http://www.dissonancia.com  .
desde 13/07/2003


 
Longa noite pros sulistas!


                                                                 

                                             
 Texto + Imagens:
Giovani Paim
 Efeitos/Imagens: Ricardo Alexandre G.


 

                        
 



  Quem ouve essa frase no fim da noite, pouco antes de Julio Reny, 46 anos, deixar o palco, já sabe, a noite foi inesquecível.

  Julio Reny, porto-alegrense nato, segue nos palcos da vida destilando sua vertente rock and roll.

  Há alguns anos, Julio Reny tocava semanalmente em São Leopoldo com o projeto Histórias do Rock Gaúcho, ao lado de Egisto Dal Santo e do leopoldense Cristiano Krause. Julio, figura lendária do Rock Gaúcho, traz consigo melodias ora alegres, ora tristes, mas sempre inconfundíveis. O poeta maldito já teve diversas parcerias e esteve/está à frente de bandas como Expresso Oriente, Urubu Rei e Cowboys Espirituais. Como bom boêmio, nunca se estabiliza. Recentemente, lançou o disco
A Caminhada de Julio Reny, e o seu primeiro livro, Rádio Cool. Numa conversa descontraída, Julio conta um pouco de sua carreira turbulenta. Seus amores e seus pecados, sua história. Com vocês, Julio Reny!

                      
                      
                        <>




 
Dissonância  Julio, como a música entrou na tua vida?

 Julio Reny   Começou com a eletrola da família. Minha mãe com seus discos de tango, Altemar Dutra e José Mendes. Minha falecida irmã, no auge da sua juventude, me levando para assistir aos filmes do Roberto, Beatles e Elvis, enquanto se encontrava com seu futuro marido. E eu ficava lá, sozinho assistindo... Uma cena marcante foi no dia do seu casamento. Um tio do interior tocando regionalismo no violão. Já o seu noivo, tocando Beatles! E eu, garoto, fiquei estupefato vendo aquilo tudo!

 
Depois rolou uma ressaca familiar... Fiquei sem minha irmã e meu irmão foi pra longe. Minha última influência familiar foi ele e meu primo curtindo nas noites de Natal o disco anual do Roberto Carlos.

 Dissonância  Tem um papo de Julio Reny brigão, constantes conflitos nas ruas, que furtava discos nas lojas, isso é verdade, né?! Conta um pouquinho...

 Julio Reny  Uma coisa leva a outra. Fiquei sozinho, sem referência. E nesta época, meu colégio e minha zona se tornaram violentos. Apanhei pra caramba. Até me embrutecer e criar minha própria luta. Eu até hoje sou um cara de classe média remediada. Não tinha e não tenho dinheiro pra pagar um mestre. Comecei a vencer no campo de batalha. Mas faltava uma trilha... E ela veio através de um colega descolado de ginásio que me apresentou o rock dos 70! Santana, Led (Zepellin), Yes, Raul Seixas, tudo o que você imaginar! Ele simplesmente conhecia tudo! E começamos a roubar.




              




 
Dissonância  Depois disso tu ficastes internado numa clínica psiquiátrica, não foi por drogas; tu eras um cara problemático mesmo, isso?  

 Julio Reny  Quando dei por mim tinha mais de 200 vinis lá em casa! Tudo coisa boa. E me dando o luxo de acompanhar e pesquisar coisas inacreditáveis! Carreiras promissoras surgindo, carreiras entregando já ali o seu fim. E toda viagem dos 70...

  Paralelamente me tornei uma pequena máquina de combate, tentando depois me adaptar à vida civilizada das reuniões dançantes. O objetivo era tirar uma garota pra dançar e não destruir três caras te pegando numa roubada! Aí eu pirei... As garotas e sua dissimulação eram piores que qualquer turma de inimigos! E toda aquela informação do tempo em que o rock ainda era arte.

  Não deu outra, deu hospital! Atordoado e confundido, como na música do Led. A experiência está cantada na música “Uma Tarde de Outono de 73”, e o filme “Um Estranho no Ninho” é a mais pura realidade de uma temporada no sanatório!


 Dissonância  E como foi aquela história da guitarra, foi realmente tua salvação?  

 Julio Reny  Esta frase é da música “Barbearia”, que junto com “Uma Tarde de Outono de 73” são do meu primeiro disco/K-7 “Último Verão”, onde procurei retratar todos os meus conflitos e memórias da adolescência. Uma coisa leva a outra...

