Longa noite pros sulistas!
Texto +
Imagens:
Giovani Paim
Efeitos/Imagens:
Ricardo Alexandre G.

Quem ouve essa frase no fim da noite, pouco antes de Julio Reny, 46
anos, deixar o palco, já sabe, a noite foi inesquecível.
Julio Reny, porto-alegrense nato, segue nos palcos da vida destilando
sua vertente rock and roll.
Há alguns anos, Julio Reny tocava semanalmente em São Leopoldo com o
projeto
Histórias do Rock Gaúcho, ao lado de Egisto Dal Santo e do
leopoldense Cristiano Krause. Julio, figura lendária do Rock Gaúcho, traz
consigo melodias ora alegres, ora tristes, mas sempre inconfundíveis. O
poeta maldito já teve diversas parcerias e esteve/está à frente de bandas
como Expresso Oriente, Urubu Rei e Cowboys Espirituais.
Como bom boêmio, nunca se estabiliza. Recentemente, lançou o disco
“A
Caminhada de Julio Reny”, e o seu primeiro livro,
“Rádio Cool”. Numa
conversa descontraída, Julio conta um pouco de sua carreira turbulenta. Seus
amores e seus pecados, sua história. Com vocês, Julio Reny!
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Dissonância
Julio, como a música entrou
na tua vida?
Julio Reny
Começou com a eletrola da família. Minha mãe com seus discos
de tango, Altemar Dutra e José Mendes. Minha falecida irmã, no auge da sua
juventude, me levando para assistir aos filmes do Roberto, Beatles e Elvis,
enquanto se encontrava com seu futuro marido. E eu ficava lá, sozinho
assistindo... Uma cena marcante foi no dia do seu casamento. Um tio do
interior tocando regionalismo no violão. Já o seu noivo, tocando Beatles! E
eu, garoto, fiquei estupefato vendo aquilo tudo!
Depois rolou
uma ressaca familiar... Fiquei sem minha irmã e meu irmão foi pra longe.
Minha última influência familiar foi ele e meu primo curtindo nas noites de
Natal o disco anual do Roberto Carlos.
Dissonância
Tem um papo de Julio Reny brigão, constantes conflitos nas ruas,
que furtava discos nas lojas, isso é verdade, né?! Conta um pouquinho...
Julio Reny
Uma coisa leva a outra. Fiquei sozinho, sem referência.
E nesta época, meu colégio e minha zona se tornaram violentos. Apanhei pra
caramba. Até me embrutecer e criar minha própria luta. Eu até hoje sou um
cara de classe média remediada. Não tinha e não tenho dinheiro pra pagar um
mestre. Comecei a vencer no campo de batalha. Mas faltava uma trilha... E
ela veio através de um colega descolado de ginásio que me apresentou o rock
dos 70! Santana, Led (Zepellin), Yes, Raul Seixas, tudo o que você imaginar!
Ele simplesmente conhecia tudo! E começamos a roubar.

Dissonância
Depois disso tu ficastes internado numa clínica psiquiátrica, não foi
por drogas; tu eras um cara problemático mesmo, isso?
Julio Reny
Quando dei
por mim tinha mais de 200 vinis lá em casa! Tudo coisa boa. E me dando o
luxo de acompanhar e pesquisar coisas inacreditáveis! Carreiras promissoras
surgindo, carreiras entregando já ali o seu fim. E toda viagem dos 70...
Paralelamente me tornei uma pequena máquina de combate, tentando
depois me adaptar à vida civilizada das reuniões dançantes. O objetivo era
tirar uma garota pra dançar e não destruir três caras te pegando numa
roubada! Aí eu pirei... As garotas e sua dissimulação eram piores que
qualquer turma de inimigos! E toda aquela informação do tempo em que o rock ainda era arte.
Não deu outra, deu hospital! Atordoado e confundido, como na música do Led. A experiência está cantada na música “Uma
Tarde de Outono de 73”, e o
filme “Um Estranho no Ninho” é a mais pura realidade de uma temporada no
sanatório!
Dissonância
E como foi aquela história da guitarra, foi realmente tua salvação?
Julio Reny
Esta frase é da música “Barbearia”, que junto com “Uma Tarde
de Outono de 73” são do meu primeiro disco/K-7 “Último Verão”, onde procurei
retratar todos os meus conflitos e memórias da adolescência. Uma coisa leva
a outra...
Antes do hospital, minha mãe era funcionária pública, tentou me levar
para o Estado. Mas daí os chefes viam aquele louco... Então no rescaldo de
tudo, a família me cercou e perguntou: “Mas, afinal, o que tu quer da vida?”.
