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Quem é
que está fazendo pesadelos na cabeça do século?
O baiano Tom Zé cantarola
a indagação na música A Babá desde 1972, quando lançou o álbum "Se o caso é chorar",
mas se a dúvida do tropicalista era em relação ao século XX, por
exemplo, toda a sua inquietude poderia ganhar um sopro de
amenidade se tivesse dado uma passada no sul do país, especificamente em
Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Não, na capital dos gaúchos não existia
um oráculo de Delfos, mas algumas prosas com certo jornalista o fariam
restringir as dúvidas, e ao menos alguns nomes e circunstâncias Flávio Alcaraz Gomes teria condições de passar para o músico, afinal, a partir
de 1944 esse (hoje) senhor começou a freqüentar redações e estúdios de
jornais, rádios e tevês.
 Para construir o presente raciocínio, remonto a 2003, ano em que tive
acesso, a priori, ao nome
e alcunha do
jornalista, graças à sintonia na TV2 Guaíba, ou
simplesmente TV Guaíba, canal 2, no programa Os Guerrilheiros da
Notícia. Um grupo de pessoas das mais diversas profissões -
e não somente ligadas à Comunicação Social - se encontram diariamente
para destrinchar temas recorrentes (ou nem tanto assim) ao espectador,
sempre sob o comando de Alcaraz. A produção precária do diário
televisivo, se comparada ao Padrão Globo de Qualidade, e o nome
Guerrilheiros, chamaram a atenção, ou o que falar desse termo tão
pejorativo aos ouvidos leigos? Ainda mais numa televisão, será que toda
uma audiência estaria às vésperas de se tornar subversiva? Pode deixar
a mania de perseguição de lado, pois revolução pela mídia é diagnóstico
quimérico ou que dá passos de tartaruga, e o Guerrilheiros não foge da
dosimetria dos veículos de massa. Isolando
determinadas opiniões emitidas no diário, ficou mantida a dúvida e a
persistência aumentou ao constatar, como todo tema negativo, que as
primeiras informações sobre o Flávio remetiam ao crime de abril de
1976... Aproveitei o emaranhado de informações para traduzi-las.
Dito e feito! Em pouco tempo,
o desenrolar que conduzia ao jornalista era envolvente, pois além da televisão, apareceram jornais
(Correio do Povo, Zero Hora...), e rádio então, a especialidade da casa.
No dial, Alcaraz foi pioneiro desde as transmissões na Copa do Mundo de
1958; no off tube da Copa de 1966, na Inglaterra; e ainda nos
mundiais futebolísticos, a sua última Copa em 70 e a chefia da delegação radiojornalística brasileira no país de Emiliano Zapata. O transistor
foi parceiro na sua carreira, sendo que tal descoberta
motivou as seguintes linhas: o cara transformou 4 das suas reportagens
(publicadas em boletins radiofônicos ou páginas de jornal) numa quadra
de livros, fora os três mais recentes, que não deixam de remeter
ao que foi captado dos fronts mundo afora para as antenas de
rádio e respectivos ouvintes.
O ano era 1967 e foi na Guerra dos Seis Dias que ele entrou para o rol
de escritores, ao imprimir a sua versão sobre o conflito que
envolveu Israel, Egito, Jordânia e Síria. Ou você nunca se ligou que
esse (e os múltiplos motivos) é um conflito milenar? Então, o
repórter, que havia passado no Vietnã, seguira da terra dos vietcongues
para a Venezuela (!), Itália e o desembarque na capital egípcia, Cairo. Em
linguagem clara, aliás, como os livros que estavam por vir, Alcaraz
atribui o subtítulo "Dramático relato de um jornalista brasileiro
presente no campo de batalha" (vide imagem à esquerda), passando pelos dois
lados em beligerância - Cairo e Tel Aviv. Em tempo, viciado em ação,
como pode ser visto no documentário Itinerários de um Repórter
(2006), foi a falta de ação que o conduzira a Israel, após alguns dias
com os habibs... Segundo Gomes, a população do Egito estava
alheia à guerra, se for levado em conta o discurso fatalista de Nasser,
líder daquele país e executor do bloqueio do Canal de Ácaba aos
judeus, medida que inviabilizava soluções pacíficas, como deixou claro o
Ministro do Exterior israelense, Abba Eban, em discurso na ONU. A fala
está reproduzida integralmente no
primogênito impresso - Morrer por Israel). Outras raridades do livro são as entrevistas com Nasser, no Cairo, e Moshe Dayan, homem da guerra no Estado de Israel.
Desde o primeiro tiro - dado por Israel - ao recuo egípcio do território
referente ao canal disputado, seis dias que ganharam os alto-falantes e
as páginas da Editôra Globo (isso mesmo, com circunflexo!).

"War for
territory"
Cumprindo a sina de correspondente internacional, máquina de escrever,
lentes fotográficas e gravadoras,
foram levadas no ano seguinte, 1968, à esperada conferência da paz entre
os Estados Unidos e o Vietnã, em Paris. Sem mentir ao contestar a lenga-lenga que sempre envolve acordos governamentais, o faro
jornalístico do Flávio foi "agraciado" pela iminente explosão das
insatisfações juvenis na capital francesa. Havia meses, universitários das
principais universidades da França reivindicavam alterações nos
procedimentos acadêmicos, e à época da citada reunião de paz
eclode a insurreição de Daniel Cohn-Bendit, Jacques Sauvageot e seus
enragés (raivosos), que zoaram com a sobriedade do General De Gaulle,
com as universidades de Sorbonne e Nanterre, e claro, com os flics,
os policiais encarregados da repressão. Da mesma maneira que
os trabalhadores, mesmo distantes da realidade social dos "ricos" estudantes, desencadearam o
processo que parou a França naquele mês de maio, a imprensa "maior" daquele país
fez ouvidos moucos e se fez de morta durante a rebelião, como informa o
autor, cabendo à imprensa "nanica" a cobertura do prélio. E lá estava
Monsieur Gomes, enviando textos e boletins para o Brasil... Sempre dado
ao que no universo fonográfico ganharia o nome de bonus tracks, Flávio
juntou uma entrevista com, nada mais, nada menos do que Jean Paul Sartre
e Daniel "Le Rouge" Cohn Bendit, o primeiro a indagar o segundo. Não é
bom deixar de frisar o acervo fotográfico e qualidade das imagens, quase
todas da agência Gamma. O livro saiu também pela Editôra
Globo...