  Antes do hospital, minha mãe era funcionária pública, tentou me levar para o Estado. Mas daí os chefes viam aquele louco... Então no rescaldo de tudo, a família me cercou e perguntou: “Mas, afinal, o que tu quer da vida?”.  E eu respondo: “Quero ser músico!”.

  Silêncio total. Melhor que ter um delinqüente juvenil, um psicopata, um suicida, melhor ter um músico... E nós éramos duros, foi uma escolha dura para minha família.


 Dissonância  Como foi teu primeiro contato com palco?  

 Julio Reny  Meu irmão retornou das suas viagens. Grande Renato, que Deus o tenha. A primeira coisa que me mostrou foi o anúncio de um jornal procurando atores amadores. Ele achou que isto iria me colocar na ribalta! Passei no teste como ator, terminei me resolvendo como músico... Montei uma banda com ele na bateria e mais dois ex-colegas do ginásio.

 Dissonância  Em 82, com o estouro da música "Cine Marabá", tu tivestes um certo reconhecimento. Na mesma época, tu tinhas participado de alguns filmes marcantes pro cinema gaúcho, o “Deu Pra ti’, o “Verdes Anos”, e mais tarde atuou nuns outros curtas-metragens. Qual tua relação com o cinema?  



                
             





 Julio Reny
 Fui à luta! Me destaquei um pouco no grupo como cara esquisito. Tudo a ver com os 70. Depois assumi a carreira de músico com minhas primeiras canções, que geraram o
Último Verão”. Era o tempo das primeiras demo tapes tentando acertar o alvo, e eu tive meu hit com Cine Marabá. Paralelamente, surgiu uma geração de jovens diretores com uma idéia na cabeça e uma Super 8 na mão: Nelson Nadotti, Giba Assis Brasil, Sérgio Cerrer e Carlos Gerbase.

 
Cine Marabá tocou até na Fluminense FM, em pleno começo do estouro do rock brasileiro dos anos 80. Era o começo de uma nova era, cheia de possibilidades e a música independente abria o caminho. Montei um selo pra fita K7... Mas duro como sempre, não passei do lançamento do Último Verão. Devo muito ao meu velho, também já desaparecido, que me emprestou seu banco contador.

  Acho que o título deste meu primeiro pequeno hit, “Cine Marabá”, demonstra minha paixão pelo cinema, principalmente aquele dos anos 70, que foi o que mais influenciou minha música e o qual tive a honra de participar um pouco aqui no Sul.


 Dissonância  A garagem do Julio Reny é um dos locais mais marcantes para a história do rock gaúcho. Julio, o que tinha e quem passou pela tal garagem? Ninguém se esqueceu dela?  

 Julio Reny  A garagem da casa da Santana realmente foi marcante. Começava pela sua localização, de fundos, bem no meio da quadra e cercada por estabelecimentos comerciais tipo estacionamento, fábrica, oficinas. E a garagem era conjugada com a casa. Fiz um isolamento com caixas de ovo, uma iluminação com luzes coloridas, era aconchegante.


  Tinha um piano de parede, a bateria do meu saudoso irmão e amplificadores e microfones baratos. Sempre ensaiávamos lá, e quando estourou o movimento do rock em 84/85, Replicantes apareciam lá toda terça-feira, das 22h às 2h da manhã! Mandando ver! Também tivemos os Engenheiros do Hawaii, que tinham a chave da casa. Isto era engraçado... Eu chegava em casa e encontrava a garagem vazia! Em cima da minha escrivaninha um bilhete dizendo que, no outro dia, o equipamento voltaria e teria um troco pra mim. Era o tipo do lugar onde as pessoas batiam na porta e se apresentavam... E as coisas começavam.

  Certa vez, sem combinação, a casa teve uma festa de Natal e lotou. Para se ter idéia, na sala onde estava o toca-discos e os vinis, um DJ começou a discotecar e o pessoal a dançar! Do outro lado, na parede da garagem, o pessoal do TNT se reencontrava com Flávio Basso, fazendo uma “jam”. E tinha mais músicos que passavam por lá... Mas depois essa fase passou e ficou só a Expresso Oriente ensaiando lá. Quando tive de entregar o imóvel para os herdeiros do dono, que era muito gentil comigo mas havia falecido, me mudei para um apartamento e fiquei deprimido uns anos. Sonhava que andava pela casa da Santana de madrugada... Inesquecível. Mas graças a Deus, hoje, se não tenho uma garagem, estou morando de novo num lugar bacana e novamente sou amigo do Rei, posso fazer algum “barulho” sem ser incomodado por ninguém.