E eu respondo: “Quero ser músico!”.
Silêncio total. Melhor que ter um delinqüente juvenil, um psicopata,
um suicida, melhor ter um músico... E nós éramos duros, foi uma escolha dura
para minha família.
Dissonância
Como foi teu primeiro contato com palco?
Julio Reny
Meu irmão retornou das suas viagens. Grande Renato, que Deus
o tenha. A primeira coisa que me mostrou foi o anúncio de um jornal
procurando atores amadores. Ele achou que isto iria me colocar na ribalta!
Passei no teste como ator, terminei me resolvendo como
músico... Montei uma banda com ele na bateria e mais dois ex-colegas do
ginásio.
Dissonância
Em 82, com o estouro da música "Cine Marabá", tu tivestes
um certo reconhecimento. Na mesma época, tu tinhas participado de alguns
filmes marcantes pro cinema gaúcho, o “Deu Pra ti’, o “Verdes Anos”, e mais
tarde atuou nuns outros curtas-metragens. Qual tua relação com o cinema?

Julio Reny
Fui à luta! Me destaquei um pouco no grupo como cara
esquisito. Tudo a ver com os 70. Depois assumi a carreira de músico com
minhas primeiras canções, que geraram o
“Último Verão”. Era o tempo das
primeiras demo tapes tentando acertar o alvo, e eu tive meu hit com
“Cine
Marabá”. Paralelamente, surgiu uma geração de jovens diretores com uma idéia
na cabeça e uma Super 8 na mão: Nelson Nadotti, Giba Assis Brasil, Sérgio
Cerrer e Carlos Gerbase.
“Cine Marabá” tocou até na Fluminense FM, em pleno começo do estouro do
rock brasileiro dos anos 80. Era o começo de uma nova era, cheia de
possibilidades e a música independente abria o caminho. Montei um selo pra
fita K7... Mas duro como sempre, não passei do lançamento do
“Último Verão”.
Devo muito ao meu velho, também já desaparecido, que me emprestou seu banco
contador.
Acho que o título deste meu primeiro pequeno hit, “Cine Marabá”,
demonstra minha paixão pelo cinema, principalmente aquele dos anos 70, que
foi o que mais influenciou minha música e o qual tive a honra de participar
um pouco aqui no Sul.
Dissonância
A garagem do Julio Reny é
um dos
locais mais marcantes para a história do rock gaúcho. Julio, o que tinha e
quem passou pela tal garagem? Ninguém se esqueceu dela?
Julio Reny
A garagem da casa da Santana realmente foi marcante.
Começava pela sua localização, de fundos, bem no meio da quadra e cercada
por estabelecimentos comerciais tipo estacionamento, fábrica, oficinas. E a
garagem era conjugada com a casa. Fiz um isolamento com caixas de ovo, uma
iluminação com luzes coloridas, era aconchegante.
Tinha um piano de parede, a bateria do meu saudoso irmão e
amplificadores e microfones baratos. Sempre ensaiávamos lá, e quando estourou
o movimento do rock em 84/85, Replicantes apareciam lá toda
terça-feira, das 22h às 2h da
manhã! Mandando ver! Também tivemos os Engenheiros do Hawaii, que tinham a
chave da casa. Isto era engraçado... Eu chegava em casa e encontrava a
garagem vazia! Em cima da minha escrivaninha um bilhete dizendo que, no outro
dia, o equipamento voltaria e teria um troco pra mim. Era o tipo do lugar
onde as pessoas batiam na porta e se apresentavam... E as coisas começavam.
Certa vez, sem combinação, a casa teve uma festa de Natal e lotou. Para se
ter idéia, na sala onde estava o toca-discos e os vinis, um DJ começou a
discotecar e o pessoal a dançar! Do outro lado, na parede da garagem, o
pessoal do TNT se reencontrava com Flávio Basso, fazendo uma “jam”. E tinha
mais músicos que passavam por lá... Mas depois essa fase passou e ficou só a
Expresso Oriente ensaiando lá. Quando tive de entregar o imóvel para os
herdeiros do dono, que era muito gentil comigo mas havia falecido, me mudei
para um apartamento e fiquei deprimido uns anos. Sonhava que andava pela
casa da Santana de madrugada... Inesquecível. Mas graças a Deus, hoje, se não
tenho uma garagem, estou morando de novo num lugar bacana e novamente sou
amigo do Rei, posso fazer algum “barulho” sem ser incomodado por ninguém.