O bicho pegando nas ruas de Paris
Em 1972 o Brasil fervia entre botas, fuzis e
capacetes, como dissera a banda Olho Seco nos anos 80. Comunistas
comedores de criancinhas de um lado, militares do outro e o povo no meio
do fogo cruzado despropositado, atmosfera propícia a um "grande
evento". A bola da vez seria a Amazônia, especificamente a
Transamazônica, que virou fetiche político da doutrina nacionalista
ma non troppo. Pelos quilômetros percorridos em busca da notícia,
quem não deveria faltar nos igarapés amazônicos? Ele de novo, o Alcaraz
parte da Porto Alegre subtropical para o calor equatorial da floresta,
após o convite do ministro Luiz Fernando Cirne Lima, desta feita
estendendo ao fotógrafo Santos Vidarte, igualmente do Correio do Povo.
Os dois retrataram em áudio, letras e imagens, o sonho
da ditadura militar, que dentre os inúmeros enfoques apresentados tanto
pelo governo - no discurso do Ministro Andreazza, que abre o livro - quanto
pelos repórteres, imortalizaram o projeto que, anos depois, findou em elefante branco.
Percebe-se que o projeto não foi execrável na essência, provavelmente
mal planejado e executado, mas é fato que o discurso patriótico e as
suas ressalvas estão definhando na política atual, ecos do
Neoliberalismo.
Sulistas, nordestinos, brasileiros em geral tiveram (terão) que esperar (e
esperam!) dias melhores para usufruir de algum projeto real de integração... Idem quanto à floresta, que sofre há séculos
a extração
meramente exploratória, mais antropocêntrica que ecológica, sintoma
destacado em "Transamazônica - A Redescoberta do Brasil". Os sintomas de
biopirataria também estavam lá!

Santos Vidarte (E), Alcaraz (D), em pé, no front verde

As
agrovilas dos colonos

Mesmo que a sociedade brasileira estivesse vivendo o fino do período
ditatorial, Flávio arrumou as malas em 1975 e foi à China.
E convenhamos, os generais nem deveriam embaçar com ele, pois a amolação
burocrática da "Cortina de Bambu" e os 4 anos na fila de espera por um
visto já honrava as pretensões do repórter. Da chegada a Shangai,
passando por Pequim e interiores do país, foi nesse escrito que Alcaraz
atenua a "fama" de direitista, que virou dilema no livro Profissão
Repórter.
Em alguns momentos se auto-enquadrando de pequeno burguês, ele
literalmente viaja pelo "continente" chinês, contando desde a
contribuição ao sistema revolucionário do gesto reles de matar mosca
(!) à Ópera de Pequim, à final do campeonato de futebol local entre Cantão e
Pequim (que ele não conta, para a alegria dos amantes do esporte bretão, quem venceu), às
políticas de (não) natalidade, à iguaria culinária recomendada ao vivo de Porto
Alegre a Pequim entre ele e o Érico Veríssimo: Pato Laqueado de
Pequim... Outro ponto curioso foi a experiência com a
acupuntura, tanto como espectador quanto paciente, aproveitando para
relatar como essa prática contribuiu de maneira incisiva para as frentes
de batalha de Mao Tsé-Tung, durante o rompimento das amarras chinesas
ante o Ocidente. Detalhe: a estada sempre resguardada por três
fiéis escudeiros designados pelo Partido Comunista. No papo com o próprio Flávio, ao final da reportagem
feita pelo Dissonância, ele se diz encantado com o que viu e uma das
provas está no próprio Um Repórter na China: "Mesmo privando seu
povo da liberdade, a Revolução tornou o cidadão digno." Ficou tudo
registrado, textualmente falando, nas páginas deste livro lançado pela
Editora Garatuja e do Correio do Povo.

Comuneiros
no arrozal vermelho
Duas publicações que distam 12 anos entre si, mas
apresentam a semelhança do formato "diário". Nem por isso registram causas
idênticas, ao contrário, Prisioneiro 39310 - Profissão Repórter (L & PM) guarda
uma passagem não muito "cor-de-rosa" para o andarilho da informação. No ano
seguinte à investida no território chinês, paira a circunstância citada
acima - o homicídio de 11 de abril de 1976! Assim, a pedido dos próprios
editores enquanto encarcerado, Flávio enumera em 167 páginas o período que
compreende desde o crime até a soltura. São várias nuances descobertas no
presídio, local que não rimava com o repórter campeão em milhagens.
Preso seria a última pauta para um próximo livro,
uma nova reportagem; Cuba, Coréia do Norte, sabe-se lá, tudo menos o cadeado...
O leitor irá se deparar com
o infortúnio mais em nível descritivo, sem muito detalhamento e contraditório,
um estopim para as próximas páginas. Importante ver a linha tênue entre a liberdade e o cárcere, entre o vôo
e a amarra... Dolo ou culpa não valem muito para o
leitor, principalmente se houver um estudo cronológico destes livros,
e independendo do protagonista, fica a "lição".
