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Felicidade fraudulenta
Uma revisão da
Indústria Cultural
Texto e imagem:
Daniel
Paes
Computadores fazem arte
Artistas fazem dinheiro
Computadores avançam
Artistas pegam carona
Cientistas criam o novo
Artistas levam a fama
(Chico Science e Nação Zumbi. In Da lama ao Caos. Chaos/Sony
Music, 1994, Brasil)
Musicólogo e filósofo, Adorno
desenvolveu inicialmente em seus estudos sobre a música na rádio, uma aguda
crítica à posição da arte como ornamento da vida cotidiana. Chico Science, que
na infância catava caranguejos no mangue para vender na feira, na canção acima,
parece concordar. Adorno denunciava o que ele veio a chamar de “felicidade
fraudulenta da arte afirmativa”, pois com o monopólio privado da cultura, a arte
estaria integrada ao sistema capitalista e perderia assim sua liberdade de
discurso.
Esta idéia encontra-se em A Indústria Cultural - Iluminismo como
Mistificação de Massas, e foi escrita por Theodor Adorno e Max Horkheimer,
membros da chamada Escola Hegeliana de Frankfurt e publicado em 1947. Portanto,
há 59 anos. Sem dúvida, este é um texto básico para o entendimento e reflexão
sobre a cultura mundo e (porém), passadas tantas décadas, não podemos nos furtar
de repensar muitos pontos que hoje, com a benesse da distância temporal,
tornaram-se duvidosos.
Partindo de uma conjectura de arte como mecanismo de ação crítica e
revolução, eles apontam que arte (re)produzida industrialmente acabaria por
levar o indivíduo alienado aos braços de uma cultura que o domestica ao
status quo: “A tirania deixa livre o corpo e investe diretamente sobre a
alma. Quem não se adapta é massacrado pela impotência econômica que se prolonga
na impotência espiritual do isolado. Excluído da indústria, é fácil convencê-lo
de sua insuficiência.” Dentro deste movimento global de produção da cultura como
mercadoria, os filmes, os programas radiofônicos e as revistas - impressionante
podermos incluir aqui, sem dúvida, criações posteriores como a televisão e a
internet – ilustram a mesma racionalidade técnica capitalista, o mesmo esquema
de organização e de planejamento administrativo que a fabricação de automóveis:
“as manifestações estéticas, mesmo a dos antagonismos políticos, celebram da
mesma forma o elogio do ritmo do aço”.
Desta forma, a Indústria Cultural fixa de maneira exemplar a derrocada da
cultura, sua queda em mercadoria. E à materialização alienada dos seres. Já não
existiria uma arte livre. A transformação do ato cultural em valor suprime sua
função crítica e nele dissolve os traços de uma experiência autêntica. A
produção industrial de bens simbólicos aponta a degradação do papel ético da
cultura como era entendida até então. Mais apocalíptico impossível? Talvez.
Vamos então agora, e sempre tendo em mente a temporalidade fragmentada da
leitura através da tela, buscar de forma sucinta apontar alguns pontos onde a
idéia levantada por Adorno e Horkheimer é sujeita a revisões. Primeiro, as
críticas vorazes contra a produção em escala industrial de bens de consumo
simbólico que eles teceram podem ser caracterizadas como um etnocentrismo
europeu característico. A mudança da ordem existente não é necessariamente um
processo degenerativo, uma mudança de eixo é necessária para o organismo
cultural mundial.
A idéia de alta cultura, em detrimento de uma cultura popular
impulsionada pelos avanços da ordem da mediação, esteve sempre presente em
comparações hoje vistas como no mínimo desencaixadas. Tal visão, que concerne a
todo o sistema massivo de trocas simbólicas um caráter final de associação a um
projeto capitalista alienante, aponta para um fluxo crescente dentro do sistema
que é a idéia do marginalismo do alternativo. Muitos meios de comunicação –
sites, canções etc... – abraçaram a bandeira de uma informação que nega o
chamado mainstream e vivem no subsolo, com pouca visibilidade e por vezes até se
vangloriam dessa situação, como se fosse ela, em si, algo louvável. Porém, nada
mais interessante ao sistema criticado pela teoria da Indústria Cultural que a
negação muda de seus opositores. Por último, é criticável a visão de que os
ouvintes, leitores e telespectadores são uma massa uniforme que responde de
forma direta à lógica refletida pelos meios de comunicação. Sabemos hoje que a
recepção se faz através de forma complexa, envolvendo uma série de fatores que
estão, sem dúvida, fora do controle de uma ideologia hegemônica. Muitas vezes
mensagens idênticas, fazem sentidos absolutamente diferentes de acordo com o
local, espaço e tempo onde são recebidas. Portanto, a idéia de felicidade
fraudulenta associada ao consumo de bens simbólicos deve ser entendida e dela
partir-se para outros níveis necessários de análise, sem os quais podemos cair
em uma visão reducionista de uma realidade que se apresenta cada vez mais
complexa.
O papel dos indivíduos que geram bens simbólicos – poemas, matérias
jornalísticas, quadros e músicas – não pode ser, por medo de estar trabalhando
para um sistema com o qual não se concorda por inteiro, o da improdutividade, e
sim o terreno da crítica consciente e da ação comunicativa, como talvez fez o
tal menino que catava caranguejos.
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