Dissonância
Tu já estivestes à frente do Urubu Rei, Km-0, Julio Reny Guitar Band
e outras, mas foi com Expresso Oriente que teu nome se firmou ainda mais no
cenário musical. Depois disso, foi a vez dos Comboys Espirituais. Qual a
história dos Cowboys? É verdade que tudo surgiu de um presente que queria
fazer pra Mel (namorada, atual esposa)?
Julio
Reny
A Expresso Oriente foi uma banda que sempre teve
produção e escritório, desde sua criação em 86 até o fim, em 91, com destaque
para o grande trabalho do Moah, que tinha sido o primeiro empresário dos
Replicantes.
Os Comboys nasceram do meu personagem na tv,
O
“Cowboy do Deserto”.
Mergulhei no universo country, eu sempre gostei dessa música, e isto me levou
a um contato muito íntimo com o Márcio Petracco, grande multi-instrumentista
especializado e apaixonado pela caipiragem americana.
Porém, no final de 97, eu e o Frank Jorge, parceiros na Guitar Band,
estávamos fazendo shows em bares para pagar um prejuízo e ensaiávamos para
tocar covers. Numa dessas noites, ele fez praticamente toda “Uma
Mulher”, dizendo que a canção era um presente para o meu personagem cowboy
da tv. E eu criei uma versão country para “Como é Grande o Meu Amor”, do
Roberto. Depois de pagar as contas, íamos dar um tempo na música e se dedicar
a outras atividades.
Paralelamente, o Márcio estava se preparando para ir embora para
Itália... Foi quando a Mel, então minha namorada, me abandonou... Eu e o Frank
tínhamos descoberto o estúdio do Thomas Dreher e lá eu podia passar um
cheque queimando meu 13º da rádio...
O resultado deu nos Cowboys Espirituais! A Mel voltou e casou
comigo. Eu, o Frank e o Márcio continuamos na música e
gravamos um belo disco lá no Thomas!
Dissonância
Foi aí então que tu começastes a trabalhar de produtor na Ipanema FM.
Como foi essa fase mais estabilizada da tua vida, onde tu chegastes até
a passar pela tv?
Julio Reny
Eu entrei na Ipanema em 87 e trabalhei até 97. 10 anos!
Fui indicado pelo Jimi Joe, que estava saindo para a imprensa escrita, por
causa da minha vinilteca de jazz. Apresentei “A Hora do Jazz”. Depois Jimi
retornaria e trabalhamos juntos na produção.
Na verdade, parecia uma coisa predestinada eu trabalhar na rádio. Quando fui
escalado para fazer o DJ dos “Verdes Anos”, fiquei meses fazendo laboratório
para o papel, abrindo uma rádio imaginária nas madrugadas da Santana. Então
para o Nílton Fernando, meu chefe e quem me admitiu, pareceu natural me
contratar... Foi meu melhor trabalho no cinema.
E tive sorte, estourei com o programa “Negras Melodias” no meu
primeiro ano
de rádio. E fora a rádio ter me dado prestígio, uma experiência
inesquecível foi o sustento para o duro início dos anos 90, quando eu tinha
uma jovem família para criar...
O que tenho a dizer é que deixei grandes amigos. Tem manhãs que tenho
vontade de acordar cedo, chegar num bar, tomar um café e ir fumar um cigarro
no corredor, conversando sobre a vida e tudo mais com algum colega. Como disse no prefácio do livro “Rádio Cool”
com textos de um programa meu,
“meu coração
ainda trabalha lá”!
O “Folharada Ipanema na TV” foi uma grande chance que a direção da
Band me deu. Perguntaram-me numa reunião sobre o que eu iria fazer, e como
tocava nos Daltons e tinha um figurino de cowboy, respondi: “Um
cowboy”!
E deu no que deu! Daí vieram os Cowboys Espirituais, o personagem
ficou folclórico.
Dissonância
Julio mora com Melissa Barbo e com a linda filha de 5 anos, Larissa
Barbo. Hoje, mais calmo, tu já podes falar daqueles tempos de boêmia extrema.
Loucuras são o que não faltam no currículo desde artista apaixonado?
Julio Reny
Vamos combinar:
você vai
ficando mais velho e, naturalmente, mais calmo. A Mel às vezes tem que me
tirar de casa e levá-la pra algum show. Estou no meu quarto casamento, e
depois de ter tido uma filha muito cedo - a Consuelo tem 25 hoje -, estou
novamente criando uma pequena, que vai fazer seis anos.