Diários de um Repórter, de 2004, é a
outra obra. Como diz a
contracapa, "é um balanço da vida de um homem apaixonado pela sua
profissão". Aqui ele narra tudo o que virou livro ou não, aliás, essa
alternativa é bem pequena se comparada à infinidade de destinos
percorridos por ele. Malvinas; Vietnã; a guerra do Yon Kippur entre
Egito, Síria e Israel, em 1973; a Guiana Francesa de Papillon, livro e personagem
verídico que alentou Gomes na prisão; em 1969, em Cabo Kennedy, no
lançamento do Homem à Lua; enfim, pontos de chegada e de partida raros
no jornalismo contemporâneo, sedado pela submissão crescente às agências
de notícias e seus conglomerados internacionais. Mas existe também espaço
para amenidades, viagens "à paisana", fora de trabalho, bem como um
conteúdo diversificado ínsito em suas notas que persistem até hoje no periódico Correio do Povo... Em 1995 foi lançado Diário de um
Repórter - 50 anos sem medo (Editora Mercado Aberto), o sexto livro
do jornalista, de proposta quase igual ao Diários, mas que ficou
de fora por ser um livro de memórias, que traz a prática de repórter
como um dos ingredientes das 270 páginas. Nesse material, a ênfase é na
vida do autor, e não apenas nas inquietações de comunicador.
Compor
as presentes linhas partiu da curiosidade necessária à compreensão não
só de um profissional, mas entrar na guerrilha
através das pechas, como foi dito antes, apregoadas pela consciência
fácil e incriminadora. Após um rápido riso ao conhecer o ponto de
partida que fora o programa na TV, juntei-me à casamata do tempo para
celebrar a iniciativa, aí sim, do personagem irrequieto, sem
esquecer que os próprios temas redigidos por ele seriam novos
em certas profundidades históricas. Não, os seis livros do guerrilheiro, que
não é vermelho, deixam a desejar se a análise parte para a busca de compêndios de
História ou de um manual de como fazer reportagem. O aditivo está na
escrita fácil, que não precisa ser leitor acadêmico para traduzir os assuntos,
e transformá-los em peças capazes de ajudar a entender a dinâmica da
sociedade.
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Seria
justo faltar uma prosa com o protagonista e autor dos seis livros? Hummm, acho que não...
Pensando nisso, além das constatações de quem a esta subscreve, o
caminho natural seria mesmo encontrar com o "cabra andejo", como poderia
ser chamado o guerrilheiro lá no Nordeste, que ele visitara em 72, antes
do desembarque para a Amazônia.
Assim, localizamos o Flávio
no seu habitat natural, no caso, a sede de um jornal - o Correio do Povo
-, de onde está a emitir e dar continuidade ao seu trabalho, por mais
que o tempo seja mano velho e não permita tantas peripécias e consumo de
milhas aéreas. Aproveite, é papo rápido e rasteiro, mas bem especial!
Dissonância -
É sabido que a partir de
44 o senhor começou a trabalhar com Comunicação, mas mesmo sendo
correspondente internacional o seu primeiro
livro veio apenas em 1967. Qual o motivo de se iniciar no universo
literário lançando "Morrer
Por Israel"?
Flávio Alcaraz Gomes - Eu
não tinha a idéia de escrever quando eu voltei da guerra. O Érico
Veríssimo me convidou, ele e a mulher dele, Dona Mafalda, para irmos eu e
a minha mulher, Maria Clara, à casa dele. Ele pediu-me que contasse as
experiências que eu havia vivenciado, aí conversei longamente, ali pelas
tantas ele diz: "Por que tu não escreves um livro sobre isso?" Foi aí
que surgiu a idéia e entrei em contato com a Editora Globo; fui para a
praia - eu tinha uma casa na Atlântida - e em 2 semanas escrevi o
"Morrer Por Israel". Foi best-seller da Feira do Livro, foi um
sucesso, contando as minhas experiências e ilustrado com fotos que eu
havia trazido de Israel e do Egito. O livro, inclusive, foi traduzido
para o espanhol e fez sucesso na Argentina sob o título de "Morir Por
Israel".
Dissonância - E no segundo livro?
Flávio Alcaraz Gomes -
Em 1968 eu fui cobrir a conferência da paz entre Estados Unidos e
Vietnã, em Paris, e nessa oportunidade foi desencadeado o maior
movimento revolucionário urbano do século XX - os jovens estudantes,
revoltados contra as instituições. Na volta, a Editora Globo me pediu
para escrever um livro a respeito, pois eu tinha conseguido fotografias
muito interessantes; foi escrito em tempo recorde também: 10 dias eu
fiquei trancado na casa do meu pai, em Belém Novo (Porto Alegre/RS), e
saiu "A Rebelião dos Jovens", Paris, maio de 1968.
Dissonância -
Aí quatro anos depois, em 1972, o senhor contribui para a redescoberta
da floresta amazônica!
Flávio Alcaraz Gomes -
Ah, eu me encantei! Fui convidado para fazer uma cobertura dos trabalhos
que o governo estava implementando, a partir de convite feito pelo atual
presidente da Copesul, Luís Fernando Cirne Lima, que era Ministro da
Agricultura. Conhecer a Transamazônica, o processo de
colonização que estava sendo feito por lá... Fui com o companheiro
e um dos maiores fotógrafos que tivemos aqui na nossa imprensa, Santos Vidarte. Ficamos uns 10 dias na
Amazônia, e na volta, eu escrevi uma série "Transamazônica", publiquei
uma série de reportagens no Correio do Povo e reuni em livro, editado
pela Sulina, intitulado "Transamazônica - A Redescoberta do Brasil".