 Dissonância  Tu já estivestes à frente do Urubu Rei, Km-0, Julio Reny Guitar Band e outras, mas foi com Expresso Oriente que teu nome se firmou ainda mais no cenário musical. Depois disso, foi a vez dos Comboys Espirituais. Qual a história dos Cowboys? É verdade que tudo surgiu de um presente que queria fazer pra Mel (namorada, atual esposa)?  

 Julio Reny  A Expresso Oriente foi uma banda que sempre teve produção e escritório, desde sua criação em 86 até o fim, em 91, com destaque para o grande trabalho do Moah, que tinha sido o primeiro empresário dos Replicantes.

  Os Comboys nasceram do meu personagem na tv,
O Cowboy do Deserto”. Mergulhei no universo country, eu sempre gostei dessa música, e isto me levou a um contato muito íntimo com o Márcio Petracco, grande multi-instrumentista especializado e apaixonado pela caipiragem americana.

  Porém, no final de 97, eu e o Frank Jorge, parceiros na Guitar Band, estávamos fazendo shows em bares para pagar um prejuízo e ensaiávamos para tocar covers. Numa dessas noites, ele fez praticamente toda “Uma Mulher”, dizendo que a canção era um presente para o meu personagem cowboy da tv. E eu criei uma versão country para “Como é Grande o Meu Amor”, do Roberto. Depois de pagar as contas, íamos dar um tempo na música e se dedicar a outras atividades.

  Paralelamente, o Márcio estava se preparando para ir embora para Itália... Foi quando a Mel, então minha namorada, me abandonou... Eu e o Frank tínhamos descoberto o estúdio do Thomas Dreher e lá eu podia passar um cheque queimando meu 13º da rádio...

  O resultado deu nos Cowboys Espirituais! A Mel voltou e casou comigo. Eu, o Frank e o Márcio continuamos na música e gravamos um belo disco lá no Thomas!


 Dissonância  Foi aí então que tu começastes a trabalhar de produtor na Ipanema FM. Como foi essa fase mais estabilizada da tua vida, onde tu chegastes até a passar pela tv?  

 Julio Reny  Eu entrei na Ipanema em 87 e trabalhei até 97. 10 anos! Fui indicado pelo Jimi Joe, que estava saindo para a imprensa escrita, por causa da minha vinilteca de jazz. Apresentei “A Hora do Jazz”. Depois Jimi retornaria e trabalhamos juntos na produção.

  Na verdade, parecia uma coisa predestinada eu trabalhar na rádio. Quando fui escalado para fazer o DJ dos “Verdes Anos”, fiquei meses fazendo laboratório para o papel, abrindo uma rádio imaginária nas madrugadas da Santana. Então para o Nílton Fernando, meu chefe e quem me admitiu, pareceu natural me contratar... Foi meu melhor trabalho no cinema.

  E tive sorte, estourei com o programa “Negras Melodias” no meu primeiro ano de rádio. E fora a rádio ter me dado prestígio, uma experiência inesquecível foi o sustento para o duro início dos anos 90, quando eu tinha uma jovem família para criar...

  O que tenho a dizer é que deixei grandes amigos. Tem manhãs que tenho vontade de acordar cedo, chegar num bar, tomar um café e ir fumar um cigarro no corredor, conversando sobre a vida e tudo mais com algum colega. Como disse no prefácio do livro “Rádio Cool” com textos de um programa meu,
meu coração ainda trabalha lá!

  O “Folharada Ipanema na TV” foi uma grande chance que a direção da Band me deu. Perguntaram-me numa reunião sobre o que eu iria fazer, e como tocava nos Daltons e tinha um figurino de cowboy, respondi: “Um cowboy”!

  E deu no que deu! Daí vieram os Cowboys Espirituais, o personagem ficou folclórico.


 Dissonância  Julio mora com Melissa Barbo e com a linda filha de 5 anos, Larissa Barbo. Hoje, mais calmo, tu já podes falar daqueles tempos de boêmia extrema. Loucuras são o que não faltam no currículo desde artista apaixonado?  

 Julio Reny  Vamos combinar: você vai ficando mais velho e, naturalmente, mais calmo. A Mel às vezes tem que me tirar de casa e levá-la pra algum show. Estou no meu quarto casamento, e depois de ter tido uma filha muito cedo - a Consuelo tem 25 hoje -, estou novamente criando uma pequena, que vai fazer seis anos.