Se já trabalho com a noite, minha atitude natural tendo família é
querer distância da boemia. Fui incentivado pelos amigos a ter na minha vida
um conceito legendário de que os artistas não só faziam arte, mas
viviam a própria vida com estilo e faziam dela uma outra forma de arte.
Loucuras já fiz mil, não caberiam num livro. E isto se perderá
como “Lágrimas na Chuva”. E, sinceramente, acho que não sou deste planeta.
Hoje tenho minha boemia caseira. Durmo na alta madrugada depois de uns drinks, uns filmes na tv e o trabalho rolando na cabeça. Reúno-me com alguns
amigos para jogar bilhar. Mas quando a sua profissão de fé é o rock and roll,
você nunca pode afirmar que estará livre de acontecer alguma coisa maluca,
estranha ou louca na estrada. Isto é o rock.

Dissonância
Tu te consideras um cara renegado pela cultura local? Te dói muitos
não saberem, não terem acesso ao Julio Reny?
Julio Reny
Não. Absolutamente. Estou há 25 anos nesse negócio e, graças a
Deus, sinto um novo mar de possibilidades se abrindo na minha frente. Pra mim
e todo o rock do Rio Grande. Às vezes me sinto deprimido ou ansioso, de novo
na garagem, louco para ver as coisas acontecerem rapidamente... Mas depois
me acalmo. O tempo é o meu instrumento. A longa caminhada é minha arte.
Vibro com o sucesso e a emergência de todos no Velho Sul!
Estou conservado em barris de carvalho, quem sabe eu ainda não
surpreenda?!
Dissonância
Com Egisto Dal Santo tu reeditastes em CD teus principais trabalhos
incluídos na fita "Último Verão" e no vinil "Julio Reny e Expresso Oriente".
Ficou um trabalho completo, digno. Como é ver teu trabalho, que havia sido
esquecido, revigorado de forma tão expressiva como no CD "Último Verão"?
Julio Reny
Obrigado por lembrar meus representantes em cd. Contei deles aqui antes, foi
um bom trabalho da gravadora Barulhinho. Reuni e conquistei novos e velhos
fãs, foi muito importante.
Dissonância Julio, disco lançado, livro lançado. Qual próximo
passo na caminhada?
Julio Reny
O ano passado marcou uma retomada da minha carreira.
Lancei o “Rádio Cool” pela Armazém Digital e a coletânea de demo tapes
“A Caminhada de Julio Reny”, pela Plus Records. E esta gravadora, fundada aqui
no vale com amigos e associados, foi uma grande conquista! A Plus Records é
o futuro! Atualmente, divulgo o cd com minha banda,
Os Piratas do Deserto, e
estamos captando recursos para a realização de um videoclipe em animação,
feito por um grande profissional aqui de São Leopoldo.
Também já estou gravando no Plus, estúdio do incansável Cristiano
Krause, o Nanão, meu novo disco para 2006. Serão mais de 300 horas de
trabalho dedicadas a um álbum conceitual, que reunirá um time de músicos
capilés e porto-alegrenses interpretando canções minhas.
Paralelamente, já que o Nanão é o baterista da banda "Histórias do
Rock Gaúcho", mais uma idéia brotada junto com Egisto Dal Santo aqui no
fértil Vale dos Sinos, anuncio a chegada do nosso primeiro cd pela gravadora
Universal e distribuição nacional...
Dissonância Pra finalizar, deixe um recado para o leitor do
Dissonância!
Julio Reny
Eu queria dizer que o Vale dos Sinos
lembra minha mãe, que é a última sobrevivente da minha família e que morou
algum tempo por aqui, no seu segundo casamento. Estive várias vezes por aqui
para visitá-la junto ao meu segundo pai, que era um cara daqui e influenciou
minha vida pra caramba. Obviamente, ele também já foi.
Aprendi a admirar e
respeitar e agora tenho a chance de trabalhar com o pessoal daqui. Como
dizia aquele bordão, “é gente que faz”, que trabalha duro, estabelece metas,
projetos, alianças e tudo mais, trabalhando sempre com o pé no chão.
Queria agradecer por esta oportunidade! Um grande abraço pra todo o
Vale, os leitores, o pessoal da Plus Records, os amigos das casas noturnas,
a imprensa e bandas daqui, os fãs e apoiadores... Muito obrigado!
E
destacar a figura do Cristiano Krause, que resume as bandas, a amizade e
a perseverança capilé, valeu!
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