Dissonância -
Trazendo para hoje, por exemplo, que a gente sabe do interesse dos governos
de tempos em tempos quererem erguer uma obra grandiosa, a Transamazônica
da vez é a transposição do Rio São
Francisco. O senhor, que viu e se absorveu a idéia inicial da estrada
nos anos 70,
como é que vê a perspectiva desse outro, provavelmente, elefante branco,
que é transpor o rio quando ele precisa mesmo, pelas agressões, é ser
revitalizado?
Flávio Alcaraz Gomes -
Eu acho um projeto muito caro e não sei se o Brasil está em condições de
enfrentá-lo, e não sei se terá os resultados almejados. É isso aí, em
poucas palavras.
Dissonância -
E "Um Repórter na China", em 1975?
Flávio Alcaraz Gomes -
Era uma dificuldade chegar, mas fui um dos primeiros a ir à China.
Depois da permissão, o Mao Tse Tung estava doente, o Chou-en-Lai também,
eu fui a convite da Air France no vôo inaugural feito
para Pequim. Saímos de Londres, cruzamos a calota polar, aterrissamos em
Tóquio e fomos a Shangai. Chegamos em Pequim, fomos para várias cidades
do interior, entre elas Cantão, e finalmente, Macau, Hong Kong, daí voltei
para cá. Aí também fiz uma longa série de reportagens para o Correio do
Povo e para um jornal de Brasília, e a Editora Garatuja me pediu para
que fechássemos num livro, que foi "Um Repórter na China", em 1975.
Dissonância
- Não
ficou com receio de naquela época de ditadura ir até a China?
Flávio Alcaraz Gomes -
Não, mas fiquei foi encantado com a China.
Dissonância
- O
atual avanço chinês na economia internacional o surpreende?
Flávio Alcaraz Gomes -
Agora é totalmente diferente, tornou-se capitalista. Eu encarava a
China, apesar do regime comunista, como uma pureza. Gostei muito do que
vi na China, isso consta no meu livro.
Dissonância
- Nos
2 últimos livros o formato de diário foi o escolhido, apesar de um ser ligado ao seu
momento no cárcere e o outro a uma retrospectiva da carreira. Por que adotou
essa linha nos dois mais recentes trabalhos?
Flávio Alcaraz Gomes -
Porque eu sempre fiz um diário. Tenho várias prateleiras da minha
biblioteca com livros de capa dura com várias das minhas experiências
nas várias viagens que fiz. Na penitenciária, fiz um diário com todo
o meu dia-a-dia mesmo, todo o tempo que permaneci lá. Aí a L & PM
Editores, do Ivan Pinheiro Machado e do Paulo Lima, me pediu para que eu
escrevesse um livro, e publiquei "Prisioneiro 39310 e não sei das
quantas - Profissão: Repórter". Teve 7 edições consecutivas e foi um
sucesso. Até hoje recebi um e-mail sobre ele, olhe aqui: "Estou
procurando o livro 'Prisioneiro 39310 - Profissão: Repórter", do Flávio Alcaraz Gomes, e não o encontro nas livrarias aqui em Porto Alegre.
Gostaria de saber se vocês saberiam me dizer uma forma de eu
adquiri-lo".
Dissonância
-
Observei nas leituras aqueles pratos nos intervalos das
reportagens com outros jornalistas nas suas viagens e, de repente, vi
também aquele momento do fogão de duas bocas no "Profissão: Repórter".
Sem falar da inversão que a vida sofre num pequeno lapso, então eu queria
saber desde o Pato Laqueado de Pequim ao tal fogão, o que
passa pela cabeça, ainda mais que o senhor tinha uma experiência exitosa
no profissional, após a experiência de 1 ano no cárcere, o que
alterou na sua percepção?
Flávio Alcaraz Gomes -
Tu mantendo o trabalho nada altera. Eu me proponho sempre a um regime de
trabalho o dia inteiro. Como me proponho na liberdade ou na prisão.
Sempre trabalhando.
Dissonância
- E
o mal-estar com um dos encarcerados? Li os livros na seqüência e na hora das passagens da
penúltima obra, eu pensei: "Olha no que ele foi se meter!" A vida me
pareceu, outra vez, uma linha tênue...
Flávio Alcaraz Gomes -
Pois é. Eu tenho uns 30 e tantos volumes dessa oportunidade dos diários,
talvez eu reedite, futuramente, com um título do Dostoiévski que eu gosto
muito: "Memorial da Casa dos Mortos". Te aconselho a leitura, se não
lestes!
Dissonância
-
Está anotado. Ainda não tive a chance de conhecê-lo, só pelo nome...
Voltando ao "Morrer Por Israel", não mudou muita coisa de lá para cá,
não?
Flávio Alcaraz Gomes -
Mudou, mudou. Eu achava que o povo israelense era muito mais idealista,
muito mais pioneiro. Agora é um conflito que não tem futuro e que vai se
agravar cada vez mais. Aquele entusiasmo que eu tinha, perdi. A situação
está muito difícil. Foi uma operação fulgurante, uma guerra de seis
dias. Agora, há quantos anos estão nessa situação, se matando tipo no
Iraque? Infelizmente será assim...
Dissonância
- O
quanto de ficção teve nos seus títulos? Notei que o primeiro foi o que
teve maior incidência, enquanto os outros descreviam mais o que estava
sendo visto mesmo...
Flávio Alcaraz Gomes -
Acho muito apropriado o lema do Eça de Queirós, no seu
livro que eu te aconselho a ler também, "A Relíquia". Ele abre o livro "sobre a
nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia". Misturei ficção
com a realidade, se bem que é como tu disses, tem alguma coisa de ficção
no primeiro livro, nos outros é o momento do momento, não tem fantasia.
