Cultura Mundo

   A vertebral dessa coluna
 


                                                                 Texto e imagem: Daniel Paes



  O que viria a ser uma cultura mundo? São muitos os signos, os símbolos e os emblemas, ou as figuras e os ídolos, que circulam e flutuam pelo mundo, desterritorializados: a pistola, a bandeira branca, a dos E.U.A, os Cavaleiros do Zodíaco, Pelé. E é no âmbito da cultura que se desvelam algumas das características mais originais e surpreendentes desta situação: as coisas – gentes e idéias - são desterritorializadas. É em tempos como este que se faz necessário reler muito do que é novo, e revelar que muito do que se sabe pode ser pensado, ou visto com um outro olhar. Sem ideologias mofadas e pensamentos chapados. Essa é a vertebral desta coluna.

  Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas, disco da banda Titãs, lançado no final de 1987, trouxe uma canção que utilizo como gancho (inicial, não final, como verão) para este texto: Lugar Nenhum. Ao afirmar o despertencimento de uma terra, de um estado nação, de uma cultura, a música apontava para um horizonte novo que, desde o início dos anos de 1980 já era pensada pelos estudiosos da cultura, e que, por influência do pensamento aplicado do marketing principalmente, veio a ser popularmente denominado de globalização no campo da economia. Não pretendo neste texto discutir as formas mais ou menos vis de hegemonia – consolidada após o final da Guerra Fria - do capitalismo pelo mundo que encontrou, com sua lógica do lucro, da utilização da força de trabalho mais barata, em partes da Ásia e da América do Sul, bolsões de mão de obra e consumo rentáveis. Pretendo, partindo deste pressuposto, pensar as modificações na nossa – quando falo “nossa”, já não falo mais apenas dos brasileiros - própria forma de construir uma identidade. A pergunta que nasce é: quem somos nós? Quem são nossos iguais?

  Em meados do séc. XV, uma pessoa tinha sua identidade fixada, principalmente pela sua profissão, religião e etnia. Esta tríade ordenava uma série de outros comportamentos e posicionamentos sociais. A mudança destas identidades, que eram poucas, ocorria com pouca freqüência e não sem deixar duras penas ao sujeito. Seria risível pensar em um filho de ferreiro que não seguiria a profissão do pai; um filho de judeu ortodoxo que não levasse a religião à frente; ou até mesmo um francês que fosse, fora de sua terra natal, confundido com um argelino.

  Estas fronteiras foram, antes tão consolidadas pelos valores da tradição, sendo redimensionados ao longo destes mais de 500 anos. E neste ano, o torneiro mecânico do interior paulista, que não conquistou um diploma de terceiro grau é o presidente do Brasil, com legitimidade. Matisyahu, o judeu ortodoxo norte-americano cantor de reggae faz sucesso pelo mundo e o cérebro da seleção francesa de futebol, Zidane, nasceu na Argélia. Exemplos da nova dinâmica de identidade na contemporaneidade.

  Essa sensação de pertencimento a uma identidade-nação foi sendo construída a partir de mitos, como o da independência, dos heróis nacionais, dos feriados, dos hinos, o samba, o jazz, o carro Ford, a mulata. Nos países de várias línguas, uma foi escolhida como principal. A escola, a imprensa e os meios de transporte desempenharam papel fundamental nesta construção. Nestes nossos tempos, o principal mecanismo que amalgama um povo através da bandeira de um estado nação é a comunicação social. A chamada mídia diariamente retoca a fantasia de que somos parte de um universo estanque, construindo uma rede de comunicação entre este sistema.

  As pessoas, antes organizadas em grupos locais-étnicos-religiosos, deixaram de fazer parte apenas destes círculos-províncias e passaram também a integrar uma entidade que os transcende: a nação. Podemos, neste sentido, ler a formação da nação como um processo de desenraizamento e de trocas que, no início do século XX apontaram para uma hegemonia dos estados nação. Hegemonia essa que passa, na contemporaneidade, a ser posta em xeque.

  O mesmo ocorreu, e ainda ocorre, em âmbito mundial, onde as identidades nacionais deixam de ser um nível máximo de pertencimento e passam a não dividir, mas coabitar o universo identitário das pessoas. Como o aprendizado de uma nova língua não exclui a anterior, a identidade mundial já agrega, a cada minuto talvez, mais fonemas, vocábulos e verbetes na construção de uma linguagem – não me refiro apenas à verbal – das linguagens mundiais. Um exemplo ótimo para esta explanação é a canção "Alegria, Alegria", de Caetano Veloso, que em 1967 já apontava a gênese de uma cultura mundial: “O sol se reparte em crimes / Espaçonaves, guerrilhas / Em Cardinales bonitas / Eu vou / Em caras de presidentes / Em grandes beijos de amor / Em dentes pernas bandeiras / Bomba e Brigitte Bardot”. Poderíamos ainda acrescentar, no texto, pois a canção encerra-se em si, Beatles, Pelé, Che Guevara, Mickey, Internet, Ghandi, Fidel, softwares, hambúrgueres, pizzas, Hollywood e Caetano Veloso. Por que não?



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