  Se já trabalho com a noite, minha atitude natural tendo família é querer distância da boemia. Fui incentivado pelos amigos a ter na minha vida um conceito legendário de que os artistas não só faziam arte, mas viviam a própria vida com estilo e faziam dela uma outra forma de arte.

  Loucuras já fiz mil, não caberiam num livro. E isto se perderá como “Lágrimas na Chuva”. E, sinceramente, acho que não sou deste planeta. Hoje tenho minha boemia caseira. Durmo na alta madrugada depois de uns drinks, uns filmes na tv e o trabalho rolando na cabeça. Reúno-me com alguns amigos para jogar bilhar. Mas quando a sua profissão de fé é o rock and roll, você nunca pode afirmar que estará livre de acontecer alguma coisa maluca, estranha ou louca na estrada. Isto é o rock.




        
     




 Dissonância
 Tu te consideras um cara renegado pela cultura local? Te dói muitos não saberem, não terem acesso ao Julio Reny?
 

 Julio Reny  Não. Absolutamente. Estou há 25 anos nesse negócio e, graças a Deus, sinto um novo mar de possibilidades se abrindo na minha frente. Pra mim e todo o rock do Rio Grande. Às vezes me sinto deprimido ou ansioso, de novo na garagem, louco para ver as coisas acontecerem rapidamente... Mas depois me acalmo. O tempo é o meu instrumento. A longa caminhada é minha arte. Vibro com o sucesso e a emergência de todos no Velho Sul!

  Estou conservado em barris de carvalho, quem sabe eu ainda não surpreenda?!


 Dissonância  Com Egisto Dal Santo tu reeditastes em CD teus principais trabalhos incluídos na fita "Último Verão" e no vinil "Julio Reny e Expresso Oriente". Ficou um trabalho completo, digno. Como é ver teu trabalho, que havia sido esquecido, revigorado de forma tão expressiva como no CD "Último Verão"?  

 Julio Reny  Obrigado por lembrar meus representantes em cd. Contei deles aqui antes, foi um bom trabalho da gravadora Barulhinho. Reuni e conquistei novos e velhos fãs, foi muito importante.

 Dissonância  Julio, disco lançado, livro lançado. Qual próximo passo na caminhada?  

 Julio Reny  O ano passado marcou uma retomada da minha carreira. Lancei o “Rádio Cool” pela Armazém Digital e a coletânea de demo tapes
A Caminhada de Julio Reny”, pela Plus Records. E esta gravadora, fundada aqui no vale com amigos e associados, foi uma grande conquista! A Plus Records é o futuro! Atualmente, divulgo o cd com minha banda, Os Piratas do Deserto, e estamos captando recursos para a realização de um videoclipe em animação, feito por um grande profissional aqui de São Leopoldo.

  Também já estou gravando no Plus, estúdio do incansável Cristiano Krause, o Nanão, meu novo disco para 2006. Serão mais de 300 horas de trabalho dedicadas a um álbum conceitual, que reunirá um time de músicos capilés e porto-alegrenses interpretando canções minhas.

  Paralelamente, já que o Nanão é o baterista da banda "Histórias do Rock Gaúcho", mais uma idéia brotada junto com Egisto Dal Santo aqui no fértil Vale dos Sinos, anuncio a chegada do nosso primeiro cd pela gravadora Universal e distribuição nacional...

 Dissonância  Pra finalizar, deixe um recado para o leitor do Dissonância!  

 Julio Reny  Eu queria dizer que o Vale dos Sinos lembra minha mãe, que é a última sobrevivente da minha família e que morou algum tempo por aqui, no seu segundo casamento. Estive várias vezes por aqui para visitá-la junto ao meu segundo pai, que era um cara daqui e influenciou minha vida pra caramba. Obviamente, ele também já foi.

  Aprendi a admirar e respeitar e agora tenho a chance de trabalhar com o pessoal daqui. Como dizia aquele bordão, “é gente que faz”, que trabalha duro, estabelece metas, projetos, alianças e tudo mais, trabalhando sempre com o pé no chão.

  Queria agradecer por esta oportunidade! Um grande abraço pra todo o Vale, os leitores, o pessoal da Plus Records, os amigos das casas noturnas, a imprensa e bandas daqui, os fãs e apoiadores... Muito obrigado! E destacar a figura do Cristiano Krause, que resume as bandas, a amizade e a perseverança capilé, valeu!

                                          

                                      [ Página Inicial