Dissonância
-
Sobre o vídeo, eu queria uma opinião!
Flávio Alcaraz Gomes -
Tu vistes o vídeo? Tá muito bonito! A equipe da Ulbra é maravilhosa, o
Ferraretto é um grande mestre, tanto que eu estou aproveitando ele aqui,
ainda hoje participou do nosso programa. Um cara preparado, culto,
humilde, e é isso que falta na profissão. Ainda ontem eu estava dizendo
na televisão e repeti hoje no rádio: um ensaio da revista Times, que eu
gosto muito, é muito verídico ao dizer que "não há maior concentração de
prepotência por metro quadrado do que na redação de jornal, rádio ou
televisão. Não há ambiente de maior prepotência". Então, jornalistas,
como disse o Rubem Braga, "sejamos humildes, colegas".
Dissonância
- É daí que vem a concepção do
"guerrilheiro da notícia"?
Flávio Alcaraz Gomes -
Quando com 60 anos de idade resolvi sair da Rádio Gaúcha e vim para cá
com os mesmos 60 anos. Me demiti, tentei uma nova oportunidade. Aí
pensei: vou brigar com aquele império? Lembrei-me de um número, acho que
da Shell, "quem não é o maior, tem que ser o melhor".
Dissonância
- Esso!
Flávio Alcaraz Gomes -
Isso mesmo, era da Esso: "Quem não é o maior, tem que ser o melhor!". Na
guerra, quem é que vence? O exército mais forte. Eu não tenho exército,
e como vou enfrentar? Com a guerrilha. Aí ficou "os guerrilheiros da
notícia", até registrei o título!
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Aqui é a vez do professor Luiz Artur Ferraretto, atualmente professor na Ulbra,
que foi trazido a esta matéria graças ao vídeo dirigido pelo próprio,
uma homenagem ao guerrilheiro... Junto à turma de monitores e
profissionais do audiovisual, destrinchou boletins, sonoras, livros, imagens
raras (outras nem tanto), tudo a ilustrar um pouco do vasto itinerário
percorrido pelo Flávio.
Com quase 50min, ao final da
entrevista é possível acessar o link para baixar o
documentário, no mínimo curioso, e daí abrir a capacidade de visualizar
o que foi arrolado nas palavras acima. Na conversa, ele aproveita e
apresenta o CPA, os bastidores do feitio do vídeo, incluindo uma opinião
acerca dos Flávios de ontem e os de hoje - dos comunicadores e
estudantes de outrora e dos contemporâneos dias neoliberais...
Dissonância
-
Poderíamos começar a partir da apresentação do que seja o CPA...
Luiz Artur Ferraretto -
Bom, o CPA é o Centro de Produção Audiovisual da universidade, ele tem
duas características básicas: atende os estudantes, é um conjunto de
laboratórios nas áreas de áudio, vídeo e fotografia, e ao mesmo tempo,
ele tem um núcleo de produção que atende à produção de vídeo
institucional da Ulbra. Então nós damos suporte a uma série de
atividades como núcleo de produção sem interferir na parte acadêmica.
Fazemos suporte, por exemplo, para a Ulbra TV, produzindo vídeos
envolvendo temas para a área comercial da instituição... Enfim, ajuda na produção de comerciais, essas coisas assim.
Nesse núcleo de produção nós temos uma jornalista responsável, Vera Méndez, que é
coordenadora do CPA também.
Dissonância
- E
a estrutura do Centro, de que forma é composta?
Luiz Artur Ferraretto -
Além de Vera, nós temos mais 1 jornalista,
temos 1 técnico de computação gráfica e 1 editor de pós-produção. E 4
monitores - 4 alunos que trabalham ali, atualmente 3 de Comunicação,
provavelmente do curso de Jornalismo, mais 1 do curso tecnológico em
rádio. Fora isso, no atendimento aos alunos a gente
compartilha essas técnicas de produção gráfica, e o restante, a gente tem
2 operadores de áudio, sonoplastas; 2 técnicos laboratoristas de
fotografia, 2 cinegrafistas e 2 editores de vídeo. Temos 1 estúdio de
TV, 2 estúdios de fotografia, 2 laboratórios fotográficos, 3 estúdios de
áudio e 1 laboratório de edição multimídia. Essa é a estrutura do setor.
Os nossos funcionários são todos de mercado. Nós, especificamente, só
trabalhamos com pessoas de mercado.
Dissonância
-
Quando
aparece o Canal Web?
Luiz Artur Ferraretto -
A gente tinha um circuito interno de TV no campus... Passei a
administrar esse setor, que na época se chamava Telecentro, em julho de
96, e já havia esse circuito interno. Para esse circuito a gente produzia
material de aluno, tocava clipe, e tinha um sistema de teletexto.
Em junho de de 2000 colocamos esse circuito interno de TV na internet e
transformamos na Ulbra Web TV, que era a idéia de ser mais um
instrumento de divulgação dos trabalhos dos alunos na universidade, uma
espécie de auxiliar do que estava sendo feito pela Assessoria de
Comunicação Social da Ulbra.
Com o surgimento da TV da Ulbra em canal UHF isso aí perdeu o sentido, então nós deslocamos ele...
Vínhamos fazendo umas experiências não no sentido de ter uma rádio
na internet, mas pequenas experiências de colocar alguns programas de
rádio. Por exemplo, uma época eu dava aula na cadeira "Técnicas de Rádio
II", hoje Radiojornalismo II, e meus alunos faziam uns programas
com entrevistas e reportagens, daí colocávamos ao vivo. Como tinha áudio e tinha vídeo,
a gente não podia chamar de rádio na web, nem de TV. Então não sabíamos o que fazer, na realidade.
