corinthians, num show junto com Rita Lee e Zé Rodrix. Fizemos uma turnê sensacional junto com A Chave, uma banda maravilhosa lá de Curitiba. Percorremos muitas cidades aí. Foi um ano muito bom pra nós. O ano de 1977 foi muito bom também, onde fizemos mais de setenta shows.


  Mas logo, em 78, eu já estava na Patrulha.

 

 


 

                     

                       Em ação com o Made no show “Massacre” - 1977

 



Dissonância - Essa saída do Made pra Patrulha, como é que se deu?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) - O Arnaldo tinha deixado a Patrulha por uma série de motivos de saúde... Por motivos de força maior, particulares. E o Cockinho [nota: Oswaldo “Cockinho” Gennari, primeiro baixista da Patrulha do Espaço.], que era meu amigo, foi me convidar pra tocar com eles. Passou praticamente uma semana indo bater na minha porta, todos os dias.

Dissonância - Tu ainda estavas no Made nessa época?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) - Sim, eu ainda estava no Made. Aí aconteceu o seguinte: o Made estava numa época muito boa, com o Wander Taffo na guitarra e o Juba na bateria. Mas houve um desentendimento deles com o Oswaldo, e eu só soube disso quando ambos já tinham deixado a banda. Nisso, dois novos integrantes já vinham entrando e eu não havia sido consultado. Eu não gostei disso. Mas foi uma porta que se abriu pra eu ter ímpeto de sair do Made e entrar na Patrulha do Espaço. E foi uma coisa assim: eu saí segunda-feira do Made e terça já estava na Patrulha.

Dissonância - Como é que foi essa mudança? Era muito diferente tocar na Patrulha do Espaço?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) - Bom, a Patrulha era uma banda que funcionava de uma forma totalmente diferente do Made. A Patrulha tinha... (pausa). Era uma coisa mais louca, entendeu? Mais louca mesmo. Era uma banda de maluco. Isso sempre me agradou neles.
 

  Na época a gente foi pra um sítio e ficamos lá uma semana compondo e tocando. Tocávamos de manhã, de tarde e de noite. Só parávamos pra jantar. Era genial aquilo. A gente compôs grande parte do material do primeiro disco nessa ocasião.
 

 

 


                    

“Uma banda de maluco” - Patrulha do Espaço em 78: Cockinho,

Rolando Castello Jr., Dudu Chermont e Percy

 



  Nós ensaiamos também num pequeno estúdio que foi construído dentro da loja do pai do Júnior, na rua Augusta. Foi um negócio muito legal.


  A Patrulha do Espaço tinha uma proposta diferente mesmo do Made in Brazil, entendeu? Era uma banda diferente. Eu compus com o Made, mas acho que compus muito mais com a Patrulha.

Dissonância - Bom, mudando um pouco de assunto: particularmente, tenho a impressão de que o rock feito no Brasil pela tua geração, nos anos setenta, não é devidamente reconhecido e valorizado pela importância e qualidade que teve. Hoje só se fala no rock dos anos oitenta, como se ali tivesse começado o rock brasileiro.

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) -  É verdade...

Dissonância - Tu te sentes injustiçado com isso?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) - Na verdade é o seguinte: alguém sempre tem que começar as coisas, né! E provavelmente, depois que essa coisa estiver aperfeiçoada e assimilada, quem vai se beneficiar é quem está vindo atrás, rodando por essa estrada já aberta e asfaltada. Então, o que aconteceu foi que, quando as gravadoras sentiram a importância real do rock, e começaram a dar uma atenção maior, foi nesse momento que acabaram surgindo bandas novas. E você sabe que quando uma gravadora vai investir ela geralmente procura o novo. Acontece muito de eles pegarem gente desconhecida e transformar em celebridade. É isso o que as gravadoras fazem. E fazem porque é muito mais fácil para uma gravadora manipular um grupo de jovens ingênuos do que músicos tarimbados, que não aceitam certas ingerências e que fazem certas exigências.

 

  Foi isso o que aconteceu...


Dissonância - E hoje em dia tu anda ouvindo bandas novas?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) - Olha, sempre que eu posso... Exemplo: um dia desses fui cantar com o Made e tinha uma banda de abertura, o Tomada, que eu gostei muito. Ganhei um disco deles que eu ouço bastante. Sim, tem bandas novas que eu ouço e que gosto... Mas, por exemplo, eu ganhei em novembro um disco d’A Chave que nunca havia sido lançado, tirado de um ensaio de 1976. E eu adoro, ouço direto, canto as músicas... Acho genial. A Chave é uma banda genial, que acabou há 25 anos, infelizmente, mas que continua atual. É uma música que não tem idade.

Dissonância - Como é que estão as coisas com teu novo projeto, a Percy’s Band?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) - A Percy’s Band está gravando um disco, que ainda não tem previsão de lançamento. A idéia da banda era, inicialmente, fazer uma trajetória da minha carreira com as músicas que gravei com o Made in Brazil, Patrulha do Espaço e Harppia. Mas acabamos compondo um material novo, e é esse material que vai estar no cd.

 

 

 

 

                
                     Percy’s Band: Walton, Theo Godinho, Percy e Xepa


 


Dissonância - Hoje em dia tu é um artista independente. O que tu acha de ser um artista independente?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) - Ah, eu acho que fazer um trabalho independente é algo que o Lobão provou que dá mais que certo. Ele vendeu disco pela internet, em banca de jornal, etc. O problema das gravadoras é que você tem que se submeter a um monte de exigências e de compromissos.


  Veja bem, eu não estou dizendo que é ruim ter uma gravadora. Não é isso. A gravadora é ótima. Ela dá um puta apoio pro artista. Eles ajudam. É legal, entendeu? Só que os produtores lá é que escolhem quem vai fazer parte ou não do trabalho deles. E eu sou um cara que não consigo ficar correndo atrás disso. Eu sou o tipo de artista que espera um tipo de reconhecimento espontâneo. Eu não sou aquele cara que faz lobby, entendeu? Eu não fico levando meu disco de porta em porta.

Dissonância - Acho que é isso... Algo mais que tu gostarias de acrescentar?

Percy Weiss (Patrulha do Espaço) -  Eu só gostaria de aproveitar e deixar uma mensagem para os adeptos do Dissonância. Queria dizer que rock é muito mais que música, é todo um movimento cultural que envolve outras formas de arte: as artes plásticas, a literatura, a poesia, e tudo o mais. Então eu espero que vocês continuem alimentando essa revolução cultural que ainda não terminou e parece que está longe de terminar.


  E que possamos nos encontrar um dia desses num show do Made, da Patrulha, da Percy’s Band, ou em qualquer outro show de rock. Um abraço pra todos vocês.
 




* Links relacionados:

 


+    www.percysband.hpgvip.ig.com.br (Percy's Band);

 


+    www.bandamadeinbrazil.com.br (Made In Brazil);

 


+  www.patrulharock.hpg.ig.com.br (Fan Site da Patrulha do Espaço).
 


 
 

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