E tem outra coisa, na época eu era gerente do Centro de
Produção Audiovisual e a gente começou a formatar o Cana Web da Ulbra,
começamos a fazer as experiências - na verdade, como professor, o único
que estava fazendo isso era eu na minha disciplina. Ninguém mais topava,
e aí por um acaso do destino, eu virei diretor do curso de Comunicação
Social, no ano passado. Aí o Canal Web, que era quase uma brincadeira,
porque não funcionava direito, no máximo a gente estava solto no ar,
sem ligação direta com algum curso,
pegamos um monitor que vinha trabalhando na produção, um aluno, trabalhando na produção
musical, então botamos programação 24h. Vi uma experiência numa
universidade paulista, em Bauru, e achei interessante, conseguimos
alguns softwares free por indicação do pessoal de lá. Baixamos os
softwares e começamos a trabalhar. Como eu era o diretor do curso,
tornei oficial o projeto.
Dissonância
-
Baixou um decreto!
Luiz Artur Ferraretto -
É, baixei um decreto e comecei a trazer professores para a gente montar a
cara do canal. No primeiro semestre desse ano começamos, efetivamente, a
transmitir, fizemos a programação, uma atividade da Agência
Experimental de Comunicação integrada à oficina de rádio. A
gente tem de mesclar doutor e mestre com gente que está no
mercado. Aí conseguimos formatar a programação que está no Canal Web
hoje, que é basicamente de programas semanais dentro da oficina de
rádio, está por entrar um programa de debates que vai ser produzido
pelos monitores do CPA... Tem uma
programação, por entrar em dias, feita pelo pessoal da oficina de
televisão e um telejornal, de início, quinzenal, que vai ser repetido
todos os dias no mesmo horário. E com o pessoal de Radiojornalismo, que
faz noticiário a cada aula.
Dissonância
-
O que são aqueles vídeos que estão no site?
Luiz Artur Ferraretto -
Ali tem 3 ou 4 tipos diferentes, tá? Tem institucionais, trabalhos de
alunos, normalmente ex-monitores do CPA, pois a gente sempre deu o
espaço para o cara assim: é do interesse da universidade em divulgar, é
interesse do aluno em aprender, então abrimos espaços para quem queira
fazer... Em horário livre e tal. Tem alguns vídeos institucionais, os
vídeos que concorreram em Gramado - uns venceram, outros não.
Esse, Itinerários de um Repórter, é o seguinte: eu sou professor do curso e
responsável pelo laboratório há 10 anos. Estava fazendo o meu
doutorado na UFRGS e fui pesquisar no acervo da Caldas Júnior
sobre um narrador esportivo, o Pedro Carneiro Pereira. Só que aí, tchê,
eu me dou conta de que ia fechar também em 3 ou 4 meses os 30 anos
da morte do Pedro. Conversei com o Otto (Bede), técnico de
áudio, e ele disse que devia fazer um vídeo para concorrer em Gramado,
no Gramado Cine Vídeo. Falei com os alunos, eles ficaram meio assim: "Pô,
quem é esse cara, a gente nunca ouviu falar", e isso é um problema da
geração atual, desconhecimento total e desinteresse para mexer com a
História, com a cultura, alguma coisa que vá além do momentâneo. Mas a
gente convenceu, começaram a se envolver. Só que não conseguimos
aprontar o vídeo em outubro. Terminamos em março do ano
seguinte! Distribuímos entre os jornalistas, botamos para baixar na
internet, mostramos o vídeo e convenci os caras que
dá para fazer, mesmo não tendo sido eu que fiz o projeto.
Aí surge a
TV da universidade e perdi todos os caras que trabalhavam comigo naquele
tempo, essa gurizada foi toda aproveitada para a TV da Ulbra, e os que
não foram aproveitados na Ulbra foram para outros canais de TV, então
tive uma mudança no quadro. Então fomos eu e os meus alunos no programa
do Flávio (Alcaraz Gomes) para falarmos sobre o documentário do Pedrinho, era o momento
de pedir ao Flávio para fazer o próximo vídeo com ele. Tá. Acontece que
os meus alunos saíram, a TV Com fez um programa "Histórias" com o
Cândido (Norberto) e aí pensei assim: conversaremos nós aqui e com a universidade
para não perdermos a oportunidade de fazermos o documentário do Flávio.
Agora tem uma emissora de TV e o máximo que a gente pode fazer é passar
na emissora da Ulbra, botarmos nossos alunos para um trabalho em
funções auxiliares e vamos fazer! Tinha que optar entre o Cândido e o
Flávio, e como sobre o Cândido tinha saído um recentemente, tá, vamos
fazer o do Flávio. Começamos a produzir em dezembro de 2005. Fizemos uma
primeira entrevista, num calor infernal, e a gente não podia deixar o
ar-condicionado ligado por causa do barulho. A gente ligava o ar,
desligava um pouco, tornava a ligar... Fizemos em duas tardes: numa tarde,
quinze dias depois, outra; um ano depois tivemos que gravar um outro
pedaço, porque não fechava com a parte que ele vai para as Malvinas;
levamos dois anos para produzir o vídeo.
Dissonância
-
Os direitos
sobre as imagens foram fáceis de serem adquiridos?
Luiz Artur Ferraretto -
Pegamos tudo no arquivo da TVE-RS, TV Guaíba...
Dissonância
-
Tem os
boletins do rádio também...
Luiz Artur Ferraretto -
Sim, os de rádio não foram tão fáceis em alguns casos. Mais difícil foi
conseguir a gravação daquele trecho da prisão, pois nem o Flávio tinha.
Tem umas imagens do zepellin que não existem, é uma foto que a gente
animou, inclusive, tchê, tem imagens que a gente não usou. Fora os
aspectos técnicos, tem o pessoal, estava terminando o doutorado, não tinha tempo de sentar com o editor para que
o vídeo fosse fechado... Mas tem outra coisa: pegamos o neto do Flávio,
arrumamos a roupinha, e bah, onde que a gente vai gravar o Flávio
correndo para ver o zepellin? Ali é a Travessa dos Venezianos, e aí corta
de frente para ele num prédio na Santo Antonio, aí eu queria um canto no Bomfin de prédios antigos para passar em computação gráfica o zepellin.
Só sei que fizemos dezenas de
vezes. O nome do vídeo era pra ser Eu Vi a Guerra, mas assim
seria só uma parte da vida do Flávio, portanto ia ser mais curto.
Os guris coloriram quadro a quadro, só que
levaram nisso uma semana, tirando a cor ou colocando. Levam 2 semanas
tirando a cor, só que o efeito não ficou bom, a gente não tinha software
para isso e aí não insistimos. Imagens da TVE, fotografias animadas e ali era para ter, no início, a imagem
do guri olhando para cima e passando o zepellin, então nós fizemos umas
quinhentas imagens e esse guri passou umas três tardes com o pessoal da
produção - o Flavinho com a mãe, fazendo a imagem que ia ser usada com o
zepellin. Tínhamos que cuidar se o céu estava bem azul, coisas
assim... Foi então que veio a idéia do Itinerários mesmo, do tracejado e aí tinha
problemas como: quem a gente vai colocar na locução? Como é que vai
arrumar isso? Chegamos a pensar em fazer como se fosse um causo, mas não teria
a ver, o Flávio não é gauchesco. Aí pegamos o Paixão Cortes,
porque ele é amigo do Flávio e a voz ficava o equivalente ao causo.
Como a gente não tinha muitas imagens, até por não ser uma emissora de
TV, não ter acervo de imagens, tivemos que contar com a TVE-RS, TV
Guaíba e com muito amor na liberação das coisas, e outras coisas mais no
grito, no acaso, como o acesso a documentários produzidos pelo Governo
de Israel sobre as guerras, então conseguimos essas imagens. Mas tudo
citado no vídeo.
Dissonância
-
E as
locuções?
Luiz Artur Ferraretto -
As locuções
a gente usou para pontuar, na
realidade, o documentário é uma entrevista cheia de gravações de época,
e para botar o mínimo de locução, que ia nos obrigar a ter imagens para
cobrir e as imagens seriam as mesmas, nós usamos um artifício...
Dissonância
-
Os mapas!!!
Luiz Artur Ferraretto -
Isso, os mapas, os itinerários todos em mapas como vinhetas, além
dos noticiários. Então a gente cuida quando o Flávio tá na Gaúcha, os
noticiários não são da Gaúcha, são refeitos como se fossem, o locutor é
o noticiarista da época; quando o Flávio tá na Guaíba, os textos são
lidos pelo Milton Jung, e cuidamos para que fossem os textos
exatamente do período em que Jung era o titular do Correspondente
Guaíba, não tem nenhum texto antes de 61, que foi quando ele assume.
Dissonância
-
Aquela
locução do Getúlio também?
Luiz Artur Ferraretto -
Não, aí nós temos dois: o Lauro Hagemann, fazendo o Repórter Esso, e
usamos um trecho de um documentário da Rádio Nacional sobre o Repórter
Esso. Teve também um trecho do Heron Domingues como se ele estivesse lendo
várias notícias sobre a II Guerra Mundial, aí cobrimos com imagens da
guerra. Depois a gente usa um trecho do Silvino Neto lendo a
carta-testamento do Getúlio. Silvino Neto é o pai do Paulo Silvino.
Silvino fazia, fora um personagem que era o Pimpinela, famoso no rádio
da época, imitações do Getúlio com perfeição para debochar...
Claro, quando o Getúlio morreu aproveitaram e gravaram a
carta-testamento com a voz do Silvino. É uma coisa meio sobrenatural. E
essa gravação, nesse período em que a gente estava produzindo o material
do Pedrinho, veio quando estive num congresso com pessoas que pertenciam ao
Núcleo de Pesquisa em Rádio e Mídia Sonora
da Intercom, especificamente sobre Getúlio Vargas e o rádio. Cada um levou as gravações
que tinha, saiu um livro com dois cd's, e uma colega do Rio levou essa
gravação. Todo mundo ficou surpreso com a voz do Getúlio, um troço
gozado... Acho que foi o Luciano Klöckner, que também está no livro, que
chegou a perguntar para ela: "Em que sessão espírita tu fostes para
conseguir isso?". A gente usou e o grande lema desse vídeo é tu contar a
História para um público que normalmente acha um saco, há uma diferença
muito grande entre o aluno de hoje e o dos anos 70, infelizmente.
Dissonância
-
Como
os alunos recepcionaram o vídeo?
Luiz Artur Ferraretto -
Nós mostramos esse vídeo, antes de finalizado, antes de dizermos "é
esse". Acabou sendo a definitiva, mas a gente não tinha certeza disso.
Ah, trocamos apenas
uma trilha por causa, pois alunos entenderam que a trilha ali na passagem da Copa do Mundo da
Inglaterra era para lembrar a Inglaterra,
e segundo eles, lembrou a França, então nós trocamos. Mas mostramos para 2 turmas de
Fundamentos de Comunicação, e olha, levantou um ou outro aluno da turma
de um total de 100 alunos durante os 50
minutos, coincidindo com o horário de intervalo. Então, pô, esse vídeo
está legal. Passamos também em recepção de calouros, tranqüilo... E nós
tivemos um retorno muito grande porque enviamos 40 cópias para
jornalistas e recebemos diversos e-mails.
A gente
passou um dia na TV da Ulbra, inscrevemos num festival de vídeo
universitário de Gramado como Produção de TV, porque a gente produz
normalmente para a TV da Ulbra, e não foi classificado, para a minha
surpresa. Não sei se é reflexo de hoje ou
porque o festival é mais voltado para questões de responsabilidade
social, embora o que se viveu seja uma forma de responsabilidade também.
Goste ou não do Flávio Alcaraz Gomes, ache que ele é de direita ou não,
pensem que ele é isso ou aquilo, é um relato sincero dele, pois a maior
parte do tempo é ele falando, e ele não tem papas na língua para falar
sobre as coisas que ele se envolveu positiva ou negativamente. Eu acho que,
nesse aspecto, o Flávio é um cara de coragem. Eu não defendo as mesmas
posições que ele, mas admiro o Flávio porque ele é história do
jornalismo no Rio Grande do Sul, e é, provavelmente, o jornalista mais
importante no jornalismo daqui, a partir da segunda metade do século XX.
Dissonância
-
E o
guerrilheiro, o que disse sobre o Itinerários? E a sua
experiência na direção do documentário?
Luiz Artur Ferraretto - Uma coisa
importante que se diga: o Flávio não teve interferência alguma na
produção do vídeo. Ele não quis ter, eu quis mostrar uma parte mais
complicada, queria a opinião dele em algumas partes, e ele: "Não, me
mostra só quando tiver todo ele pronto". E quando estava pronto, ele
chorou, ficou emocionado. Nós fomos lá na casa dele quase 2 anos depois
de ter produzido.
Agora eu vou dizer uma coisa, tchê, da minha
experiência com três produções, na realidade, duas eu interferi
diretamente, que foram os vídeos do Pedro e do Flávio, esse do Flávio eu
fiz o vídeo, no do Pedro eu só auxiliei, nesse os guris da equipe fizeram 90% da
edição. Edição que eu digo é a montagem! Mais a experiência de acompanhar o vídeo sobre o Carlos Nobre.
Eu te
digo que temos um problema cultural muito sério no Brasil. Eu não sei,
estou escrevendo agora sobre a mudança dos hábitos de escuta e o
empobrecimento do rádio reduzido exclusivamente a falar, só falar, pois aquilo
que cria outras mensagens e outras coisas na tua cabeça foi reduzido
a nada, e se tu aplica isso ao jornal, por exemplo, o jornal está
reduzido a poucas palavras. A gente caiu na bobagem do light, do
paz e
amor, do querer fugir a confrontos. Todo mundo aceita todo mundo e não
toma posição, o que está acontecendo nas salas de aula desse país é
reflexo de tantos anos de ditadura militar, reflexo de um sistema
educacional completamente absurdo, chega na universidade e o aluno não
sabe nem interpretação de texto. O pavor que existe hoje é a
interpretação de texto, é a prova de História, a prova de Geografia, no
meu tempo era a de Matemática, Física, e já era um absurdo. Agora o
problema todo é se o cara sabe ler, tem dificuldade de interpretar,
se a sociedade a todo momento cobra dele "o momento", só aquele instante
e não o percurso para se chegar àquele instante, a gente não tem
estudantes se interessando por História, por uma coisa que vá além do explícito. É
isso que estamos vivendo. E a internet está ajudando também, ao mesmo
tempo em que está ajudando à simplificação.
Dissonância
-
Qualquer coisa, deleta!
Luiz Artur Ferraretto -
É, copiar e colar. Outro dia um aluno meu estava trabalhando e eu
trabalho dando aula de redação há uns 10, 12 anos, sempre da mesma
forma: o cara pega o jornal do dia e tem de transformar o jornal
do dia num texto de rádio. É o primeiro exercício que eu faço. Para a
minha surpresa, é que, gradativamente, o jornal está pior e o meu aluno
tem cada vez mais dificuldades em achar uma notícia no meio daquela
confusão toda. Outro dia uma aluna pega uma notícia no
principal jornal do Estado, que dizia sobre uma doença, um problema com a
doença... E que doença? Teve que ir à internet para descobrir...
Dissonância
-
Descobriu através dos sintomas?
Luiz Artur Ferraretto -
Não, pelo nome da entidade. Eram mais interpretações econômicas que não diziam o nome
da doença. Era febre aftosa, acho. E a surpresa dela: "Olha aqui, Ferraretto, o texto é o mesmo da entidade, só fizeram copiar e colar...
Ou do site ou do release que possa ter recebido"... Tem um filme
brasileiro que eu acho interessante, chamado "O Príncipe", que fala
sobre um
sujeito na época da ditadura que se auto-exila na França, volta para o
Brasil e vai reencontrar o país transformado, as pessoas se
preocupando em fazer ginástica, exercitar os músculos e não exercitar o
cérebro. Ele encontra um colega jornalista que ainda bebe e fuma,
porque hoje em dia é "proibido", o cara não pode se envenenar com fumaça
de cigarro, mas pode se envenenar com o stress, produtos light,
adoçantes cancerígenos que são uma barbaridade, com as gorduras trans e
não sei mais o quê... E o cara diz: o Jornalismo virou Colunismo Social!
E os blogs aí por toda as partes, os programas de rádio, de TV, puro colunismo social, tchê,
isso reflete no aluno da faculdade.
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Além:
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Link para
download do vídeo Itinerários de um Repórter
.
Página oficial do Canal Web
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